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Categoria: Recreio e Divulgação
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O DESFILE das duas gerações de combatentes e a compenetração demonstrada no evento da Beira, em Sofala, realizado a 7 de Setembro, Dia da Vitória, demonstrou, mais uma vez, que o desenvolvimento da nação moçambicana continua a ser o esteio que congrega estes heróis.

Dirigido pelo Chefe do Estado, Filipe Nyusi, o V Festival Nacional do Combatente foi igualmente uma oportunidade para juntar, na mesma “trincheira”, os intervenientes da nossa história recente e rever a epopeia e vida heróica dos Veteranos da Luta de Libertação Nacional, Combatentes pela Defesa da Soberania e Democracia.

Nesta que é a maior festa do combatente, Filipe Nyusi reiterou que moçambicanos se inclinavam perante a proeza heróica de todos aqueles que pegaram em armas para libertar o país, o que culminou com a proclamação da independência nacional, a 25 de Junho de 1975.

E esta acção só foi possível graças à coragem e bravura demonstradas por um grupo de moçambicanos que, de forma abnegada e destemida, combateu o colonialismo português.

É este legado, esta visão e este sentido patriótico que o Presidente da República entende que estas gerações de combatentes devem passar para os mais novos, que são os continuadores da nação moçambicana.

Devidamente uniformizados e pelas respectivas três cores deste escalão guerreiro, os 5.625 combatentes seleccionados “levantaram” poeira no campo de futebol do Ferroviário da Beira, numa marcha “triunfal” que durou cerca de 50 minutos, fazendo vibrar o público que enchia por completo aquele “palco”.

Tudo começou com a passagem de revista à guarda feita pelo Comandante-Chefe, acompanhado pelo Ministro dos Combatentes, Eusébio Lambo, num momento solene que serviu para reconhecer a acção destes “nobres filhos da independência nacional, da pátria, liberdade, paz, unidade nacional e soberania.”

Depois foi o autêntico “show” da banda militar que, mais uma vez, teve uma actuação soberba.

Diferentes faixas etárias e sexos, desde anciãos, adultos e jovens, espalharam a sua performance acompanhada por aplausos dos espectadores. Lindo foi ver que naquela festa do combatente estava simplesmente içada a bandeira da moçambicanidade, que a todos cobre e conforta.

Mas, também comovente, foi o desfile, sem amarras, daqueles combatentes que, no teatro dos acontecimentos, perderam parte dos seus membros e, por isso, hoje andam apoiados por cadeiras de rodas, canadianas e triciclos. E quando estes combatentes desfilaram, passando pela tribuna de honra, foram efusivamente saudados. Na verdade, foi um autêntico momento de uma verdadeira festa e alegria. Por isso, entende-se por que razão muito depois da parte oficial do festival, marcado por discursos, o público não arredou pé, ficando a deliciar-se, igualmente, com a excelente organização do evento.

Afinal, era o reconhecimento da contribuição de cada um daqueles homens ali a desfilar para a edificação da nação moçambicana, daí que muitos agentes económicos de Sofala se tenham oferecido a apoiar o evento com vários bens, um dos quais foi a água mineral distribuída a todos os presentes.

 

A cultura sempre presente

Neste convívio houve espaço para exibição de vários momentos culturais, começando pelas canções revolucionárias, cantadas quase que em uníssono.

E os músicos locais, liderados por Jorge Momad, surpreenderam o público quando subiram ao palco para cantar o hino do V Festival Nacional dos Combatentes.

Com uma melodia que retratava então episódios do teatro das operações militares que até faziam arrepiar a pele, unidade nacional, paz e desenvolvimento, o hino nacional cantado também em diferentes idiomas emocionou os mais sensíveis.

Quem pensava que a festa terminava por aqui enganou-se, pois a mesma prolongou-se noite adentro num ambiente de verdadeiro convívio, onde a cordialidade e o diálogo fraterno era um dos vários pratos servidos entre os combatentes.

Este ambiente estava reservado para todos aqueles que sacrificaram a sua juventude ao pegarem em armas para libertar a terra e os homens contra o exército colonial português, depois de 500 anos em Moçambique, que culminou com os Acordos de Lusaka, no dia 7 de Setembro de 1974, abrindo caminho para a proclamação da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975. Fruto de grande capacidade de mobilização e receptividade das mensagens das autoridades, combatentes, particularmente da anfitriã província de Sofala, transformaram aquele primeiro acontecimento local na história dos 43 anos da Independência Nacional.

Contribuíram com tudo, como farinha de milho, arroz, ovos, galinhas, cabritos até cabeças de vaca e bebidas alcoólicas, enquanto centralmente o Governo disponibilizou cerca de 14 milhões de meticais para a festa.

Por isso, ninguém se queixou de fome, alojamento condigno nas cidades da Beira e Dondo, incluindo meios de transporte de e para zonas de origem, sendo que todos os participantes, convidados e organizadores saíram a ganhar.

O V Festival Nacional dos Combatentes decorreu sob o lema “Combatentes Firmes na Consolidação da Unidade Nacional, Paz e Promoção de Desenvolvimento”. No final do evento era visível a alegria no rosto dos participantes, assinalando que estes festivais são especiais, sobretudo por marcarem o reencontro de velhos amigos e companheiros de armas e de trincheiras. Mas também por serem um momento de rememoração.

O Ministro dos Combatentes, Eusébio Lambo, falou da exemplar organização da efeméride, considerando ter sido uma verdadeira festa nacional com desfile de várias expressões culturais, como o canto e a dança, a música, o teatro, gastronomia e a moda.

Estes eventos exibem, na sua acepção, o forte lado cultural do combatente moçambicano, demonstrando que, mesmo durante o combate, ele nunca se apartou da sua cultura. E as canções revolucionárias, muitas das quais registadas em disco, sublinham a forte ligação do combatente à cultura. Aliás, este foi um dos seus alimentos, lembrando-se da velha máxima da Luta de Libertação Nacional que era: “Combater, Produzir e Estudar”.

Por seu turno, o secretário-geral da Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional, Fernando Faustino, alinhou pelo mesmo diapasão e acrescentou mesmo que a realização do V Festival Nacional dos Combatentes, na Beira, superou as expectativas, sobretudo numa altura em que o país enfrenta a situação de crise financeira.

 O primeiro Festival Nacional dos Combatentes decorreu em Cabo Delgado, em 2014, com mais de cinco mil participantes, seguindo-se em 2015, na província de Tete também com igual número de participantes e convidados.

Na altura, por se ter notado a gritante falta de sincronização, o Governo decidiu então voltar a realizar o III Festival Nacional dos Combatentes na província de Cabo Delgado, em 2016, já com cerca de sete mil elementos, tendo escalado no ano passado em Niassa com cinco mil combatentes e no próximo ano para a vizinha província de Manica.

 

Experiências históricas

O MINISTRO dos Combatentes, Eusébio Lambo, disse que o principal objectivo da realização de Festival Nacional dos Combatentes foi transmitir experiências à nova geração.

A anteceder ao evento desta edição 2018, a Casa Provincial de Cultural de Sofala, na cidade da Beira, foi palco de mesa-redonda sobre os temas que nortearam motivações dos primeiros movimentos, seus líderes, condições internas que existiam para a sua formação de movimentos políticos e reais, causas da sua criação fora de Moçambique.

Na circunstância, foi recordado ainda por que razão estes movimentos eram constituídos do ponto de vista tribal. As actividades políticas desenvolvidas durante a sua existência, o que defendia cada um dos movimentos e as relações que estabeleciam com outros movimentos nacionalistas.

O relacionamento entre eles face à luta anticolonial, os seus pontos de vista perante a emergência da unificação também fizeram parte das palestras transmitidas à nova geração.

Durante as palestras maior enfoque foi para actividade política e diplomática de Eduardo Mondlane, aliada ao papel exercido por Julius Nyerere (Tanganyika) e Kwame Krumah (Gana), tendo contribuído significativamente para a fusão dos três movimentos.

Com efeitos, a 25 de Junho de 1962 o mundo testemunhou a união da MANU, UDENAMO e UNAMI numa larga frente, que foi a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), tida como única e legítima representante do povo de Moçambique na sua luta contra o colonialismo português.

Horácio João