Alíngua, essa residência de várias culturas, é o edifício no qual pretende habitar o projecto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A ideia de pretensão vinga quando se olha para as críticas que a entidade sofre desde a fundação.

Esta instituição, cuja criação foi proposta pelo Brasil, actualmente a maior potência da comunidade lusófona, não está a conseguir ir para além de eventos formais resumidos em conferências e cimeiras, algumas das quais anuais, onde, na sua maioria, participam somente gestores de instituições públicas, para além de um e outro convidados.

Com efeito, aponta-se o facto de, passados 23 anos após a sua criação, ainda haver pouco conhecimento mútuo entre os habitantes dos países-membros.

O desconhecimento, que continua sobre as “nossas” culturas, é apontado como um dos exemplos claros da inoperância desta instituição a nível de base.

A expectativa natural é que a esta altura as pessoas estivessem a interagir com maior intimidade e aproximação, que seriam possibilitadas pela herança histórica partilhada, que se materializa, sobretudo, na língua e por políticas de circulação e integração.

As pessoas, por razões de vária ordem, como académica, religiosa, turística, entre outros, acabam movimentando-se neste espaço. Entretanto, a queixa passa pelo facto de ainda existir uma enorme burocracia, bem como altos encargos de vistos e afins, o que dificulta esse trânsito.

Há, neste aspecto, uma dualidade de critérios ainda notável. Só para apontar um exemplo, há alguns países africanos em que para os seus cidadãos adquirirem o visto de entrada em Portugal ou Brasil, têm de passar por uma pesada burocracia. Aliás, não deixa de ser estranho que, a esta altura, ainda se precise desse documento.

Desmotivados, muitos acabam desistindo, o que lesa a própria comunidade. A consequência desta falta de flexibilidade da CPLP é, entre outras, a limitação da mobilidade.

No campo das artes, nota-se que falta circulação de bens culturais, no sentido países africanos para Brasil e Portugal. Tende a ser o inverso, com algumas excepções, como é o caso da música.

A nível da literatura, os livros impressos ou publicados no nosso continente não têm chegado aos dois países, nem circulam entre os países africanos de expressão portuguesa. Aí para não falar de novos escritores, pois os que saem e os que chegam, continuam a ser os mesmos nomes de sempre, como se esta competência tivesse ficado congelada num determinado tempo.

Esta mesma preocupação atravessa a própria língua, ao, nas gramáticas e outros documentos inerentes a ela não constarem ainda os vocábulos e demais elementos oriundos do cruzamento com os idiomas bantu.

Muitos outros aspectos poderiam integrar este debate que, ainda que sejam dados atenção, não serão o fim em si, pois está-se diante de um processo, que irá decorrer de forma contínua. Mas isso não pode impedir de prosseguir. Precisamos reunir esta família, para que, enquanto língua, possamos ter voz no concerto das nações.

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