Director: Júlio Manjate   ||  Director(a) Adjunto(a): 

O PROFESSOR Gulamo Amad Taju, sociólogo, que domingo último celebrou 40 anos de carreira de docência, possui um sonho e quer concretizá-lo antes de se reformar. Trata-se de um projecto de pesquisa educacional, um estudo que pretende aferir e perceber como é que hoje os processos pedagógicos são entendidos e praticados.

A pesquisa a ser feita irá incidir igualmente sobre a componente de gestão escolar, tida como uma das deficiências hoje na área da educação. Se tudo correr bem, o projecto deverá ser lançado na cidade de Chimoio, província de Manica, em Fevereiro de 2017, onde o sociólogo pretende celebrar os 40 anos do início da sua carreira como professor, efectivamente.

“Quando nós começámos a dar aulas, não tínhamos formação superior, mas tínhamos formação pedagógica de base, tínhamos uma orientação e apoio pedagógicos. Hoje, até na escola primária temos professores com licenciatura. De onde vem hoje o descalabro (na educação)? O que é que está a acontecer?”, questiona.

Reconhecendo o papel dos estudantes no processo de ensino e aprendizagem, Gulamo Taju pretende envolvê-los na pesquisa a ser levada a cabo. Explica que muitas vezes os professores se queixam dos estudantes de não se aplicarem aos estudos, daí a existência de elevados índices de reprovações, mas, para o académico, o problema central nesta matéria e por consequência na educação reside no professor.

“Falo de mim mesmo. Nasci numa família que não falava português, a minha mãe não falava português mas sim guitonga (de Inhambane). Eu fui aprender português na escola. Mas desde a pré até a 4.ª classe, nas redacções e nos ditados, tinha zero erros, muito bom. Hoje vemos pessoas com grau de licenciatura a escrever a palavra você com “c” cedilhado no facebook e orgulham-se de serem doutores”, lamentou.

Gulamo Taju diz que não pretende, com a realização da pesquisa, interferir nas questões institucionais do Ministério da Educação, mas sim dar a sua contribuição na área, usando a sua experiência de 40 anos de docência.

“Dediquei-me ao ensino à distância na Universidade Eduardo Mondlane. Agora já tenho mais tempo, não tenho muitas obrigações na Universidade, embora não reformado. Já tenho tempo para pensar um pouco mais. Quero aproveitar o pouco futuro que me resta para fazer o estudo. Posso realizar debates de âmbito pedagógico com professores, com especialistas via online. Eu geri o ensino à distância, sei como é que isso funciona. Quero também conversar com professores sobre o seu futuro, o que podem inovar para melhorar as suas vidas. São ideias que tenho. Tal como eu tive o suporte de muitas pessoas, também posso ajudar”, disse.

O projecto do académico inclui o apadrinhamento das escolas secundárias Samora Machel nas cidades de Chimoio e Beira, que considera como tendo-o marcado profundamente durante a sua carreira de docência. Inclui ainda o apadrinhamento das escolas primária e secundária do bairro da Liberdade, onde vive, sendo que contactos com as respectivas direcções para o efeito já foram iniciados.

As peripécias de um jovem professor

Gulamo Taju faz parte da primeira geração de professores de Moçambique livre. Já em 1975, ainda estudante do Ensino Secundário, foi chamado a prestar colaboração, dando aulas de Francês a uma turma do curso nocturno em Inhambane. Tinha apenas 16 anos de idade.

Leccionou a disciplina de Francês durante um ano, sob coordenação e apoio, na altura, de jovens idos de Maputo no quadro dos ventos da revolução. Esses jovens teriam saído da Universidade Eduardo Mondlane para prestar apoio às escolas na altura.

“Falo de João Vitorino, falecido juiz-conselheiro do Tribunal Supremo, e de uma outra jovem chamada Alexandra. Sem remuneração nenhuma, embora eu precisasse de dinheiro. Em 1976 sou envolvido num processo de formação direccionado à educação, em Maputo, e no dia 29 de Maio desse ano fui formalmente nomeado professor. Para mim é uma grande honra hoje dizer que celebro 40 anos. Pessoas da minha geração são muito poucas. Eu tenho o privilégio de estar vivo e ainda estar na educação no activo”, afirmou.

O percurso do jovem professor Gulamo Taju foi muito marcado por Manica e Sofala. Em finais de 1976 foi transferido de Maputo para a província de Manica. A ida àquela província, concretamente para a sua capital, a cidade de Chimoio, foi feita de autocarro, o Expresso Gazela.

“O autocarro chegou tarde a Inchope, para fazer ligação com o autocarro Beira-Chimoio. Naquela altura os autocarros tinham horários rigorosos. Chegados a Inchope, eu e mais algumas pessoas que iam a Chimoio, que não as conhecia, dormimos ao relento, pois não havia as infra-estruturas que hoje há. Pela primeira vez ouvi rugidos de leões, provavelmente vindos de Gorongosa. Dia seguinte, apanhámos o primeiro autocarro aí por volta das sete horas”, relata.

Chegado a Chimoio, numa manhã de Fevereiro de 1977, o jovem Gulamo Taju, que havia passado a noite sem ter comido nada, tomou o seu pequeno-almoço no ex-Bar Meia-Noite, hoje Cruz Vermelha. Foi um prego. Dirigiu-se, à pé, à Direcção Provincial da Educação para se apresentar e foi-lhe indicado o lar em que havia de se alojar, mesmo ao lado da instituição.

“Trabalhei na Escola Secundária Samora Machel, na altura Escola Secundária de Chimoio. Tinha um único pavilhão. Ao mesmo tempo, o director provincial queria que eu ficasse na direcção provincial a montar o serviço de ensino secundário e médio. Durante muito tempo, trabalhei com o falecido director provincial de Educação Gabriel Nombora Zucule. Com ele visitei e trabalhei em escolas como o Centro Educacional de Jécua, Centro Educacional de Inhazónia, Centro Educacional de Amatongas. Na Escola Secundária de Chimoio leccionava a disciplina de Geografia”, revelou.

Pelas mãos de Taju passaram personalidades como o actual presidente do Conselho Municipal da Cidade de Chimoio, Raul Conde Marques Adriano, a juíza-conselheira do Conselho Constitucional Lúcia Ribeiro e outras espalhadas por diversas instituições estatais e privadas.

Gulamo Taju diz que a profissão de professor não traz dinheiro e adverte àqueles que querem seguir a carreira pensando em enriquecer-se. Os seus colegas que com ele terminaram o Ensino Secundário em Inhambane ficaram por lá, uns a estagiar no ex-Banco Nacional Ultramarino e hoje são grandes bancários.

Dentre eles, o académico recorda-se do actual Governador do Banco de Moçambique, Ernesto Gouveia Gove, que foi seu colega de turma durante três anos, tendo terminado juntos o secundário.

“Eu corri para Maputo para vir estudar e acabei me envolvendo na educação”, disse.

 

Alguns factos marcantes

Gulamo Taju conta que uma vez em 1977 estava num exame oral com estudantes da disciplina de Português, quando toda a comunidade escolar se apercebeu de um ataque aéreo de Ian Smith à localidade de Matsinho, que hoje pertence ao distrito de Vandúzi.

“Estando nós no primeiro andar, víamos aquilo. Conseguimos travar os estudantes, porque já havia alguns com tendência de saltar. Eles já tinham ouvido falar do massacre de Inhazónia. Terminámos as provas que havíamos iniciado, suspendemos as outras, porque o ambiente já não estava adequado. Pela cidade começámos a ver gente armada das forças populares”, disse.

Ainda como aspecto marcante, Gulamo Taju conta que em Amatongas, onde viveu desde finais de 1978 a Dezembro de 1979, assistiu a vários “raides” da aviação de Ian Smith contra um centro de refugiados zimbabweanos em Doeroi, que estava muito próximo.

“Ian Smith atacava via aérea os campos de refugiados zimbabweanos. Nós tínhamos ali perto Doeroi. Tínhamos tido alguma informação de como fazer para proteger os miúdos na situação de ataque. Tínhamos de fazer com que os estudantes se espalhassem, em caso de bombardeamento. Tive a experiência de evacuar e dispersar estudantes. Em Amatongas trabalhei como director-adjunto do centro educacional. Depois voltei para Maputo, para fazer o bacharelato na Universidade Eduardo Mondlane. Terminado o bacharelato, em 1982, fui nomeado centralmente director da Samora Machel na Beira. Na altura, a Samora Machel era uma escola que leccionava a 10.ª e 11.ª classes. Recebíamos estudantes de Manica, Sofala, Tete, Zambézia, Nampula, Cabo Delgado e Niassa”, disse.

Para Gulamo Taju, a cidade da Beira foi mais desafiante para si do ponto de vista de organização, porquanto a Escola Secundária Samora Machel contava com perto de três mil estudantes. Taju tinha a responsabilidade de gerir uma escola com perto de três mil estudantes, com apenas 24 anos.

Nas suas funções de director da Samora Machel, recebeu muito apoio da Direcção Provincial da Educação e dos próprios estudantes e recorda algumas passagens:

“Celebrávamos o 29 de Setembro, que é o dia de Samora Machel, paralisando a cidade da Beira, literalmente. No meio de dificuldades de água, luz e problemas de comida. A Beira, naquela altura, sofreu muito com a guerra da Renamo. Em 1985, nós ficámos seis meses literalmente sem energia”.

Outro facto marcante na carreira de docência de Gulamo Taju foi quando o então Governador da província de Manica Manuel António o mandou a um campo de reeducação em Muda. O crime foi ele ter respondido ao governante num tom considerado uma indisciplina.

“Eu tinha cabelo grande. Gostava do meu cabelo e na altura tive uma pequena confrontação verbal com o Governador Manuel António. Eu gostava de manter o meu cabelo comprido, não era indisciplina nenhuma, mas naquela altura havia controlo de tudo, mesmo a maneira de ser das pessoas. Gostavam de uniformizar-nos. Eu disse claramente a ele que o cabelo não interferia na ideologia da pessoa e que se fosse por razões de higiene podiam vasculhar o meu cabelo e não haviam de encontrar nenhum habitante. O governador sentiu-se ofendido com a linguagem que usei e disse-se: alguém vai dizer porque é que a galinha não tem dentes e a cobra não tem nádegas. É uma expressão ndau que significa que estás entre a espada e a parede. Então, fui conduzido a um processo reeducativo. Durante três meses estive na zona do rio Muda, uma zona florestal. Fui recebido com uma enxada e mandaram-me tirar batata”, contou.

Acompanhado de sorte, Taju recebeu, por ordens do partido, indicação de dar aulas de educação política no centro de reeducação. Falava aos seus companheiros de reeducação da história da Frelimo, da ideologia do partido e baseava-se nos documentos do III Congresso. As aulas de educação política eram intercaladas com actividades culturais.

Certa vez, Manuel António visitou o centro e Gulamo Taju foi quem leu o relatório das actividades ali desenvolvidas. Saiu do centro de reeducação e foi colocado em Amatongas como director-adjunto.

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