Falta de água: o drama dos deslocados em Matemo

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JONAS WAZIR

UMA fonte de água para mais de 3000 pessoas. Esta é a realidade de Palussança, na Ilha de Matemo. A falta de água potável na zona é algo novo nesta ilha do arquipélago das Quirimbas, província de Cabo Delgado, resultado de vários factores combinados – aumento demográfico devido ao terrorismo, desastres naturais e, possivelmente, mudanças climáticas.

A presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) visitou recentemente a ilha de Matemo, com objectivo de se inteirar da situação de assistência humanitária de milhares de pessoas, vítimas das acções de grupos terroristas, que desde 2017 assolam a província de Cabo Delgado.

Na ilha, Luísa Meque viu as condições dos deslocados que vivem na aldeia de Palussança e disse ter saído com a impressão de que, apesar dos desafios existentes, relacionados com a escassez de alimentos, material de construção, entre outros, as pessoas estão a reerguer-se. 

Meque reconheceu que o problema da falta de água, apresentado com maior insistência pelos deslocados, deve merecer atenção especial e urgente.

“Vamos levar a questão às entidades ligadas ao assunto, para sua solução. Estamos ciente que o problema é deveras preocupante”, destacou a presidente do INGD.

Vivem em Palussança pouco mais de 3000 deslocados, idos dos distritos de Macomia, Mocímboa da Praia, Palma e Quissanga.

A falta de água para consumo e higiene pode degenerar em problema de saúde pública, devido à exposição de pessoas às doenças de origem hídrica e da pele, admitem as autoridades.

Segundo constatou a nossa Reportagem, a aldeia de Palussança conta com uma única fonte de abastecimento de água, situada a 15 quilómetros.

Alguns residentes, contaram ao “Noticias” que  são obrigadas a passar horas e dias sem beber e tomar banho, devido à falta de água.

Trata-se de um cenário desolador, que segundo Sualehe Assumane, morador da aldeia, que se tornou mais grave a partir  Maio/Junho deste ano.

Nesse período, explica Assumane, Palussança registou a chegada de muita gente, principalmente mulheres e crianças, desidratadas pelos longos dias de viagem no alto mar, em embarcações sem mínimas condições de segurança. 

“A expectativa destas pessoas era encontrar terra firme, água e comida. Alguns perderam a vida, falo de crianças em número que não posso precisar neste momento”, lamentou Assumane.

“UMA REALIDADE NOVA”

Amina Chadre, deslocada proveniente de Mocímboa da Praia, contou que para conseguir água é obrigada a sair de casa muito cedo, quase de madrugada.

“Saio geralmente às 4.00 horas para chegar ao poço às 8.00horas. Mesmo chegando cedo, não é fácil conseguir a água, porque há muita gente a precisar do precioso líquido”, contou.

Porque a qualidade da água não é boa, são frequentes dores de barriga e diarreias, principalmente em crianças.

Entretanto, no meio do sofrimento,  Safia Assane, viúva, cujo marido foi morto pelos terroristas aquando do ataque em Março deste ano à vila de Palma, mãe de três filhos, encontrou uma oportunidade para ganhar algum dinheiro, vendendo água.

“Saio para o poço às 4.00 horas. A água que consigo, vendo-a ao preço de cinco meticais a garrafinha de meio litro e tenho sempre clientes. Esta é a forma que encontrei para sustentar os meus filhos”, explicou Safia.

Admitiu não ser fácil sobreviver em Palussança. Para conseguir água para o consumo e venda é obrigada a perder sono e noites.

 “Às vezes sou forçada a pernoitar lá no poço para conseguir 50 litros de água”, disse.

A crise de água na ilha de Matemo, segundo informações de alguns nativos, é uma realidade nova.

Abdul Cadre nasceu e cresceu em Matemo. Disse até há uns anos era possível obter água a uma profundidade de cerca de dois metros, algo que hoje é quase impossível.

“Não sei a que se deve, mas quando dizem que as mudanças climáticas estão a criar problemas, é preciso acreditar. Não tínhamos falta de água na zona”, contou.

Antes, o problema de falta de água em Matemo era minimizado por meio de cisternas construidas por algumas famílias que tinham casas cobertas de chapas de zinco.

 “O ciclone Kenneth (2019) destruiu muitas casas  e consequentemente, ficamos sem alimentar as cisternas”, disse Cadre.

O sector de saúde atento

O DIRECTOR de Saúde, no distrito de Ibo, Zandine Abudo, garantiu, ao “Notícias” que o sector está atento ao problema de falta de  água na aldeia de Palussança.

De acordo com Abudo, depois do registo de surtos de diarreias, foi lançada, em 2020, uma campanha de vacinação preventiva, e simultaneamente outra de tratamento regular da única fonte de água e sensibilização das comunidades sobre as boas práticas de higiene pessoal e colectiva.

Devido à mobilidade da população das ilhas e à degradação das condições higiénicas, foram registados no distrito, 446 casos cumulativos de cólera – de 2020 ao princípio do segundo semestre de 2021, altura em que a província foi declarada livre da doença, que resultou em 22 óbitos.

Em carteira a construção de mais cisternas

SEGUNDO o administrador do Ibo, para ter acesso ao lençol freático, é preciso escavar cada vez mais fundo, sem contudo precisar a distância.

De acordo com Tarmomade, para além de Palussança, a única fonte de água existente abastece igualmente as comunidades de  Muanancombo, Ngamba e Rieculo, para além da sede da localidade de Matemo.

“O governo do distrito, com apoio de parceiros, como a organização não- governamental Oikos, tem em carteira um projecto de abastecimento de água à Matemo. O mesmo não foi ainda operacionalizado devido à situação de insegurança”, explicou.

O projecto em carteira, compreende a construção de cisternas, abastecidas à base da água da chuva.

Por que os deslocados escolheram Matemo?

MAIOR parte dos deslocados, que fogem dos ataques terroristas nos distritos costeiros do norte de Cabo Delgado, teve como destino a Ilha de Matemo, no distrito de Ibo.

Questionado acerca desta “escolha”, o administrador do Ibo, Issa Tarmomade, explicou que por razões de segurança, o trânsito ficou interrompido em muitas estradas da região de Cabo Delgado devido às acções terroristas.

Assim, “a única forma de chegar aos locais seguros, era por via marítima e Matemo acabou sendo o destino de  muitos, porque fica a meio caminho entre norte e sul da província”, disse Tarmomade..

“E Palussança servia de ponto de descanso, depois de longas horas, senão dias, de viagem. Alguns ficaram aqui e outros passaram para outros pontos”, explicou.

De acordo com o administrador, Ibo acolhe, actualmente, cerca de 35 mil pessoas dos distritos assolados pelo terrorismo, incluindo o vizinho Quissanga.

“Temos gente que veio de Mucojo, Darumba, Pangane, Olumbwa, Naunde, Quirimizi, Guludo, Inguani, Pequewe, Nagulue, Namanequa, e outros, isso no distrito de Macomia. Para o caso de Palma, a última vaga veio da zona continental do distrito, mas também da insular, como Vamizi, Mitumbizi. Portanto, neste momento, as nossas ilhas incluindo Mefunfu e Quissiwi transformaram-se em centros de acolhimento”, referiu Tarmomade.

O arquipélago das Quirimbas é constituído por cerca de 50 ilhas dispostas aproximadamente na direcção norte-sul, entre a foz do rio Rovuma – fronteira natural entre Moçambique e a Tanzania – e a  baía de Quissanga, cerca de 20 quilómetros a norte de Pemba.

Uma das ilhas leva o nome de Quirimba, mas a maior e mais populosa é a do Ibo, vizinha a anterior, que chegou a ser capital de Cabo Delgado. Onze ilhas do arquipélago fazem parte do Parque Nacional das Quirimbas, que abrange seis distritos da província, nomeadamente, Ibo, Quissanga, Macomia, Metuge, Meluco e Ancuabe.

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