A adolescência é uma fase de descobertas para muitas meninas. É também o período de definição sobre o que querem fazer na fase adulta e as áreas de formação que gostariam de abraçar.

No entanto, nem sempre esse momento corre como se espera e elas acabam interrompendo o seu curso de desenvolvimento. A partir dos 15 anos, por exemplo, elas podem encontrar o primeiro namorado e acabarem grávidas ainda no ensino primário ou no primeiro ciclo do nível secundário.

A gravidez precoce e as uniões prematuras figuram no topo das causas do abandono escolar por parte das raparigas no país, com maior enfoque para as zonas rurais, onde estas não têm a possibilidade de frequentar as aulas no período nocturno.

No distrito de Moamba, província de Maputo, o cenário não podia fugir a esta pequena “regra”. Ali, muitas raparigas com idades compreendidas entre 14 e 17 anos procuram os serviços de saúde para as consultas pré-natal e o controlo de crescimento dos seus bebés.

Quando a nossa reportagem chegou ao Centro de Saúde da Moamba, uma situação peculiar chamou atenção – o facto de a maioria das mulheres que procura os serviços de saúde materno infantil serem adolescentes e/ou mulheres com mais de cinco filhos.

No caso das adolescentes, são meninas que descobriram a vida sexual mais cedo e por falta de informação sobre os métodos anticonceptivos ou poder de decisão sobre a relação, acabaram grávidas e foram encaminhadas pelos pais para a casa dos seus parceiros. Mira Armando tem 17 anos de idade, vive na zona de cimento da Vila de Moamba e é mãe de uma bebé de sete meses.

Segundo conta, conheceu o seu marido quando tinha 15 anos e ele 19 anos. Desse envolvimento, Mira ficou grávida aos 15 anos e teve a filha no ano passado. Com isso, ela teve que interromper o ano lectivo e viver em casa do pai da sua filha e abandonou a escola por completo.

“Era aluna da 7ª classe, quando engravidei e com a gravidez fiquei impossibilitada de realizar os exames finais. Os meus pais optaram em me levar à casa dos meus sogros para que cuidassem de mim no período pós-parto”, conta a jovem.

Com os cuidados oferecidos na consulta pré-natal, Mira conseguiu levar a gravidez a termo e ter um parto normal, assistido por técnicos de Saúde Materno-infantil no Centro de Saúde da Moamba.

É que apesar dos avanços alcançados na medicina, uma gravidez na adolescência traz consequências para a rapariga, pois as exigências para o seu crescimento e a probabilidade de uma gestação de risco, que pode terminar em aborto, parto arrastado ou nado morto são maiores.

O Ministério da Saúde (MISAU) reporta que as taxas de mortalidade materna são elevadas no país, estimando-se que ocorram 400 mortes por 100 mil nados vivos, parte das quais acontece em menores de idade que se casam numa fase prematura, devido a complicações no parto.

Eles decidem pelo

uso do preservativo

 

Uma das causas da gravidez na adolescência é a incapacidade de negociação das raparigas sobre o uso dos métodos anticonceptivos ou de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, decisão que acaba sempre ficando com o homem, quer seja jovem ou adulto.

É que mesmo nas relações que envolvem adultos, muitas mulheres se sujeitam a gestações multíparas com medo de perder o seu marido e serem conotadas por querem evitar uma possível gravidez. A maioria das adolescentes interpeladas pela nossa Reportagem relata que os seus parceiros é que sempre tiveram o poder de decisão sobre o uso de preservativo.

Márcia Samuel tem 16 anos e ficou grávida quando tinha 15 anos por não ter tido a possibilidade de escolher entre o uso do preservativo ou outro método anticonceptivo. Começou a namorar em 2016, altura em que engravidou e teve o seu primeiro filho, que está agora com seis meses de idade.

“Conheci o meu marido na escola, envolvemo-nos sexualmente e com a gravidez tive que interromper a 8ª classe. Eu conheço os métodos de planeamento familiar e ouvi diversas palestras sobre o HIV e Sida, mas o meu namorado na altura preferiu não usar o preservativo”, explicou Márcia.

Outro factor que concorre para a gravidez precoce nas zonas rurais tem a ver com questões sócio-culturais, onde os mais velhos disseminam a ideia de que a rapariga deve ser submissa ao seu marido e que esta deve obediência ao homem, por ser a base da família.

A história de Márcia assemelha-se a de outras jovens como Mira Armando, que também não pôde exigir ao seu namorado, para que prevenissem uma gravidez e teve o receio de se dirigir aos serviços de saúde para adquirir outros métodos de prevenção.

“Ele sempre disse que se engravidasse  ia assumir a mim e a criança e que por isso não havia necessidade de usar o preservativo. Hoje me arrependo por ter deixado a escola para trás e se pudesse recuar, faria diferente”, disse Mira.

Já tivemos situações mais graves

– afirma Alice Tsabete, enfermeira de SMI na Moamba

 

Quando a enfermeira de Saúde Materno-infantil (SMI), Alice Tsabete, chegou ao centro de Saúde da Moamba, na província de Maputo, o número de meninas menores de 14 anos grávidas que procuravam o serviço pré-natal era alarmante.

No entanto, o diálogo com a rapariga, quer no centro de saúde ou na comunidade, sobre as consequências de uma gravidez na adolescência, tem estado a reduzir estas situações, permitindo-lhes completar a educação obrigatória, que termina na 7ª classe

“Ainda temos crianças com 16 ou 17 anos grávidas ou com bebé de um ano, sinal de que teve o parto com 15 anos de idade. Isso acontece, porque a maioria da nossa população acredita que a menina nasce e cresce para casar e ter filhos e não para estudar”, disse.

Tsabete alertou para a existência de situações, nas zonas mais recônditas, de crianças que acabam abandonado a escola e ficam grávidas, situação justificada muitas vezes pelas crenças culturais e educação da rapariga na comunidade.

“Antes nós recebíamos crianças, com idades compreendidas entre 12 e 14 anos. Agora estamos notamos que as meninas engravidam depois do 15 anos. Com os serviços SAAJ, a informação está cada vez mais presente nas escolas, reunimos com líderes comunitários para dar a informação de que não deve estimular os casamentos prematuros”, acrescentou.

Uma das consequências dessas gravidezes tem sido as complicações no parto e pelo facto de Moamba dispor de uma unidade sanitária que é de nível II, as raparigas acabam sendo referidas ao Hospital Provincial da Matola para terem o seu bebé.

“Muitas das vezes elas aparecem com incompatibilidade cefalo-pélvica, o que quer dizer que ela é nova e não pode ter um parto normal, sob o risco de ter um traumatismo no canal de parto que pode levar até à morte e hemorragias. Então nós, quando temos menores, referimos à província e cuidamos dela na fase pós-parto”, afirmou a enfermeira.

Ainda há vontade

de regressar à escola

 

Apesar de a gestação e maternidade terem atrasado o sonho das raparigas de estudar, se formar para ter um bom emprego, ainda existe esperança e acima de tudo vontade de superar os obstáculos resultantes da maternidade e voltar a sonhar.

É por isso que muitas delas anseiam pelo regresso à escola, assim que conseguirem desmamentar os bebés e conseguirem alguém que possa ficar com os seus filhos para que possam estudar. Jéssica Arlindo está no oitavo mês de gestação e terá que interromper a escola até à altura do parto.

Findo o período de resguardo, Jéssica pretende se reinscrever na 9ª classe para dar continuidade aos seus estudos, formar-se e encontrar um trabalho que lhe permita sustentar o seu filho e ajudar o seu marido na manutenção das despesas da casa.

Mesmo que pareça tarde, estas meninas estão dispostas a fazer tudo diferente, vencer as barreiras geradas pela maternidade e retomar o seu curso de crescimento e formação profissional. É que para muitas delas, a maternidade acaba roubando até mesmo a vontade de ter um trabalho condigno, facto que só se consegue com a formação.

“Eu sei que estarei um pouco atrasada para começar da 7ª classe em que interrompi em 2016. Ma graças ao apoio do meu marido vou conseguir alcançar esse sonho. Ele prometeu me apoiar nos meus planos de educação e vou poder deixar a criança para ir à escola”, disse Mira Armando, outra jovem que pretende retomar à escola depois do parto.

Saúde preocupada em

divulgar as consequências

 

O sector da Saúde e Acção Social na Moamba tem estado a trabalhar na divulgação dos casamentos prematuros, mostrando às comunidades quais as complicações de uma menina se casar antes do tempo e garantir os seus direitos sexuais e reprodutivos.

Segundo Aulina Chirute, médica no Centro de Saúde da Moamba, o sector da Saúde tem estado a prover os serviços para que a adolescente possa ter informação adequada sobre como começar uma vida sexual e como é que ela pode prevenir a gravidez, onde poder encontrar os serviços.

“Acima de tudo, temos que estar preparados para esta demanda, como acolher os jovens e olhar para eles de forma holística. Estamos preocupados em dar a informação sobre o impacto de uma gravidez na adolescência, quer para a saúde da rapariga, quer para a criança que vem ao mundo”, acrescentou.

Tendo em conta que a realidade do jovem não é só na escola, a fonte defende a necessidade de olhar para os que estão na comunidade e garantir que a informação chegue. O trabalho tem sido acompanhado pelo apoio psicossocial da menina na fase pós-parto e quando esta declare a vontade de retomar a escola.

“A nossa maior luta é de que estas raparigas, depois de engravidarem tenham acesso aos cuidados elementares de saúde. E porque as gestações sempre representam algum perigo, redobramos a atenção quando se trata de crianças que esperam crianças”, garantiu.

ANA RITA TENE

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