Ensino em tempo de Covid-19 em Mawandla

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WINNIE Vuma é uma menina de 10 anos que frequenta a 1.ª classe na Escola Primária Completa de Mawandla, no distrito de Magude, província de Maputo.  Aprendeu a contar, somar e subtrair até 15 em xichangana, com a professora Nelma Munguambe. Ela faz parte de um grupo de mais de um milhão de crianças que a pandemia da Covid-19 obrigou a reajustar-se para adquirir as valências exigidas para progredir para a 2.ª classe.

A divisão das turmas em dois grupos para reduzir o risco de contágio pelo novo coronavírus concorreu para que, faltando poucas semanas para o fim do ano lectivo de 2021, tivesse aprendido apenas o básico das disciplinas de Matemática e Português.

Com a 1.ª e 2.ª classes ministradas na modalidade bilingue, os professores têm de se esforçar para, em três dias por semana, transmitir os conteúdos temáticos previstos para estes níveis.

O ano lectivo prestes a findar foi incomum para todos os subsistemas de ensino. Desde Agosto do ano passado que o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH) teve de fazer acertos para assegurar a continuidade do ensino.

Para os alunos mais velhos, com capacidade para auto-aprendizagem, o impacto da Covid-19 pode ter sido mínimo. No entanto, os das primeiras classes poderão ressentir-se das medidas em vigor a longo prazo.

O director da Escola Primária de Mawandla, Rafael Nhambe, conta que, apesar de o plano temático ter sido ajustado para responder aos desafios impostos pela Covid-19, os alunos das classes iniciais poderão não ter o aproveitamento esperado.

Para Rafael Nhambe, a situação é mais preocupante para as classes cujo livro escolar não conseguiu cobrir todos os alunos, obrigando os docentes a redobrar esforços para assegurar que elas possam aprender.

“No ano passado, o aproveitamento esteve abaixo do desejado, mesmo com a orientação do sector da Educação de os alunos das classes sem exame transitarem. Durante o primeiro trimestre (de 2021), focámo-nos em conteúdos perdidos no ano anterior, porém, mesmo assim, o tempo não foi suficiente”, acrescentou.

Falta de livro escolar condiciona aprendizagem

A INSUFICIÊNCIA de manuais da 5.ª e 6.ª classes condicionou o processo de ensino e aprendizagem em Mawandla, com impacto no aproveitamento pedagógico no presente ano lectivo.

O director Nhambe refere que as crianças não aprenderam alguns conteúdos por falta de manuais para acompanhar as aulas. A situação é mais preocupante na 5.ª classe, que a partir deste ano passou a usar novo livro.

“Para este ano, tivemos falta do livro escolar para as crianças da 5.ª e 6.ª classes e tivemos o reforço só agora, a poucas semanas para o fim do ano lectivo. Estamos preocupados com o aproveitamento destas crianças e as valências adquiridas neste nível”, afirmou.

Rafael Nhambe explica que as crianças da 7.ª classe, por seu turno, correm o risco de não transitarem de nível devido a deficiências geradas pela interrupção das aulas no ano lectivo 2020, no quadro das medidas para travar a Covid-19.

“As crianças da 7.ª classe só frequentaram a 6.ª classe por um período de três meses e progrediram para o nível seguinte. No primeiro trimestre deste ano, ocuparam-se dos conteúdos da classe anterior, mas isso pode não assegurar que façam o exame com sucesso”, explicou.

A directora do Serviço Distrital de Juventude, Educação e Tecnologia (SDJET) de Magude, Adélia Massicane, refere que o sector teve de encontrar formas para que as crianças não fossem prejudicadas em meio a dificuldades geradas pelas medidas visando conter a Covid-19.

“No caso das crianças da 2.ª classe que transitaram quando ainda estavam em processo de ambientação, ministrámos os conteúdos do nível anterior, avaliámos e só depois introduzimos os da classe actual”, disse.

Défice de carteiras e salas de aula

MILHARES de crianças que frequentam o ensino básico nas escolas do distrito de Magude ainda estudam sentadas no chão, por falta de carteiras. Nalguns casos, a situação é pior porque há insuficiência de salas de aula.

Do levantamento realizado pelo sector da Educação, são necessárias mais de 750 carteiras para cobrir o défice existente nas escolas de todo o distrito.

Alita Cuambe, aluna da 6.ª classe na Escola Primária de Mawandla, faz parte das crianças que são obrigadas a aprender sentadas no chão e numa sala com problemas de cobertura.

Quando chove, as aulas são interrompidas. A adolescente poderá ter o sonho de ser médica comprometido por falta de condições para uma aprendizagem de qualidade.

Alita, que vai à escola três vezes por semana, conta que conseguiu ter todos os manuais da classe graças a um tio que comprou quando soube que a escola tinha défice do livro, sorte que seus colegas não tiveram.

A responsável do Serviço Distrital de Educação, Adélia Massicame, disse que a falta de carteiras e défice de salas de aula poderão ser reduzidos com a conclusão de obras em curso em cinco escolas, nas localidades de Simbe, Hubene, Chobela e Maguiguane.

“Acreditamos que com este investimento vamos reduzir o número de crianças que estudam em salas feitas com material precário. Esta acção também será acompanhada de alocação de carteiras escolares”, assegurou.

Dificuldades não impedem de sonhar

APESAR das barreiras enfrentadas pelos alunos da Escola Primária de Mawandla para a aprender em tempos de Covid-19, eles continuam a vislumbrar dias melhores na sua formação académica.

Os meninos de palmo-e-meio sonham em ser médicos, professores, engenheiros e até gestores do país. Para eles, as dificuldades enfrentadas servirão de impulso para alcançarem as suas aspirações.

A professora Nelma Munguambe conta que a sua tarefa é preparar os petizes para que possam decidir ainda cedo as profissões que querem seguir quando adultos.

Ela diz que o ensino bilingue tem permitido rápida progressão dos alunos. A língua portuguesa é utilizada na oralidade e os conteúdos são ministrados em xichangana.

“Os alunos aprendem mais rápido com o ensino bilingue. Avaliando o modelo anterior, em que as aulas eram dadas apenas em português, eles têm agora melhor aproveitamento e já sabem ler e escrever”, afirma.

Um dos alunos da professora Nelma é Wilson Cumbe, de oito anos, que já aprendeu a escrever o abecedário, contar e somar. O pequeno disse ao “Notícias” que quer ser engenheiro.

“Eu gosto de estar aqui na escola a aprender. Venho todos os dias que tenho aulas. Meu sonho é ser engenheiro. Até agora já sei escrever e estou a treinar a caligrafia”, explica Wilson.

Já Alita Cuambe, aluna da 6.ª classe, diz que tem interesse nas Ciências Naturais e sonha em ser médica, para ajudar a promover os direitos sexuais e reprodutivos, apoiando os jovens a tomar decisões conscientes sobre a sexualidade.

“Na aula de Ciências Naturais aprendi sobre os direitos sexuais e quero ajudar os adolescentes na tomada de decisão sobre o melhor momento para se tornarem sexualmente activos, por isso quero ser médica”, conta.

“Ajustámo-nos para continuar a leccionar”

A APROVAÇÃO, pelo Governo, das medidas para conter a propagação da Covid-19 obrigou o sector da Educação e Desenvolvimento Humano a ajustar-se para assegurar a continuidade do processo de ensino e aprendizagem.

Para os ensinos primário e secundário, as apostas foram fichas de exercícios, rádio e televisão.

Adélia Massicame conta que os docentes que leccionam nas escolas da vila-sede de Magude foram escalados para ministrar aulas na rádio comunitária local.

“Para alguns docentes, a interrupção das aulas não foi na totalidade. Tinham de estar na rádio para dar aulas aos alunos. Pensamos que este modelo teve bons resultados, porque conseguimos alcançar aproveitamento satisfatório”, afirmou.

Só que este modelo de ensino, segundo a directora do SDJET, só alcançou os alunos que vivem na vila-sede, uma vez que a emissão da rádio comunitária não chega aos postos administrativos de Mapulanguene, Mahele, Motaze e Panjane.

“Infelizmente não são todas as crianças que foram alcançadas pela rádio comunitária e para elas os professores recorriam a fichas e exercícios de aplicação para que não perdessem o ano lectivo”, acrescentou.

Referiu que a Covid-19 trouxe nova realidade no sistema de ensino e, a nível do Governo, várias foram as acções desenvolvidas para que as comunidades aprendessem a viver com a pandemia.

Explicou que dezenas de crianças desistiram ao longo do ano passado e uma rapariga foi resgatada de uma união prematura, tendo sido matriculada na escola secundária e apoiada em material escolar.

“Acabámos não considerando desistência porque, devido à pandemia, alguns pais e encarregados de educação tiveram o receio de levar as crianças à escola. Por isso, levou algum tempo para (as crianças) retomarem à escola”, explicou.

Conta que com apoio dos parceiros locais foi possível angariar mais de 25 mil máscaras que foram distribuídas para os alunos de famílias mais carenciadas, para de barras de sabão e álcool para desinfecção das mãos.

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ANA RITA TENE
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