AS notícias que chegam da Beira não são nada animadoras. São, pelo menos, perto de 500 óbitos, oficialmente, identificados. É como se o inferno tivesse transferido o seu endereço para aquela cidade.
Com imagens de avenidas “depiladas”, quase “carecas” dos edifícios e árvores de outrora, o caos mostra o seu rosto. O desespero de pessoas que perderam familiares e bens que levaram a vida inteira a consegui-los, atestam as trevas, que os nossos irmãos beirenses vivem desde o ciclone Idai. É como escreveu Mia Couto, em reacção, parece que a urbe do Chiveve foi “condenada ao escuro, ao luto e ao silêncio (…) [pois] não há mais chão”.
Os gestos bonitos de solidariedade – a provar que a humanidade a viver com mais amor não é uma miragem – são àquela luz, lá, no fundo do túnel. Dizemos lá porque a situação ainda é crítica e a normalidade – se é que um dia voltará a ser vivida pelas vítimas – está distante.
Algumas equipas de heróis, isto é, de militares, médicos e voluntários de variadas áreas já estão a anunciar o regresso para as suas casas. E assim será com todos os outros que se deslocaram a Beira com a finalidade de apoiar às vítimas.
É com os olhos no que vai acontecer depois do susto que as atenções agora devem estar a virar-se. Os escombros e as ruínas, tanto as de edifícios quanto as físicas e as espirituais precisam de ser removidas para que se prossiga rumo à nova Beira.
A esta altura, recordamo-nos do poeta luso-moçambicano, Rui de Noronha, a gritar, quase desesperado, no poema “África, surge et ambula!”, que devemos acordar, levantar e abrir a cortina para que a luz entre e construamos a vida que desejamos.
Partindo do poeta, convidamos os nossos irmãos a reerguerem-se para seguir em frente e continuar a peregrinação até ao destino final, ao progresso. É preciso deixar as lágrimas e erguer-se para começar a reconstruir o destruído. Arregaçar as mangas para construir novamente.
Por outro lado, não apenas a cidade da Beira, o centro e o país devem estar preocupados, mas o mundo todo porque o ciclone foi apenas uma das amostras do que nos irá acontecer com o planeta, caso continuemos a ignorar ao aquecimento global.
Há anos que cientistas denunciam que a forma como tratamos do planeta está a criar feridas na camada do ozono e a derreter os glaciares, bem como a destruir a forma como a natureza foi se comportando durante milénios.
O escritor angolano, Eduardo Agualusa, recordou-nos, em entrevista ao Público (Pt) que “é uma coisa que se vai repetir; estamos a entrar, no mundo todo, num tempo novo, que é um tempo de grandes desastres resultantes do desequilíbrio do clima e do ambiente”. Nesse alerta ainda disse: em países como Moçambique, e em Angola também, e nos restantes países do sul, tem de se pensar como viver nesta nova situação; como viver num mundo sujeito a ciclones deste tipo.
No mesmo diapasão, o escritor ainda chamou atenção para o tipo de agricultura e outras formas de indústria que na Europa já não são aceites mas estão a ser ensaiadas em países como Moçambique. Beira, levante-te e caminhe. Surge et Ambula!


