EM tempos, uma colega de profissão contou-me, indignada, que viu numa reportagem televisiva, feita algures na cintura verde de Maputo, algo arrepiante e perguntou-me se também teria visto. Respondi negativamente.
De seguida veio a narração: Tratava-se de um retrato audiovisual do processo de produção de hortícolas, no qual o repórter entrevista diferentes fontes directamente ligadas à labuta. Entre elas estava uma que, na ocasião, regava as suas hortas com recurso a águas negras.
Questionada sobre o acto respondeu, sem papas na língua, que não havia problema algum, pois aquilo não se destinava ao consumo, mas sim à venda. A pergunta que não quis calar é: o que fariam os compradores inocentes?
É o que acontece um pouco por onde o negócio é aliado à maldade (a esta forma de pensar). Vem isto a propósito de uma conversa entre vendedeiras que se encontraram num convívio, tendo entre várias coisas lamentado sobre a vida corrida que levam, retirando-as o lado social. Elas já não se viam há bastante tempo e tinham saudades, pois o fogão e a frigideira tinham passado a ser os seus principais aliados.
Dai veio o custo de vida que é um denominador comum, com os preços dos produtos alimentares a aumentar exponencialmente, espevitando a educação para poupança.
Dizia uma delas que neste jogo da vida só sobrevive quem realmente é astuta e sabe acertar as equações do exercício diário, por mais complexas que sejam.
– Eu, por exemplo, aprendi a poupar o óleo. Antes comprava 10 litros de óleo de cozinha, semanalmente, mas agora confecciono a mesma quantidade de comida usando os 10 litros por duas semanas.
– Que milagre é esse, comadre?
– Não tive nenhum professor, coma! O custo de vida desperta para soluções à altura das carências e necessidades. Vocês ainda descartam o óleo de frituras como no tempo das vacas gordas? Isso, para mim, já não funciona. Por mais que tenha utilizado tantas vezes, reutilizo o óleo para diferentes frituras até … Isso de doenças aqui e acolá é para quem tem e pode, porque de outra forma não há como aguentar.
Mas a conversa era, infelizmente, acompanhada por alguém que dedicou sete anos ao estudo da medicina e credenciada para lidar com vidas alheias. Indignada, interveio na em jeito de alerta?
– Mas não devia, porque procedendo dessa forma estão a pôr em causa a saúde das pessoas que vos dão o dinheiro diariamente. Creio que continuar a gastar os 10 litros semanais estaria a salvaguardar a vida dos demais, não acha?
– Isso só é sinal de que não estamos no mesmo mundo. Quem sabe o que é lutar pela sobrevivência nunca pensaria do mesmo jeito. Nós estamos a sobreviver e não a viver como os que nos dão licções como estas.
-Lamento que assim pense, mas não devia, insistiu a médica.
Dos bastidores chegava o arroz, um dos pratos a serem servidos a partir de panelas de banho-maria. O arroz tinha, nalgumas partes, coloração incomum, de cor azulada que as conhecedoras do assunto trataram de identificar, com naturalidade.
_ Não é nada isso! Na panela o arroz estava coberto por um plástico azul para acelerar a cozedura porque, esperando o vapor normal, gastar-se-ia mais carvão, o que lesaria o dono da festa.
– Isto, por exemplo, não deve ser. As pessoas foram chamadas aqui para conviver e celebrar o momento mas não para adquirir problemas de saúde, dizia a conviva médica.
– A vida é uma luta constante pela sobrevivência e neste mundo salva-se quem poder. As vossas regras não coadunam com o sofrimento.
E assim vamos consumindo microplásticos e óleos reutilizados mais vezes (…)


