Director: Júlio Manjate   ||  Directora Adjunta: Delfina Mugabe

HÁ uma concepção geral de que a arte é apenas uma brincadeira feita por indivíduos que não querem nada de sério na vida. A sociedade vê nas expressões artísticas um bem não essencial, marginal, se esquecendo que convive com ela diariamente e que alimenta a sua alma.

Nos parece irrelevante aqui conceptualizar sobre a arte porque, definitivamente, não tem definição e pela sua natureza libertária é melhor que assim permaneça. Mas, seguramente, mais do que estimular nossas emoções (sentidos), é, igualmente, espaço de reflexão, não só da condição humana - em sentido restrito - mas sobre a sociedade e a sua forma de estar.

A arte, por exemplo, é uma forma de fazer política. Sim! Ora olhemos para o cristianismo e o marxismo-leninista. No que diz respeito ao primeiro, é só espevitar a memória à busca de imagens do interior da igreja católica cristã romana. É um espaço repleto de pinturas e estátuas.

Na Rússia de Lenine, a primeira nação socialista do mundo - embora na era de Estaline tenham sido fuzilados e exilados vários artistas - a poesia, a pintura, a música e o “design” foram apropriados para veiculação do discurso de emancipação do proletariado.

Como se observa, ambos casos - de doutrinas - recorreram às artes para veicular o seu pensamento e impor a sua forma de conceber o mundo. Neste quadro foram exploradas porque percebia como veículo para atingir e manipular as pessoas.

No nosso contexto podemos observar como é que Craveirinha, Malangatana, Eduardo White e Alexandre Langa intervêm através da sua obra. A sensatez nos convida a concordar que eles não estão a brincar, nem a perder tempo.

Outro exemplo é a marrabenta, género musical do Sul de Moçambique que, conforme nos sugere o historiador Rui Laranjeira no seu livro “Marrabenta: Sua Evolução e Estilização - 1950-2002”, foi um dos fios que ajudou a tecer a consciência da necessidade de construção e manutenção de uma identidade nacional, nos então subúrbios “lourençomarquinos”, parafraseando Francisco Noa, a partir da década 30 do século XX até pouco depois de 75.

O jazz, nos Estados Unidos, já tinha mostrado - embora com outros factores a volta, como as bandas militares, “ragtime” - ser um potencial nesse quesito identitário.

Há alguns meses, o nosso matutino publicou um artigo, no atelier de letras de Cremildo Bahule. No seu artigo, intitulado “O teatro nacional renuncia consagrações: continua vivo! (1)”, apontava Alvim Cossa, mentor do Teatro do Oprimido, como um exemplo - referência - da apropriação do teatro para a consciencialização social em relação a alguns males que apoquentam a sociedade.

Diante destas evidências, percebemos que a arte é um bem que circula, alimentando - e, nalguns casos, desnutrindo - sonhos de uma sociedade, moldando, reflectindo, criticando a forma de estar de uma determinada época de pensamento. O seu fim último e esperado é medido no tecido social.

Conforme pode se observar, estamos aqui a discorrer sobre um bem não-exclusivo que todo indivíduo tenha acesso à mesma disponibilidade, o que responde a configuração de um bem público.

Depois que a obra chega a hasta pública deixa de pertencer ao autor, passa a pertencer a todos nós e cabe a nós, cidadãos, recebe-la ou rejeita-la. Que se perceba que - neste caso - rejeitamos a obra, não o seu autor.

Se encaramos a arte como brincadeira, permitiremos que brincalhões - como assistimos várias vezes - apropriem-se dela para fazer o que sabem, brincar. É isso que queremos?

Obviamente que neste ponto não ignoramos que a forma como fazemos e recebemos uma obra de arte é o retrato da maturidade intelectual (nível cognitivo) que experimentamos. Será que estamos a cuidar de como pretendemos ser vistos pelas próximas gerações?

Será que é-nos indiferente a redução que a televisão faz, da arte, nos seus programas de entretenimento, a música popular juvenil? Será que ela é assim tão insignificante a ponto de um caminho que não nos parece viável não nos provoque nenhuma indignação?

Ora vejamos que quando nos deparamos com uma avenida esburacada, porque bem público, reivindicamos com toda a veemência. Será que a literatura mal feita, o cinema mal feito, o teatro mal feito e a música mal feita não merecem a nossa indignação?

Será que há bens públicos mais dignos que outros? Será?

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