Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

Reinventar a marrabenta através do jazz e outras fusões move o baterista e compositor moçambicano Frank Paco, radicado na África do Sul.

Partindo da música que ouviu na infância, adolescência e que, de alguma forma, desbravaram o seu gosto pelo instrumento que actualmente executa e a profissão que escolheu para a sua vida, o baterista espera encontrar outros lugares.

A experiência acumulada em vários anos de estrada, na descoberta de outros géneros musicais, acompanhando intérpretes, de diferentes linhas de composição e sonoridades que se pode atestar nos mais de 35 álbuns em que colaborou, o levam a procurar evidenciar o “sotaque daqui” nas suas próprias músicas. 

“Meu próximo disco terá muitas fusões com ritmos nacionais, partindo da marrabenta, xitchuketa, mapiko para que não se perca a nossa identidade”, disse Frank Paco, depois de um ensaio para o concerto que deu ontem no Uptown, na baixa da cidade de Maputo.

Crente na necessidade de preservar os valores culturais moçambicanos, patentes nas artes, a música em particular, aplaudiu a incorporação que músicos na diáspora, como, por exemplo, Ivan Mazuze, Albino Mbie, Ildo Nandja, Deodato Siquir, Jaco Maria ou Childo Tomás estão a fazer de sonoridades pertencentes ao folclore nacional.

É neste contexto que revelou a intenção de gravar, para o ano, o seu terceiro disco, que precede “Buyanine” (2014) e o segundo com “New Horizons” – neste, como que a indicar o rumo que pretende seguir dali em diante -, no país.

“Os músicos e instrumentistas daqui percebem melhor as minhas composições, porque são próximos do que crescemos a ouvir, apesar de possuirmos diferentes referências”, disse o baterista.

A explicar a questão das sonoridades com um passaporte repleto de vistos internacionais, exemplificou que o chilrear dos pássaros e os sons que se ouvem em cada cidade e país, diferem-se uns dos outros. Só isso, referiu, já faz a diferença na forma que se constrói e percebe a música.

Foi nesse contexto que justificou a selecção de Nicolau Cauneque (teclado), Tony Paco (percursão), Hélder Gonzaga (baixo), Muzila saxofone tenor) e Válter Mabas (guitarra) para o concerto de ontem à noite no programa “Jazz na Hora da Ponta”.

De igual modo, apontou o facto de já terem trabalhado juntos noutras circunstâncias e a afinidade que desenvolveu com os músicos como razão, Hélder Gonzaga, para contextualização, integrou a banda Tucan-Tucan, da qual o baterista foi líder e membro fundador.

Tony Paco, por outro lado, o acompanhou no concerto 46664 (Mandela AIDS). Válter Mabas, por sua vez, executou algumas músicas do álbum de estreia de Frank Paco, “Buyanine” – bem-vindo, traduzido de algumas línguas bantu.

No final do concerto de ontem, para além de temas novos e de alguns dos anteriores discos, prestou um tributo a algumas das maiores referências da marrabenta. “Não gosto de ser classificado, para mim, o mais importante é que a música toque nas pessoas, independente do género”, esclareceu Frank Paco.

 

 

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A cantora Marllen, popularmente conhecida por Preta Negra, lança na tarde de hoje, o seu Gabinete de Responsabilidade Social, numa cerimónia a ter lugar no Auditório do Banco Comercial de Investimento (BCI), na cidade de Maputo.

A iniciativa pretende desenvolver acções que possam contribuir para redução dos problemas enfrentados por crianças, adolescentes, jovens e mulheres em Moçambique.

A cantora e Activista Social quer usar a força da sua presença no espaço público nacional para contribuir para o desenvolvimento da sociedade moçambicana.

As áreas de intervenção do Gabinete são a luta contra a mortalidade infantil (Mwana), o incentivo ao aleitamento materno (Ser Mãe), o apoio às vítimas de calamidades naturais (Ajuda Moçambique), a promoção de mudança de comportamento em adolescentes e jovens (Ser Responsável) e o contributo para reinserção social de mulheres.

Marllen afirma que a iniciativa visa mostrar as suas facetas como mãe, mulher e jovem moçambicana preocupada com o desenvolvimento social das crianças, adolescentes, jovens e mulheres.

Para o alcance das metas previstas, o Gabinete de Marllen vai conceber e implementar campanhas de intervenção social. A componente artística vai se aliar a social, sendo que serão criadas e divulgadas músicas e vídeos para a mudança de comportamento na sociedade, entre outras acções.

Marllen vem, ao longo dos anos, realizando várias acções de cariz social. A criação do Gabinete de Responsabilidade Social da Preta Negra pretende consolidar e estruturar todas as acções de activismo social que a artista vem desenvolvendo desde 2011. 

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“Avó Dezanove e o Segredo do Soviético” é o título da nova longa-metragem do cineasta moçambicano João Ribeiro, cuja rodagem iniciou segunda-feira nas cidades de Maputo e Matola.

Esta obra cinematográfica resulta da adaptação feita ao romance, com o mesmo título, do escritor angolano Ondjaki.

A ideia de levar “Avó 19” para a grande tela surge do fascínio que o livro criou em João Ribeiro, do conhecimento que tem da produção literária do escritor angolano e da amizade que partilham.

Orçada em um milhão de euros, “Avó Dezanove e o Segredo do Soviético” é uma co-produção entre Moçambique (Kanema Produções), Portugal (Fado Filmes) e Brasil (Grafo Audivisual).

Os palcos escolhidos para filmagens, que arrancaram segunda-feira e vão decorrer até ao dia 11 de Outubro, são as cidades da Matola (Bairro Hanhane) e Maputo (Costa do Sol, Coop e Ka Tembe).

O contexto apresentado no enredo deste filme é dos anos 80. A obra retrata uma história de amor e da profunda relação que as pessoas estabelecem com o espaço em que vivem. Por isso, Ribeiro considera este filme como sátira política e social.

Como protagonistas desta longa-metragem, o realizador foi buscar um elenco de crianças que nunca tiveram contacto com produção de cinema, nomeadamente Keanu Bastos, Caio Canda e Thainara Calane Barbosa.

O realizador apostou também num naipe de actores moçambicanos de craveira. São eles Ana Magaia (que faz o papel de Avó Catarina), Mário Mabjaia (Velho Pescador), Adelino Branquinho (Senhor Osório), Cândida Bila (Dona Libânia). Estão igualmente Evaristo Abreu (Senhor Truales), Eduardo Gravata (Soldado 1), Elliot Alex (gasolineiro) e Iva Mugalela (Tia Antónia).

Do Brasil e Portugal vieram Flávio Bouraqui (Espuma do Mar) e Dimitri Bogomogov (Bilhardov), respectivamente. Flávio Bouraqui é conhecido por actuar em telenovelas e no cinema, tendo ainda uma forte presença em programas televisivos. Já Bogomogov é um actor de origem russa que vive há largos anos em Portugal, também muito requisitado para diversas produções culturais.

Ribeiro surpreendeu ainda pelo facto de misturar actores de grande calibre com figuras que, sendo da cultura, não são actores de cinema, destacando-se nesse grupo Anabela Adrianoupulos e Filimone Meigos.

Anabela Adrianoupulos, que fará a personagem da “Avó 19”, é uma cara da televisão nacional, mas nunca participou numa longa-metragem, o mesmo acontecendo com o escritor e académico Filimone Meigos (director-geral do Instituto Superior de Artes e Cultura (ISARC).

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O Festival de Gastronomia, denominado “Tsotsiva”, que traduzido do emakhwa significa gostoso, é um dos eventos que irá marcar, no próximo domingo, a derradeira fase das comemorações dos 200 anos de elevação à categoria de cidade da Ilha de Moçambique, na província de Nampula.

Segundo apurou ontem a AIM, na Ilha de Moçambique, pelo menos 30 equipas de operadores turísticos da área de comes e bebes apresentaram-se para dar corpo a esta actividade.
Para este evento gastronómico está a ser preparado o jardim temático, defronte do Museu da História Colonial, um dos 400 monumentos classificados da Ilha de Moçambique e a poucos passos também da renovada ponte-cais.

Ainda no que respeita à oferta de comidas e bebidas para os turistas que se deslocarem nos próximos dias à Ilha de Moçambique, o governo local autorizou a instalação de perto de uma centena de bancas fixas e ambulantes em locais estratégicos.

O chefe da Comissão dos 200 anos, Manuel Sumalgy, disse à AIM que os preparativos decorrem  a um ritmo normal e que a oferta de camas ronda os três milhares no global.

Segundo projecções dos organizadores da festa do bicentenário da Ilha de Moçambique, espera-se que entre sábado, domingo e segunda-feira próximos perto de três mil pessoas que se juntarão aos residentes habituais locais, na ordem dos dez mil.

Para as cerimónias centrais da efeméride estão previstas diversas actividades de índole cultural, económica, social e desportiva, que terão lugar na parte insular e no Lumbo, no continente.
As festividades dos 200 anos da Ilha de Moçambique decorrem desde Janeiro, com as actividades culturais a terem grande expressão.

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As ruínas da cidade de Pedra e Cal, parte norte da Ilha de Moçambique, vão ganhando um novo alento com as obras de reestruturação em curso. Entretanto, as intervenções estão a ser feitas por estrangeiros.

Ao largo das estreitas ruas da urbe, que para a semana celebra 200 anos de elevação à categoria de cidade, o martelo e o berbequim, durante o dia, para além do roncar das motorizadas, fazem a trilha sonora.

Trata-se de obras de restauração em andamento, nos diversos pontos da Ilha de Moçambique. Devido à condição de pobreza a que muitos dos antigos proprietários nacionais estão voltados, os edifícios foram (e continuam) sendo vendidos a estrangeiros.

Aos pedaços, gradualmente, o Património Mundial da Humanidade, eleito em 1991 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), vai deixando de pertencer ao país em termos práticos.

Naturalmente, não é do agrado das estruturas locais que temem pelo futuro, pois desconhecem os interesses de quem tem estado a apropriar-se daquele espaço. Até porque, embora se apele a investimentos, de modo a tornar a Ilha de Moçambique um atractivo turístico mais lucrativo, a expectativa é a de que tal seja feito pelo capital nacional.

Neste contexto, estando nas mãos de empresários moçambicanos, garantiria que, de facto, as mais-valias e os dividendos, assim como o acesso tivessem como ponto privilegiado a economia nacional. Aliás, o Governo definiu o turismo como uma das quatro áreas prioritárias do seu Programa Quinquenal (2015-2019). 

 “Os nacionais estão a vender os seus imóveis”, lamentou Celestino Gerimula, director do Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique, a contextualizar que a maioria dos antigos proprietários adquiriu os imóveis a preços baixos.

Consta que a compra foi feita através da Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE). Os antigos inquilinos, quando o Estado decidiu desfazer-se dos edifícios, num processo de alienação, pagaram valores simbólicos para que passassem a ser os donos. 

Os preços baixos, no caso da Ilha de Moçambique, foram feitos à luz da sua idade e elevado estado de degradação em que se encontravam, em conformidade com a Lei 5/9 de Janeiro de 1991.

Não tendo condições para mantê-las e aliciados, os nacionais, com valores chorudos, há já alguns anos que vão vendendo a estrangeiros, o que, repara Celestino Gerimula, poderá empurrar os nativos para fora do circuito urbano e deixar em mãos alheias um importante património cultural da história do país.

“É necessário que haja um crédito para garantir a permanência dos nacionais”, sugeriu o director, tendo como referência os extintos sete milhões de meticais que eram emprestados pelo Estado para investimentos nos distritos.

Tal apelo não dista da proposta de criação de um fundo, por parte do Governo, através do Ministério da Cultura e Turismo, que, de acordo com o Programa de Desenvolvimento Humano Sustentável e Conservação Integral da Ilha de Moçambique, proposto à UNESCO pelo consultor e jurista Guido Carducci, em Novembro de 1998, deveria tutelar a primeira capital do país.

O argumento do especialista sustenta-se no facto de na qualidade de património mundial necessitar de um tratamento diferenciado, que obedece a determinadas especificidades.

Conforme o referido documento, embora pela sua natureza a cidade mais antiga do país atraia o turismo internacional, há limitações que se deve impor, de forma a impedir que se torne de massas.

“O tamanho pequeno da Ilha de Moçambique e a sua densidade em termos de património cultural não permitem a construção de hotéis grandes (com pelo menos 250 quartos) no território”, lê-se no capítulo referente ao turismo.

No que diz respeito às actuais reabilitações, conforme Celestino Gerimula, as mesmas estão a responder a um apelo das autoridades municipais no sentido de dar vida a alguns edifícios que o tempo ia corroendo.

Os registos oficiais indicam que, em andamento, estão intervenções em 54 casas que já se encontravam em avançado estado de degradação, comprometendo sobremaneira a estética da cidade que se vale da história que os edifícios a testemunham.

De um discurso arquitectónico manuelino em pedra e cal, que confirmam marcas de um passado que teve nos bantus – nativos -, árabes persas, até pertencer ao sultão de Zanzibar e, a posterior, aos portugueses, é composta a Ilha de Moçambique, na sua parte norte.

Os edifícios ali implantados são a prova física de que outrora ali existiu uma história, uma vida, acontecimentos por desvendar, que ficaram no passado e que o tempo desgastou a pedra, a madeira, e todos os materiais, sem, no entanto matar a sua beleza e poesia.

É nesse sentido que as mesmas valem-se não pelo seu significado valor funcional, mas pelo valor histórico e estético. À medida que os edifícios que marcaram de algum modo o rumo da História do país e, por outro lado, demarcam uma identidade cultural.

“Explicamos que podem adquirir cal em Mossuril para, para além das casas, reabilitarem as principais calçadas da cidade, de modo a acolher de forma condigna quem vier às celebrações dos 200 anos da ilha”, disse o governante.

Tendo em conta a Carta de Veneza, que as intervenções em edifícios de natureza histórica, chamou atenção que algumas das obras, no seu interior, tem construções de bloco e cimento, que, moldam novas estruturas, destoando a arquitetura de outrora.

Celestino Gerimula refere tratarem-se de desvios à norma, sendo que, alguns já receberam ordens para interditar as intervenções, havendo casos, inclusive, que tiveram que recorrer a tribunais para embargar a destruição de um dos mais significativo património que o país possui.

 

Consciência moral e estética

na intervenção nas obras

O director do GACIM defende a necessidade de uma consciência colectiva na hora da intervenção nos edifícios. Mesmo porque tais obras são necessárias, na medida em que algumas datam do século XVI.

Conforme explicou, foi a compreensão do valor de tais imóveis que motivou a criação do seu gabinete, em 2006, com a função de garantir que se obedeça a conservação e que a reestruturação das ruínas siga os padrões definidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Depois de em 1991 a ter elevado à categoria de Património Mundial da Humanidade, a entidade, durante vários anos, contou Celestino Gerimula, enviou especialistas para averiguar se as exigências estavam a ser seguidas ao pé da letra.

A partir de “2009, deixaram de vir anualmente por terem percebido que estamos a preservar o património, isso deixa-nos satisfeitos”, comentou, a reconhecer que há ainda vários desafios pela frente, pois, na sua opinião, a consciência da necessidade de acarinhar a cidade, para muitos, ainda vai levar o seu tempo.

Celestino Gerimula recordou ainda que a Ilha de Moçambique transcende as fronteiras nacionais, porém, frisou, cabe aos moçambicanos cuidarem dela, pois é parte da sua história.

 

Inventário da cidade de Macuti

A cidade da Ilha está dividida em duas: a de pedra e cal e a de macuti. A segunda, onde sempre viveram os mais pobres, tem os seus parágrafos nos registos que se fazem sobre o lugar.

As roupas da casa grande – como chamariam os brasileiros aquele tipo de divisão – eram lavadas naquela parte da cidade, pelo que não se pode pensar que tenha sido passiva aos acontecimentos que elevam o significado da Ilha de Moçambique.

É nesse contexto que, em parceria com a Universidade Lúrio, foi realizado um inventário sobre o tipo de construção, de modo a manter a tipologia e a preservar o seu valor.

“As casas eram cobertas de macuti – folhas de coqueiro – e suportadas por estacas que já não existem, o que torna o trabalho de preservação mais difícil”, disse Celestino Gerimula.

Há, assegurou, uma oficina que está a estudar alternativas para a inclusão da cidade de macuti na preservação da primeira capital do país, que, inclusive, deu nome a nação.

 Leonel Matusse Jr.

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