Domingo, 5 Abril, 2026
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GEOPOLITICANDO: Não atacar! Não, atacar!

Por Jornal Notícias
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EDMUNDO MANHIÇA*

CADA dia, tudo piora em volta do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irão, numa atitude de retaliação. Cobra dois milhões de dólares norte-americanos por passagem de um navio, convertidos em nyuans chineses.

Livremente, e naqueles termos, passam desse gargalo, petroleiros de países não hostis ao Irão, à excepção dos EUA e seus aliados. Evidentemente, Ormuz tornou-se gatilho que globalizou uma crise inicialmente regional.

Recorde-se que, no dia 19 de Março, a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, a Itália, os Países Baixos e o Japão anunciaram a sua intenção de se juntarem à coligação para garantir a segurança dos navios no Estreito de Ormuz.

Posteriormente, o Canadá, a República da Coreia, a Nova Zelândia, a Austrália, a Letónia, a Lituânia, a Eslovénia, a Estónia, a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a República Checa e a Roménia também aderiram.

A escalada de tensões em torno do Irão levou ao bloqueio, de facto, do Estreito de Ormuz, uma rota crucial para o fornecimento de petróleo e GNL dos países do Golfo Pérsico ao mercado global. Os ataques a instalações energéticas na região provocaram um aumento acentuado dos preços do petróleo e do gás.

A crise energética e a desestabilização económica que esse bloqueio está a causar para a região e, consequentemente, para o mundo é a consequência directa e inevitável do que se podia esperar. 

Nisso, não há coisa nova que possa deixar alguém perplexo. É literalmente simples: ventos semeados, tempestades colhidas. O melhor teria sido abster-se do início de uma guerra, cujo término se  desconhece.

Ora, destaquemos dois momentos cruciais que, em  verdade, nos surpreendem: de um lado,  o de “decapitação do dólar” (um dano colateral ou objectivo projectado) e, de outro, o de total desnorteio, consubstanciado em ultimatos inconsequentes.

Esses ultimatos… Foi fácil romper o curso normal das negociações irano-americanas, como aconteceu antes, privilegiando-se o uso da força militar, e perder, em resultado, a confiança das contrapartes.

Agora, mesmo que a solução seja encontrada, será no meio de uma grande desconfiança. Falta credibilidade, para além do facto do ambiente ser tóxico e regido por ultimatos.

A título de exemplo, enquanto se diz que foram encetados contactos, com a intermediação do Paquistão (Trump fala já de “negociações bem-sucedidas” com Teerão), os norte-americanos preparam-se para destacar no Médio Oriente cerca de 3.000 soldados da elite da 82ª Divisão Aerotransportada.

Trata-se de formação de uma força de ataque capaz de atingir alvos estratégicos inimigos em 24 horas. O principal alvo desta “infantaria alada” continua a ser a Ilha de Kharg — o “coração energético” da República Islâmica, por onde passa quase todo o crude exportado pelo país.

Segundo o The New York Times, citando fontes da indústria de defesa, a liderança do Pentágono está a considerar cenários em que as unidades móveis poderiam ser mobilizadas em qualquer ponto da região, no prazo de 18 horas após uma ordem.

Há manipulação e distração significativas. Na altura em que Teerão concordar com qualquer que seja a proposta de paz (ou pedido de trégua), os iranianos serão apunhalados. Em geral, a trégua é solicitada por quem está a perder uma peleja. Os EUA chegaram a apresentar a Teerão um plano de paz de 15 pontos.

O Irão rejeitou as propostas americanas para resolver o conflito, classificando-as como uma tentativa de engano e totalmente alheias à realidade. Em vez de discutir as iniciativas ocidentais, Teerão apresentou cinco condições rigorosas, sob as quais estaria disposta a considerar a cessação das hostilidades.

“O Irão terminará a guerra quando decidir e quando as suas próprias condições forem cumpridas”, afirmou uma fonte do canal iraniano Press TV, sublinhando que Teerão não permitirá que Donald Trump dite o momento do fim do impasse.

As exigências de Teerão incluem uma renúncia total à “agressão e assassinatos” dos EUA, a criação de mecanismos para evitar a repetição da guerra e o pagamento de todas as reparações de guerra ao Irão. Além disso, o cessar-fogo deve estender-se a todas as frentes e a todos os grupos de resistência na região.

Um quinto ponto crucial foi a exigência de reconhecimento do direito soberano do Irão de controlar o Estreito de Ormuz como garantia primordial do cumprimento das obrigações da outra parte.

A arrogância de Trump ajuda-nos a prever que nenhuma daquelas condições será aceite pela Casa Branca; os iranianos, em contrapartida, que nesta guerra se sentem no comando (não pedem trégua), endurecem as suas posições e Israel fica órfão de Washington. Independentemente da forma como a ordem trumpista for entendida, o resultado será devastador para o seu mentor. Não atacar! Não, atacar!

*PhD, Especialista em Problemas Políticos dos Sistemas Globais de Desenvolvimento

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