LÁGRIMAS, lamúrias, incertezas, dor e luto são algumas palavras que nos ajudam a tentar situar o que a zona Centro do país está a viver, na sequência do ciclone Idai,  descrito por especialistas ambientais das Nações Unidas como o “pior desastre natural do Hemisfério Sul”.

“E o vento tudo levou”, não é mera metáfora de cinéfilo, a recordar aquele sucesso cinematográfico de 1939. É um facto no Centro do país, sobretudo na cidade da Beira e distrito de Dondo. As águas das chuvas, ao resto, garantiram que fossem para mais longe ainda.

O ciclone Idai, uma invasão da natureza, veio “buscar” vidas, deixando, entre os rastos, bolsas de fome, doenças, incertezas e muita dor. Somente a esperança, em muitos casos, mantém-se em famílias penduradas, há dias, em cumes de árvores ou sentados no teto, do que sobra das suas antigas residências.

Estatísticas disponibilizadas por instituições nacionais e internacionais revelam números assustadores. O número de mortos ultrapassa os 280. Estima-se que mais de 350 mil cidadãos estejam em situação de risco.

Entre as pessoas em situação delicada, mais de 260 mil são crianças, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A todos falta alimentos, condições sanitárias, entre outros serviços básicos.

Somos notícia em todo o mundo. Mas também de todos os lugares nos chegam mensagens de solidariedade e gestos de carinho, de preocupação e de afecto. É nestes abraços, às vezes virtuais apenas, que recordamos que a empatia é a essência da nossa humanidade.

A ajuda vem de todos os lados. De dentro e de fora do país. Não há mãos a medir.

Em atitudes destas, a que igualmente juntam-se pessoas e instituições de diversas latitudes, nos recordamos que caminhar de mãos dadas é o que nos permite prosseguir com o projecto social moçambicano, cujos preceitos éticos, de consciência, crítica e razão, em muito, devemos a pensadores e escribas como Carlos Beirão, Filimone Meigos, Isau Menezes, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, Adelino Timóteo, Heliodoro Baptista, Jorge Mamad, João Paulo Borges Coelho, entre tantos outros nascidos em Sofala.

É bonito ver nas escolas crianças a andarem de turma em turma a convidar os colegas a doarem o que podem para socorrer os irmãos que mais precisam nestes dias de pesar.

Igualmente, este evento triste é uma oportunidade para recordamos que o mundo está a reclamar os seus cansaços pelos maus tratos, que há séculos a temos votado. Quando o aquecimento global saiu do circuito científico, dividiu opiniões.

Como se profetas fossem, anunciaram que catástrofes como estas seriam comuns. E que se não cuidarmos melhor do mundo, se não desenvolvermos alternativas às energias fosseis, se não cuidarmos melhor de água, se cortarmos menos e plantarmos mais árvores, “Idai” deixará de ser um fenómeno.

 

 

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A DESGRAÇA não tem modos de chegar. Ainda que pensemos estar preparados para a enfrentar, ela tem uma incrível “competência” de ser pior do que se previa. Mas há um ditado, de tão verdadeiro e certeiro, que sempre nos anima: “Depois da tempestade, vem a bonança”.

Não é mentira quando se diz que o céu fica repleto de estrelas depois das nuvens se dispersarem na sequência de uma precipitação. O músico norte-americano Bobby McFerrin, em “Donʼt Worry Be Happy” (“Não se arrelie, seja feliz”, em tradução livre), nos convida a esse lugar eternamente difícil, em que encaramos os dessabores da vida como meros episódios passageiros.

Apenas isso. É um facto que, nalguns casos, situações como as do ciclone Idai cria feridas que jamais cicatrizarão, mas a vida é isso, são também esses momentos de dor e luto, mas também de esperança. Sim, essa nunca deve morrer, como diz o velho adágio.

O mundo, felizmente, ainda é humano, ainda há empatia. Celebremos a solidariedade e oremos para que estes capítulos, em pouco tempo, seja apenas história! E jamais nos esqueçamos que isto é passageiro. Melhores dias estão por vir. 

 

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“I hear babies crying, I watch them grow/They'll learn much more than I'll never know” (Eu oiço bebés a chorar, vejo eles a crescerem/Eles vão aprender muito mais do que eu nunca vou saber), cantou, optimista, o trompetista Louis Armstrong, no clássico “What a Wonderful World”.

A sua expectativa, presume-se (até porque é a de todos), era que as gerações futuras dessem passos maiores que os que no presente estão a ser dados. É sempre naquele espírito de estarmos a caminhar para a “Terra Prometida”. É essa mesma luz que terá guiado o sujeito poético que se incorporou no dramaturgo alemão Bertolt Brecht para escrever “Os que virão depois de nós”.

Ao sair da aula, muitas vezes o professor moçambicano se debate com a seguinte questão: ou ambos artistas eram muito idealistas (platónicos, talvez) ou a construção desse futuro carece de estômago, resiliência e mais alguns outros órgãos e forças sobrenaturais. Aqui os nossos ancestrais, os Khoisan, assim como os habitantes do Olimpo são convidados a dar o seu contributo.

O dilema da educação é, como circula no senso comum, um professor que encontra uma sala cheia de alunos que apenas querem passar de classe, ignorando o esforço que deve ser empreendido para que tal ocorra.

Várias vias de análise podem sugerir respostas. A mais acessível indica que há uma deliberada despreocupação e desatenção desta juventude, que nada mais quer saber do que “perder tempo” nas redes sociais da internet a partilhar “o nada”; a beber e a incomodar com música alta no meio de zonas residenciais.

Outra, que talvez seja a mais ignorada, é que nós, que deveríamos ensinar, provavelmente estejamos a falhar. Estamos a permitir que eles sejam distraídos e que desconheçam o facto de nada cair do céu.

É engraçado notar que, diariamente, no Whatsapp partilhamos imagens lindas com dizeres como: “é pelo exemplo que se ensina”. Daí uma ou duas perguntas nos “assaltam”: será que os alunos não são o nosso reflexo? Não será que culpar o outro é uma forma de enganar o espelho?

Note bem: o nós aqui empregue não é apenas a classe de professores. Até porque todos o somos, independentemente de contratados ou não por uma instituição para tal.

O gesto diário é observado e absorvido por alguém. Caso estejamos a ser nocivos, estamos, por tabela, a semear danos para o futuro.

A situação que muitas vezes o professor encontra na sala de aula é de um aluno que não fez a revisão da matéria, no terceiro ano do nível médio ou quarto do superior nunca pegou voluntariamente num livro para ler. E ninguém se espanta com isso!

Um sentimento de angústia toma conta desta figura que passou a noite anterior a preparar uma aula para encontrar a contraparte no escuro. Lamenta que eles não tenham cumprido com as obrigações.

Já até tornou-se letra morta reivindicar menos tela para mais livro. O professor tem a consciência de que se, ao sair da aula, noutros espaços em que o aluno está inserido ninguém prosseguir com o seu trabalho nada estará feito. É como aquela luta que se faz no prédio, em que no terceiro andar, numa das flats se combate o rato, enquanto os dois outros simplesmente convivem com o animal.

O saber popular diria tratar-se de um assunto já com barbas brancas. É cavernoso perceber a sua marginalização. Ainda é uma miragem o “Sleep in peace when day is done”, que a Nina Simone sentiu no “Feeling Good”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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É na infância que o mundo é todo ele belo. A inocência protege. A ignorância é, para os menores, um beneplácito.

O caos é uma festa, vira poesia. Mas drama é drama. E a máscara um dia cai e o peso de ver a vida construída com anos de sacrifício a diluir-se com a força da água da chuva é o peso tão pesado como de carregar toda a infinidade nas costas. Mas lá vai…a esperança não morre, é o amparo dos desgostos. Então!

O que acontece quando até lá desconhece o Norte? Uma criança aos cinco anos, com um sorriso no rosto apenas pergunta, acariciando o rosto da mãe, são lágrimas de Deus? E a senhora apenas pensa: onde curar esta malária?

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“Pelo sotaque, percebo que és chingondo”, diz um, num determinado espaço. “Logo, nota-se que és viente”, ouve-se, noutro espaço.

Estas formas de identificação são a “outrificação”. O distanciamento baseado em razões geográficas, étnicas e outras que apenas nos separam.

Embora, conforme a história mostra, a humanidade sempre sofreu deste flagelo, desta incapacidade de reconhecer o diferente como complementar da existência de cada individualidade, há excepções que poderiam servir de modelo. Eduardo Mondlane, 50 anos depois da sua morte, é um deles.

O princípio da Unidade Nacional, de que é arquitecto, pode ser a esteira na qual nos sentamos para conversar as nossas diferenças – o que permitirá nos conhecermos – e celebrar o que nos torna iguais, o que nos torna mais próximos. Para nos recordar que, antes de mais, somos pessoas, e somos moçambicanos.

A olhar o mundo com a visão eduardomondliana, percebemos que não se pode marginalizar esses separatismos. O genocídio de Ruanda e a intolerância de alguns grupos étnicos quenianos são provas inequívocas de que a discórdia não produz ganhos para os que estão em oposição.

O sentido de celebrar o ano Eduardo Mondlane encontra-se na apropriação do seu legado para nos tornarmos pessoas melhores. E para continuar, todos os dias, um país que aceita e orgulha-se da sua diversidade.

Libertarmo-nos dessas algemas étnicas e geográficas é condição sine qua non para nos tornarmos Homens livres e abertos a novos horizontes e paisagens que só pertencem a um lugar que não o do nosso domínio. Se bem que uma proposta de visão diferente sobre o nosso lugar é também possível a partir do olhar de fora.

O arquiteto da Unidade Nacional deve ser encarado despido de cores partidárias, para o encararmos como um património nacional pelo contributo que deu a dado momento determinante da nossa história enquanto nação.

Não se está aqui a defender que se trata de um indivíduo perfeito, até porque tal é uma miragem. Estamos é a defender que pelo seu percurso, podemos nos inspirar a grandes vitórias. Vindo do interior de Moçambique, através da inteligência e entrega chegou ao topo da carreira, nos Estados Unidos, tido na época (e continua) como um dos mais racistas do mundo.

Ter abandonado uma situação de privilégio, com indicadores de ascensão para vir entregar a sua vida por uma maioria é de uma heroicidade a ser exaltada. A sua consciência de que, conforme Óscar Monteiro, “devemos beber das nossas tradições”, pode ser uma das provas da necessidade de nos conhecermos melhor, enquanto moçambicanos.

Um mundo bonito, repleto de beleza – não nos referimos apenas as flores, ao mar e aos pássaros – pode se abrir quando descobrirmos que as fronteiras são apenas marcos e não o fim em si. E que a geografia não pode nos separar.    

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