Domingo, 21 Julho, 2024
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BELAS MEMÓRIAS: O pesadelo da Madú

Por Jornal Notícias
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MADÚ é uma menina bonita que fascina qualquer um que perto dela chega. Pelo facto ou não, ela granjeia simpatia de muitos, entre familiares, amigos, conhecidos e também desconhecidos.

Os seus pais mimam-na, apesar dos alertas sobre as consequências disso na fase adulta.

Ao ritmo do carinho que recebe, também ganha muitas prendas que já nem cabem no seu quartinho. Ela tem dificuldade de arrumá-las melhor de modo a tornar o espaço organizado e aconchegante.

Como qualquer ser humano, Madú sonha ter mais do que tem, pois a satisfação é inatingível. Que o digam os que melhor entendem das teorias de economia.

Porque o desejo idealizado durante o dia muitas vezes chega ao subconsciente e manifesta-se sob forma de sonho, não foi diferente para a menina. Numa noite, enquanto dormia tranquilamente, sonhou com tantos brinquedos do que tinha na realidade. O sonho era um misto de sentimentos de alegria e tristeza.

As bonecas eram tantas e com a particularidade de terem movimento como os seres humanos. Davam-lhe muito trabalho, pior por não ter espaço para as acomodar. Elas choravam, porque queriam banho e comida, pediam para dançar e cantar, pular e deitar-se ao chão, quase ao mesmo tempo.

Proporcionar-lhes espaço e atenção para tal estava a ser uma missão impossível.

A Madú sofria para poder ajudar as suas bonecas a viverem aquele momento da melhor forma possível. Num frenesim, tentava afastar-se do espaço habitual em busca de aconchego, mas via-se de pés atados porque os corredores por onde achava que podia encontrar solução ficavam gradualmente abarrotados de bonecas e mais bonecas que não paravam de aparecer.

No chão colocava farnel para o piquenique, mas sempre vinha uma onda gigantesca de corrente a arrasar quase tudo, incluindo os balões de cores lindas, umas mais que as outras.

Porque não há nenhum sonho ou pesadelo sem fim, na tentativa de correr atrás dos balões, Madú tropeçou e despertou do sonho para a realidade e assim ficou livre do sufoco que já estava ser o seu sonho.

Situação similar a este sonho viveram muitas crianças que, mesmo com muitos presentes e oportunidades para brincar, foram obrigadas a andar pelas ruas da Matola e Maputo, algumas a pé e outras em viaturas, porque os encarregados de educação não encontravam espaço ideal para as acomodar e proporcionar uma festa linda, no contexto do Dia Internacional da Criança assinalado a 1 de Junho.

Uns lotavam as grandes superfícies, desde que tivessem um canto de diversão. Mas esses lugares não estão dotados de espaço para albergar tamanha moldura humana, constituída por adultos e crianças que se organizaram em grupos de família, vizinhos, amigos, etc.

A preferência por estes lugares surge do facto de lá nos bairros de onde os convivas partiam não haver espaços de lazer. Os mais velhos nunca mais quiseram se dar o tempo de conceber ou reservar cantos como jardins e parques de diversão dos petizes: não faz parte dos seus planos.

Não é na rua que eles encontrariam a alegria de brincar com os seus amigos, porque estas foram concebidas para a circulação de viaturas. Já parámos para imaginar onde será que os filhos, netos, bisnetos (…) da Madú irão brincar, mesmo? Um abraço fraterno.

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