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Categoria: Conversas ao sábado
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A conversa sobre as eleições já vem correndo há vários meses. Primeiro falou-se sobre o recenseamento eleitoral, da necessidade de todos se inscreverem para ganharem a honrosa capacidade de eleger e ser eleitos.

Depois chegou a campanha eleitoral feita uma ponte enorme, por baixo da qual correu muita água em forma de promessas destiladas em repetidos comícios e ruidosas caravanas de propaganda político-partidária que cruzaram o país de lés-a-lés. A votação da última quarta-feira foi como que o píncaro do processo, uma espécie de “fim de estrada”, o tal ponto em que os moçambicanos ficaram com a missão de cumprir a sua parte, depositando na urna o sonho que têm sobre o futuro do país. Em se tratando de coisa séria, houve quem exigiu, e mereceu, melhor explicação sobre determinados actos e procedimentos para votação, sobretudo os mais velhos, eles que, muitas vezes acusam algum desgaste na retentiva. E nota-se essa realidade nesta imagem em que uma idosa empresta toda a sua atenção à jovem MMV que procura explicar tudo sobre a votação, para assegurar que, uma vez na cabine de voto, a idosa proceda conforme. Pelos vistos, a lição não serviu apenas para esta idosa, a medir pela atenção com que outras mulheres à voltam acompanham a conversa… É que na hora de votar não há espaço para erros. Muito menos ausências. É uma oportunidade democrática aberta a todos, sem qualquer discriminação. E testemunhamos isso também quando flagramos este jovem casal a caminho da assembleia de voto. Ele é portador de deficiência visual e a bengala branca já o ajuda nalgumas soluções do dia-a-dia. Só que, para ir votar, foi preciso que alguém com coração suficientemente grande o levasse à mão até à urna, para garantir que o que vai ficar registado na urna, é exactamente aquilo que lhe vai na alma. E lá ficou registado o voto, um voto não só para eleger governantes, como também para reduzir as barreiras que dividem os Homens pela sua condição física ou fisiológica. Na verdade, há práticas que a gente nunca esquece, sobretudo quando nalgum momento se mostraram úteis para as nossas vidas. É como fazer fila. É uma forma de organização. Para votar também foi necessário fazer fila, não fosse o Homem um bicho racional… Mas, porque para estar à frente na fila é preciso chegar cedo, e por isso dormir menos, há quem pensou que seria também funcional marcar o seu lugar na fila, e regressar ao quente da cama para concluir a reflexão sobre o destino a dar ao seu voto. Ao que tudo indica, a experiência vingou, a medir pela quantidade de pedras que aparecem nesta fila de pedras, latas e garrafas vazias, captada algures na Manhiça. Resta é saber se o atendimento obedeceu à ordem sugerida por estas pedras, ou se terá vingado a lei do mais esperto, como parece estar a acontecer na porta de entrada desta assembleia de voto. Pode parecer que a decisão de ir votar seja apenas do foro emocional de quem a toma, se nos abstermos de pensar na cadeia de impactos e influências que essa decisão vai desencadear no seio dos que nos rodeiam. Pessoas e animais. Neste caso, o cão, o tal “melhor amigo do Homem”, ficou afectado pela decisão do seu dono de ir votar. E porque não quis ficar em casa, abandonado, decidiu acompanhar o dono até às últimas consequências. E foi vigiar tudo de perto. Só não deu para ir ver o lugar onde o seu dono colocou o seu “X”. Mas seguramente que votou pelas boas relações que tem com o seu animal de estimação.