CADEIAS DE VALOR AGRO-ALIMENTARES: Transformando a vida das populações rurais

0

AS províncias de Maputo, Gaza e Inhambane registaram nos últimos anos mudanças significativas mercê de iniciativas de produção agrícola, redução da pobreza e melhoria da segurança alimentar da população rural.

Entre os projectos, destaca-se a construção de sistemas de abastecimento de água, unidades de processamento de produtos agrícolas e mercados rurais, provendo emprego e sustento para milhares de agregados familiares.

O impacto destas iniciativas é mais notório na vida das mulheres e jovens, que deixaram de percorrer longas distâncias para aceder a fontes de abastecimento de água ou ainda para o abeberamento e assistência do gado.

O distrito da Manhiça, na província de Maputo, por exemplo, tem três novas fontes de água, que aumentaram a produção agrária e elevaram a qualidade de vida da população.

A administradora da Manhiça, Cristina de Jesus, disse que a construção dos três furos multifuncionais nos postos administrativos de Maluana, 3 de Fevereiro e Calanga contribuiu para o aumento da produção agrícola.

Reduz distância para ter água

EM Maluana, um furo multifuncional instalado em Chicumbulane beneficia 120 famílias e mais de 500 bovinos.

Com esta infra-estrutura, as mulheres de Chicumbulane deixaram de percorrer quilómetros para ter água, para além de que garante irrigação de hortícolas e legumes que abastecem os mercados locais e arredores.

Angélia Eduardo, da comunidade de Chicumbulane, que se dedica ao cultivo de couve, cenoura, beterraba, alface, alho e cebola nas proximidades do sistema de abastecimento, conta que antes algumas mulheres caminhavam cerca de cinco quilómetros para ir lavar roupa no fontanário então mais próximo. Os homens levavam o dia o todo para dar de beber ao gado.

Por isso, diz que a implantação do furo, que conta ainda com tanques para lavagem de roupa, abriu nova página na vida da comunidade.

O acesso à água também mudou a vida dos residentes e comerciantes de Madendere, no distrito de Mandlakazi, em Gaza, que passaram a dispor de melhores condições para produzir hortícolas e leguminosas.

A infra-estrutura, que congrega o mercado da mandioca e loja de insumos agrícolas, num investimento de 17,6 milhões de meticais, imprimiu nova dinâmica no mercado de venda de produtos agrícolas.

O administrador de Mandlakazi, Virgílio Mulhanga, destaca que estas iniciativas melhoraram significativamente as condições de vida de mais de 400 vendedores fixos e sazonais, tornando o espaço uma referência na comercialização de mandioca e fruta.

Potenciar a produção agro-pecuária

POUCO mais de 150 milhões de dólares (9,5 mil milhões de meticais) estão a ser investidos nas cadeias de valor da mandioca, produção de carnes vermelhas e avicultura, bem como na provisão de serviços adaptados para o meio rural.

Trata-se de um investimento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), voltado para as comunidades menos favorecidas, com destaque para jovens e mulheres nas zonas rurais.

O projecto de Desenvolvimento Inclusivo das Cadeias de Valor Agro-alimentares (PROCAVA) é um dos exemplos de iniciativas que têm contribuído para a melhoria das condições de vida das populações rurais.

O PROCAVA foi lançado em 2020 como continuidade do PROSUL, tendo a duração de dez anos e com previsão de cobrir 75 distritos. Espera-se que beneficie mais de 180 mil famílias, na sua maioria compostas por pequenos produtores.

O director do FIDA em Moçambique, Custódio Mucavele, destacou a importância de os jovens encontrarem oportunidades de emprego nas zonas rurais, para evitar que saiam do campo para a cidade em busca de alternativas para viver.

Acrescentou que investir nas mulheres é investir na sociedade. Estatisticamente, são as que mais participam na agricultura. Apesar dos avanços alcançados, Mucavele referiu que ainda existem desafios para acabar com a pobreza.

“Apostamos na agricultura, mas temos o desafio de que outros sectores de economia continuem a investir nas zonas rurais, como é o caso do sector de infra-estruturas, comunicações e educação”, afirmou..

Processar agrega valor à produção

O PROCESSAMENTO de produtos agrícolas tem estado a adicionar valor à produção, ao mesmo tempo que contribui para a melhoria da segurança alimentar e nutricional das famílias e durabilidade dos alimentos.

É nesta senda que os pequenos produtores têm estado a aprender técnicas para processar e transformar os produtos, com intuito de comercializar ou aumentar o seu prazo de validade.

Na localidade de Chicumbulane, distrito da Manhiça, a população aprendeu técnicas de aproveitamento de legumes, bem como a preparar papas e sumos nutritivos para as suas famílias e crianças, aproveitando a produção local.

Zaida Manhiça, produtora agrícola há mais de quinze anos, conta que parte da produção de legumes tem sido processada para garantir a conservação e contribuir para melhorar a segurança alimentar e nutricional da família.

“Aprendemos a preparar sumos de batata-doce, bolos de cenoura e farinha de milho, para além de pastéis de mandioca. A nossa vida mudou porque melhorámos a produção e temos sabido aproveitar a colheita”, explicou.

Por outro lado, da mandioca produzida na localidade de Nhanombe, no distrito de Inharrime, em Inhambane, a unidade de processamento da Cooperativa Josina Machel coloca no mercado anualmente mais de 1100 toneladas de produtos derivados, como a tapioca fina, grossa e leite, além de pão, biscoitos e “chips”.

A cooperativa tem seu próprio campo de produção de 15 hectares, onde consegue colher mais de 20 mil toneladas de mandioca por ano, e ainda compra da comunidade.

A secretária da cooperativa, Olinda Sebastião, conta que cada membro consegue renda, assegurando o sustento das famílias e realização de poupanças.

“Queremos aumentar a capacidade de processamento para 1800 toneladas/ano. Também temos o desafio de conseguir transporte para facilitar o escoamento da matéria-prima”, disse Olinda.

Reduzir vulnerabilidade

A COVID-19, os ataques terroristas, os ciclones e as mudanças climáticas aumentaram a vulnerabilidade das famílias, daí a necessidade de maior investimento na sua protecção e empoderamento sócio-económico.

A vice-presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Jyostna Puri, garante que a organização vai continuar a trabalhar com o Governo para resolver os problemas da população rural no país.

Puri, que visitou os projectos financiados pelo FIDA nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane, destacou a inovação e apropriação das iniciativas de melhoria das cadeias de valor agro-alimentares e conexão com os mercados.

“As populações têm mostrado apoio no processamento de mandioca e conectar com os mercados de venda de produtos agrícolas. Este apoio mostra que existe apropriação do projecto pela comunidade, o que permite o seu crescimento”, disse.

Recordou que as causas da pobreza e vulnerabilidade são diferentes, afirmando que que grande parte da população continua nas zonas rurais e as soluções para as adversidades deverão ser ajustadas ao contexto.

“O país está a experimentar adversidades devido às mudanças climáticas, pandemia da Covid-19, ciclones e à deslocação forçada de pessoas em Cabo Delgado. Há muita disrupção que faz com que as pessoas se sintam vulneráveis. O FIDA está focado em tornar as populações rurais fortes e menos vulneráveis, e mais resilientes”, afirmou.

Assegurou que o FIDA está comprometido em investir cada vez mais recursos em projectos de desenvolvimento das zonas rurais, com destaque para cadeias de valor agro-alimentares, produção de carnes, aquacultura e mercados rurais.

ANA RITA TENE
+ posts

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.