Não é comum tratarmos de assuntos fora de portas neste espaço. Excepcionalmente, fazemo-lo porque entendemos tratar-se de uma matéria sensível que acreditamos ter potencial de afectar a vida dos moçambicanos em diferentes vertentes. Referimo-nos aos ataques norte-americanos e do Israel ao Irão e às acções de retaliação que atingem grande parte dos países do Médio Oriente.
Neste mundo globalizado, embora o conflito ocorra longe do território moçambicano, os seus efeitos podem repercutir-se na economia, posição diplomática e segurança energética do país.
Num determinado fórum, o Governo admitiu que os efeitos da escalada de violência são susceptíveis de prejudicar os indicadores macro-económicos, contrariando a expectativa de relançamento do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), em 2026.
Na verdade, o Irão é dos principais produtores de petróleo do mundo e qualquer conflito que afecte a produção ou o transporte deste combustível pelo Estreito de Ormuz leva ao aumento dos preços. Para Moçambique, que importa combustíveis, isso pode resultar no aumento das despesas com transporte, subida do preço dos alimentos e do custo de vida, gerando inflação e pressionando o poder de compra das famílias.
Outrossim, as guerras no Médio Oriente costumam gerar instabilidade nos mercados, reduzindo o ritmo de crescimento. Quando a economia global desacelera, a procura por matérias-primas exportadas por países africanos também diminui, afectando as receitas de exportação e o fluxo de divisas.
Diplomaticamente, os conflitos geram pressões internacionais para que os países se posicionem politicamente em fóruns multilaterais, como ONU. Moçambique, tradicionalmente defensor do multilateralismo e da resolução pacífica de conflitos, terá de equilibrar as suas relações diplomáticas com diferentes parceiros.
De igual modo, a instabilidade no Médio Oriente altera as prioridades geopolíticas das grandes potências, já que os Estados Unidos e aliados tenderão a redireccionar recursos militares, diplomáticos e financeiros para a região, reduzindo a atenção e o apoio a outras áreas do mundo, incluindo África. Isso tem o potencial de afectar programas de cooperação, assistência ao desenvolvimento e até iniciativas de segurança que envolvem o nosso país, minando no caso de Moçambique, o optimismo governamental alimentado pelo clima de estabilidade que se vive no país e pela melhoria da segurança em Cabo Delgado.
Entretanto, com a insegurança energética causada pelo conflito, os países europeus, por exemplo, podem procurar diversificar as suas fontes de energia. Nesse contexto, Moçambique – que possui grandes reservas de gás natural na Bacia do Rovuma – pode reforçar a sua importância estratégica como fornecedor alternativo de energia, levando a que os projectos de gás natural liquefeito se tornem mais relevantes para investidores estrangeiros. Aliás, as crises geopolíticas globais muitas vezes levam investidores a procurar mercados emergentes.
Deste modo, ainda que reine algum optimismo quanto à recuperação do crescimento do PIB moçambicano, o Governo terá de pensar rapidamente em medidas de mitigação do impacto da instabilidade naquela zona importante para a prossecução do comércio internacional. Mas, mais do que isso, como país precisamos de reforçar as condições para produzir e baixar a dependência externa. Para isso, o empresariado deve olhar para esta crise também como oportunidade para se reinventar.


