DISTRITO EM FOCO: Agricultores de Boane clamam por mercados e estradas

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VICTÓRIA COSSA

A COOPERATIVA Agrícola 25 de Setembro, do bairro de Umbelúzi, e a Associação de Regantes de Manguizene, ambas do distrito de Boane, na província de Maputo, que se dedicam à produção de hortícolas e de milho, enfrentam a falta de mercados para venda dos seus produtos e estradas para o escoamento, o que leva a venderem a sua produção a preços ditados pelos revendedores, que, muitas vezes, estão muito aquém dos custos de produção.

O vice-presidente da Cooperativa 25 de Setembro, José Ndavane, explicou que na produção cada associado recebe um plano das culturas em que aplicar-se numa determinada época, para não repetir as já produzidas por outros produtores.

Por cada época conseguem produzir 150 toneladas de diversas culturas em 40 hectares, onde cada associado produz na parcela que lhe cabe, perfazendo uma área total de 40 hectares em que se produz milho, repolho, tomate e pepino.

Segundo Ndavane, os seus associados recebem apoio do Governo em sementes, meios de produção e de transporte de produtos para suas casas ou locais de venda. Também trabalham com bancos de micro-finanças, mas ainda clamam pela ajuda do Governo no âmbito do programa Sustenta, que só conhecem por via da comunicação social pois nas suas áreas em Boane ainda não está a ser implementado e não sabem como proceder para terem acesso.

A associação tem um fundo, de acordo com o vice-presidente, em que os produtores contribuem e recorrem em caso de necessidade.

“O dinheiro é depositado na conta dos associados para garantir a manutenção dos meios que usamos para a produção agrícola. Neste momento, temos dois tractores, entretanto um deles avariado, e duas motobombas”, informou Ndavane.

A cooperativa 25 de Setembro conta com 38 membros, dos quais 22 são mulheres, e tem recebido assistência técnica dos técnicos dos Serviços Distritais das Actividades Económicas (SDAE), que ensinam como devem proceder na produção e tratamento de culturas em caso de doença.

Penina Mussane, membro da Cooperativa 25 de Setembro desde 1982, relata que conseguiram um empréstimo financeiro que usaram para a compra de um tractor e uma motobomba que lhes ajuda na lavoura e na rega. Receberam outro tractor, oferecido pelo governo japonês, que entretanto avariou e não têm dinheiro para a sua manutenção.

Penina refere que um dos desafios é a venda dos seus produtos agrícolas, pois por falta de mercado têm sido as revendedoras que têm marcado os preços. Por falta de alternativa os produtores acabam por aceitar entregar os seus produtos a preços que não recompensam o valor investido.

“O uso da feira ainda não é eficaz, temos um camião, mas devido à exiguidade de fundos para a compra de combustível, por vezes não temos como escoar os nossos produtos”, contou Penina Mussane.

Apesar das dificuldades, a produtora afirma-se feliz por trabalhar na agricultura, porque consegue sustentar a família. Usa-se como exemplo para mobilizado os jovens locais para olharem para esta actividade como emprego.

Associação Manguiza

pede feira e financiamento

Julieta Mucavel é presidente da Associação dos Regantes de Manguiza, agremiação fundada em 2001 no distrito de Boane e que tem actualmente com 65 membros, entre eles 40 mulheres. Ocupa dois blocos, 1 e 2, em que produzem hortícolas. Revela que nesta época, no Bloco 1 depara-se com dificuldades para fomentar a produção agrícola devido à avaria da motobomba que usam.

A presidente da associação disse que neste momento os membros da agremiação não têm dinheiro suficiente para a reparação da motobomba e esperam a ajuda prometida por uma empresa privada que opera naquela comunidade.

No Bloco 2 trabalharam normalmente e têm recebido apoio em sementes e transferência de técnicas ensinadas pelos extensionistas dos SDAE, sobretudo a produção em pequenas parcelas de terra.

Julieta Mucavel afirma que falta de mercado para a venda do que produzem está a ser lesiva, na medida em que as revendedoras que lhes adquirem as hortícolas são quem marca os preços, que não compensam os custos de produção.

“Elas vêm enganar-nos e ganham do nosso suor, por isso nós que produzimos continuamos pobres, enquanto elas ficam ricas. Por isso, pedimos uma feira de agricultores, porque na altura em que havia feira não éramos aldrabados”, disse.

Governo procura soluções

Cândido Bruno, director dos SDAE de Boane, faz uma avaliação positiva sobre o desenvolvimento económico local, destacando a produção de hortícolas, ovos e frangos como a bandeira do distrito.

Do ponto de vista de quantidade e qualidade, o responsável disse que os níveis de produção subiram, principalmente de hortícolas. Num universo de cerca de 336 mil toneladas que o distrito produziu, 30 por cento é de hortícolas, com destaque para tomate, repolho e um pouco de batata-reno.

O distrito tem vários projectos que desenvolve em parceria com ONG que segundo o director do SDAE são muito essenciais para a transmissão de novas tecnologias. Há Estação Agrária de Umbelúzi e o Centro de Transferência de Tecnologias Agrárias de Boane, que têm a como missão galvanizar e transmitir conhecimentos aos técnicos do SDAE e estes, por sua vez, aos agricultores.

Em relação ao espaço para venda dos produtos agrícolas, o director afirma que ainda é um desafio, porque a cadeia de produção ainda não está completa. Há apenas o mercado local, o de Zimpeto e outros grossistas da área metropolitana de Maputo.

“Precisamos de linhas que consistem em transporte, conservação e agro-processamento. Entretanto, já existem projectos de financiamento que incluem estas linhas, como é o caso do Sustenta. Se aparecer um empresário e apostar nesse negócio será bem-vindo. É só desenhar o projecto e submeter, temos um departamento que observa os projectos, não sairá a perder porque já existe a linha de produção”, informou o director dos SDAE.

Em relação ao Sustenta, Bruno disse já existem técnicos contratados neste âmbito que vão ajudar na componente formação e na explicação dos potenciais beneficiários sobre como aceder ao programa.

Covid-19 afectou aquisição de plântulas

Entretanto, os produtores também estão preocupados com os efeitos causados pela Covid-19 na sua actividade. O agricultor do sector privado Ângelo Miguel Cumaio, técnico agrícola de profissão, refere que com a Covid-19 houve constrangimentos na importação de plântulas da África de Sul, daí que viu como oportunidade a instalação de estufas, tendo neste momento, um milhão e 250 mil plântulas, mas o desafio é triplicar a capacidade.

Falando da estufa, Cumaio disse que já contactou muitos produtores, que requisitaram as plântulas, estando à espera que cresçam para vendê-las.

“Os produtores locais aplaudiram bastante a instalação do projecto de produção de plântulas, pois irão reduzir os gastos de aluguer de camiões para viajar a África do Sul para comprarem plântulas”, destacou Cumaio.

Salmina Albano, técnica responsável pela produção das culturas que são praticadas no campo de Ângelo Cumaio, conta que transmite conhecimento aos outros colaboradores e agricultores para saberem cuidar de plantas, controlo das doenças e de pragas.        

“Em relação às doenças que atacam as culturas, os colaboradores quando as descobrem apresentam-me e vou ao local para analisar que tipo de doença se trata para poder dar o tratamento necessário”, revelou a técnica.

Produção de tomate

Valentina Estevão Mbaule, técnica agro-pecuária que trabalha num dos campos do agricultor Ângelo Cumaio, informou que neste momento estão a fazer colheita de tomate de variedade Mónica, adquirida na África de Sul, embora nos últimos dias seja difícil viajar devido ao controlo sanitário e aos custos inerentes na travessia de fronteira que com a Covid-19 “subiram muito”.

“É dispendioso, mas como ainda não temos outra alternativa devemos cumprir com os requisitos, pois esta variedade é de qualidade muito boa, rende muito, trazendo muito tomate, grande e atraente. Também é híbrida, resiste à pragas e doenças e colhe-se em cada hectare 90 toneladas”, explicou Valentina Mbaule.

Falando da produção de tomate, aquela técnica disse que não era fácil, pois primeiro precisa de fazer a lavoura, gradagem, sulcagem, adubação de fundo para aumentar a fertilidade do solo, rega e depois instalação da planta de tomate, como também o acompanhamento até à maturação e colheita.

A técnica sonha em ter um projecto seu, isto é, uma empresa sua, onde irá implementar os seus conhecimentos e também ajudar a empregar outros jovens.

Convido aos jovens e mulheres a abraçarem esta actividade. A agricultura não é só pegar enxada, é também aprender uma ciência exacta, depois ensinar aos trabalhadores e agricultores familiares, para darem seguimento do conhecimento por nós transmitido”, encorajou Valentina Mbaule.

Água: o grande problema    

O director do Serviço Distrital de Planeamento e Infra-estruturas (SDPI) de Boane, Maúrico Mangue, convida os provedores de água do sector privado para abraçarem as oportunidades que o governo oferece, desde o abastecimento de água à construção de infra-estruturas, para juntos trabalharem na solução dos problemas das comunidades.  

De acordo com o director, as zonas rurais como de Mulotane, Mavoco, Gumbane, Tetene, Tchonissa, Ambrósio, Chipapa, Filipe Samuel Magaia entre outras, são abastecidas por fontes dispersas ou pequenos sistemas.

Até ao momento só a zona urbana se beneficia da água da rede nacional e uma parte de Mulotane e Machauchau.

“Para Mulotane é um grande calcanhar de Aquiles, pelo facto de ter aquíferos bastante salobres e outros sítios sem água. Em 2019, o Governo fez muitos ensaios em Mulotane-sede, abrimos muitos furos que iam até 150 metros de profundidade, não apanhamos água e em Tetene a água é salobre e está fora dos padrões da Organização Mundial da Saúde”, explicou Mangue.

O director do SDPI informou que o Governo distrital já colocou essa preocupação a nível provincial e central para que se estenda a conduta de Corumana para abastecer Mulotane. Enquanto isso não acontece, o governo distrital buscou parcerias locais com 12 operadores em Mavoco e Mulotane.

Em relação à preocupação da água salobre em Mulotane, estão a trabalhar com parceiros e tudo indica que brevemente vai iniciar o trabalho de campo, que vai se estender até 2022.

Celso Mandjate, chefe da localidade de Mulotane, falando da falta de água, disse que este problema se agudizou nos últimos 10 anos porque registou-se um grande crescimento populacional.

De acordo com o chefe da localidade de Mulotane, para se colmatar este problema o governo distrital tem projectos de abastecimento em parceria com privados. Deu exemplo do bairro Mavoco, onde ainda não há nenhuma rede de água nacional, mas um privado abriu furos no bairro de Tchonissa, construiu uma torre e tem a previsão de abastecer cerca de 20 mil habitantes até 2022.

“Ele está a trabalhar com recursos próprios, o governo local apenas mobiliza a população para aderir aos seus serviços de modo a dar retorno aos valores investidos. Há muito potencial, muitas pessoas procuram água e é possível ter ganhos,” garantiu o chefe da Localidade.

Mulotane tem seis bairros, com uma população total estimada em cerca de 37 mil habitantes, onde o único sistema de abastecimento existente não é suficiente para abastecer a toda a população.

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