Domingo, 14 Julho, 2024
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CARTAS AO BARÃO…: O filho do Presidente

Por Jornal Notícias
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ALMIRO SANTOS

ESTA vai ser a última carta ao Pierre versando os jogos do Misha, o simpático urso que em Moscovo recebeu a primeira delegação olímpica de Moçambique, da qual fazia parte o nadador Ntewane Machel, filho do Presidente Samora Machel, falecido a 19 de Outubro de 1986 na queda de um Tupolev-134.

O facto de o filho do Presidente da República integrar a delegação desportiva que em Moscovo representou pela primeira vez Moçambique nos jogos olímpicos não alterou as rotinas do grupo, tão-pouco Ntewane foi alvo de uma atenção especial por parte da equipa de protocolo do nosso amigo Misha e sequer teve privilégios dos seus companheiros de viagem. Sobre o facto, João de Sousa, jornalista falecido da RM que também viajou para Moscovo em 1980, recordaria a simplicidade e até a humildade do nadador.

Ntewane estava em Moscovo para disputar a prova dos 200 metros livres. Logo que soube que fazia parte da delegação olímpica, intensificou os treinos com a ajuda do seu amigo Gilberto Mendes, o actual Secretário de Estado do Desporto e com o qual, para além das braçadas na piscina, gostava de patinar ao… ritmo da felicidade!

Este último, Gilberto Mendes, apesar de na altura treinar-se com Ntewane nos “Velhos Colonos”, actual piscina da Federação Moçambicana de Natação, não integrava a lista dos nadadores que disputaram a primeira olimpíada do país, mas nunca deixou de se fazer às gélidas águas – estava-se em Maio, no auge da preparação – da piscina aludida para “puxar” pelo seu amigo Ntewane.

No total foram cinco os nadadores que representaram Moçambique nos Jogos olímpicos de Moscovo. Para além de Ntewane, faziam parte do restrito grupo Pedro Cruz, dos 100 metros costas, Rogério Silva, dos 100 metros bruços, Edgar Martins, dos 100 metros livres e, claro está, Raimundo Franisse, dos 100 e 200 metros mariposa.

Tal como aconteceu com o atletismo moçambicano, também a natação não registou grandes marcas, até porque a sua presença em Moscovo correspondia a um convite formulado a um país recém-chegado ao concerto das nações, à margem dos rigorosos critérios desportivos impostos pelo Comité Olímpico Internacional. Ainda hoje são atribuídas algumas vagas com base em outros méritos que não apenas os desportivos.

Com os Estados Unidos da América auto-excluídos, a natação nos Jogos Olímpicos de Moscovo foi dominada pela antiga República Democrática Alemã, uma vez que, na natação feminina, a vitória apenas escapou nos 800 metros livres e nos 200 metros bruços. Barbara Krause, Karen Metschuk e Rica Reinisch foram as grandes protagonistas desta equipa, arrebatando um total de nove medalhas de ouro, três para cada uma das sereias alemãs.

Enfim, estes não foram apenas os jogos de estreia de Moçambique na festa do nosso Barão. Foi precisamente nos Jogos Olímpicos de Moscovo que o antigo embaixador da Espanha na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Juan Antonio Samaranch, assumiu a presidência do Comité Olímpico Internacional (COI), em substituição do irlandês Lord Killanin.

Samaranch abandonaria o cargo 20 anos depois, nos Jogos Olímpicos de Sydney-2000, precisamente depois da vitória de Lurdes Mutola, mas manteve com Marcelino Macome uma grande amizade, dividindo esforços para construir pontes e remover o espectro do boicote que ameaçava o espírito do Barão Pierre de Coubertin. Os Jogos de Los Angels demonstrariam o quão importante seria a tarefa destes dois amigos, um espanhol e o outro moçambicano…

PS: Caro Pierre, não consegues um espaço em Olímpia para juntar ao teu coração o do nosso Macome?

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