MAPUTO foi recentemente a capital de uma utopia audível e visível. O VII Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas Poetas D’Alma, que decorreu sob o signo “A Possibilidade de um Mundo Novo”, transformou a capital do país num espaço poético. Galerias, ruas de bairro, casas-museu e centros culturais pulsaram como órgãos de um mesmo corpo, movidos por um sangue feito de palavras, ritmo e luz. Foi uma cartografia do afecto, uma prova prática de que o futuro não se prevê, mas constrói-se, colectivamente, sílaba a sílaba.
O festival começou, significativamente, no Instituto de Guimarães Rosa (IGR) com uma exposição com Jorge Dias na curadoria, sobre a Consciência Negra, e ergueu-se como um contra-ponto vital. “A arte não é um acessório da nação; é a sua respiração e a sua memória crítica”, afirmou ele.
A mostra honrou José Craveirinha e Mia Couto, mas inclinou-se, com especial reverência, para as mulheres guerreiras, arquitectas da resiliência moçambicana. Dessa força ancestral, emergiu a voz de Paulina Chiziane, cujas palavras definiram o tom do festival: “Isto é a celebração da nossa ancestralidade. A poesia é a ferramenta para resgatar as vozes que a história quis apagar”.
O Poetas D’Alma operou numa lógica de proximidade. Após a abertura oficial, os artistas nacionais e internacionais foram conduzidos em peregrinação aos lugares-semente da cultura moçambicana. A visita à residência de Paulina Chiziane foi um ritual de transmissão íntima. O encontro com Mia Couto, por sua vez, foi uma semente lançada ao vento, para que este o leve a outros solos.
Num jardim sombreado, o escritor recebeu o colectivo e, após ouvir relatos do movimento, declarou: “Vejo neste festival uma árvore jovem, mas com raízes profundas. Continuem! A poesia de vocês não decora o mundo; ela pergunta, desarruma, reconstrói. Sigam escrevendo o universo que sonham”.
As palavras de Mia, “jovens, façam poesia e salvem o mundo”, transformaram-se num mantra que ecoou em todos os sotaques presentes.
A jornada prosseguiu até ao bairro do Aeroporto, à Casa Museu Malangatana. Lá, sob a orientação do artista Manguiza, filho de Malangatana, o “workshop” sobre o mestre foi uma imersão ao seu universo. “Tocar nos seus pincéis, nos seus pigmentos de terra, é entender que a cor pode ser uma oração e um grito”, partilhou Thaíse Monteiro, poeta brasileira do Goiânia Clandestina.
A emoção foi selada por Manguiza Malangatana, filho do pintor-poeta, que, visivelmente comovido, afirmou: “O meu pai falava através das formas e das cores. Hoje, vejo a chama dele acesa em vocês. Malangatana estaria muito feliz pela vida que este colectivo dá”.
Uma aliança pela imagem

Um dos momentos capitais, ainda pouco narrado, foi a visita ao Centro de Documentação e Formação Fotográfica (CDFF). Num gesto de profunda generosidade intelectual, a directora Cecília Gonçalves conduziu os artistas de várias nacionalidades pelos arquivos do centro.
Num silêncio reverente, ela apresentou a obra monumental de Ricardo Rangel, pioneiro do fotojornalismo moçambicano. “Rangel não fotografava eventos; fotografava o intervalo entre os acontecimentos. O olhar cansado de um trabalhador, a espera num autocarro, a luz poeirenta da tarde nos subúrbios de Maputo. Ele ensinou-nos a ver o extraordinário no tecido simples do dia”, explicou Cecília Gonçalves, enquanto folheava cópias de contacto que eram verdadeiros poemas visuais.
Para honrar esta visita, o CDFF preparou uma exposição especial com fotografias de Rangel, uma sessão de poesia, jazz e mbira com o músico e construtor de instrumentos tradicionais Maneto e com Féling Capela, criando um diálogo silencioso e poderoso entre a imagem do passado, a música acústica e palavra poética do presente.
“É uma convergência natural”, reflectiu a directora do CDFF. “A poesia e a fotografia de Rangel partilham a mesma missão: fixar a verdade fugidia, dar dignidade ao instante, questionar o que é visto”.
Deste encontro nasceu mais do que inspiração; nasceu um compromisso. O CDFF e o Poetas D’Alma firmaram uma parceria estratégica. “Esta aliança”, anunciou Gonçalves, “visa criar oportunidades concretas para jovens fotógrafos e investigadores. Queremos residências, bolsas de estudo e publicações que cruzem o olhar da lente com o olhar da palavra. O futuro da memória visual de Moçambique depende destas pontes”.
Os palcos da inclusão

O festival soube orquestrar uma paisagem sonora tão diversa quanto a sua poesia. O concerto Soul’Acústico foi uma celebração da fraternidade entre os artistas: a cantora poeta e compositora Flávia Carolina, do Brasil, a compositora de Eswatini Leebombo e o cantor e compositor Bhaka Yafole, enquanto a noite Clave de Soul aprofundou esse diálogo íntimo.
O tributo Fala Fala elevou a energia ao transportar para Maputo o espírito de insubordinação do rei do afrobeat Fela Kuti. A música, tal como a poesia de Fela, mostrou-se uma arma política dançante, um chamado à liberdade que ecoou pelas noites da capital no Mar À Vista.
Nos bastidores e no palco, a ética da inclusão foi um pilar. A performance teatral do colectivo Goiânia Clandestina, do Brasil, foi um marco: acompanhada por interpretação em língua de sinais, garantiu que a sua mensagem de resistência periférica atravessasse todas as barreiras sensoriais.
Foi a materialização do princípio que orientou o festival: diversidade é ser convidado; inclusão é ser chamado para dançar no centro.
Um poema que não termina

O encerramento, ao som da curadoria histórica dos DJ Maskoff e Dub Rui (este também baixista dos 340ml), não foi um ponto final. Foi um ponto de viragem. O festival deixou sementes plantadas: pinturas colectivas com a participação do público serão doadas à comunidade da Mafalala, uma parceria vital com o CDFF, e uma Feira do Livro que levou fragmentos deste mundo novo para casa.
Ao anunciar o tema para 2026, “Diálogos Globais: Arte, Poesia e Resistência”, o Poetas D’Alma confirmou a sua natureza de movimento perene.
Em Maputo, durante aqueles onze dias, a possibilidade de um mundo novo deixou de ser uma abstracção. Tornou-se respirável na alma, visível nas fotos de Rangel, palpável no aperto de mão entre Mia Couto e os jovens poetas, audível no silêncio respeitoso perante a obra de Malangatana, ensinamentos ancestrais de Paulina Chiziane.
O evento provou que o mundo novo não é um destino a alcançar, mas um verbo a conjugar no presente colectivo. É tecer, como fizeram as mulheres ancestrais. É fotografar, como ensinou Ricardo Rangel. É incluir, como mostrou o Goiânia Clandestina. É, acima de tudo, continuar. Foi um poema escrito a muitas mãos, uma primeira estrofe poderosa de um épico que mal começou.

















