Palmeira: uma localidade de barro!

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A OLARIA resume o quotidiano de muitos cidadãos da localidade de Mwamatibyana, popularmente conhecida por Palmeira, no distrito da Manhiça, província de Maputo.

Na localidade, do Posto Administrativo 3 de Fevereiro, a 100 quilómetros a Norte da capital do país, muitas pessoas se dedicam ao fabrico e, principalmente, venda de produtos artesanais diversos cuja matéria-prima é o barro.

Estas peças complementam a beleza da paisagem apreciada por aqueles que usam a Estrada Nacional Número Um (EN1) para chegar a diferentes pontos do país. A via, que atravessa Palmeira, é igualmente usada por estes vendedores, bastante preocupados em satisfazer cada vez mais os seus clientes.

São, por isso, viajantes e entram sempre em diversas aventuras nas províncias de Gaza e Inhambane à procura de materiais feitos com barro diferente e mais resistentes. “Vamos para lá porque não temos este tipo de barro nas proximidades”, justificam-se.

As obras feitas pelas mãos de oleiros locais são de argila encontrada no vale do Incomáti, em cujas bermas estão implantados os fornos, também possíveis de ver ao longo da EN1, onde são cozidas peças.

Fabricam e vendem produtos como potes, cofres, panelas, cântaros, alguidares e vasos, e, com o mesmo material, fazem “nascer” o tijolo, permitindo que Palmeira respire, cada vez mais, esta arte, pois as casas, na sua maioria, são construídas com base neste material.

Em quase toda a localidade, ao longo da EN1, é possível apreciar o melhor da olaria local, embora haja lugares de destaque, como é o caso do mercado informal localizado junto do monumento à perecida centenária palmeira que está na origem do nome popular da localidade.

O espaço também acolhe artesanato da cestaria, como esteiras, peneiras e cestos, embora seja importante frisar que a olaria ocupa um lugar especial.

“Temos todo tipo de material feito de barro”, destacam os feirantes.

Os comerciantes disseram ao “Notícias” numa visita recente ao local não saber precisar quando os primeiros vendedores ali se instalaram. Contaram, entretanto, que os fundadores terão aparecido nos anos 1990. Na altura ali estava instalado o já transferido Mercado 7 de Abril.

Por seu turno, Luís de Sousa, um dos residentes mais antigos de Palmeira e responsável pela Fábrica de Descasque de Arroz Inácio Sousa, afirmou que os vendedores de materiais de olaria terão chegado no princípio do ano 2000.

A pandemia atraiu outros clientes!

QUASE todos os produtos aqui expostos têm venda, conforme explicaram os empreendedores. Por isso não há espaço para debater preferências.

“Há pessoas que compram coisas pintadas, porque gostam de cores, e há os que preferem o contrário, por isso tudo aqui tem movimento”, comentam.

O preço mais baixo pago por uma peça, numa secção, é 100,00 meticais, sendo que 600,00 é o mais elevado. Noutro bloco, onde estão à venda produtos relativamente mais caros e resistentes, um produto pode custar até 1500,00 meticais. Ainda assim, não é difícil adivinhar a preferência do consumidor.

“O cliente sempre compra o mais barato”, ironizou Artur Cumbane, feirante desde o princípio do ano 2000 e cuja satisfação aumentou, nos últimos dias, depois de perceber que, com o tempo, nascem novos fregueses.

“Antes os estrangeiros compravam mais, mas agora também contamos com os moçambicanos e dependemos deles”, frisou.

Esta é, pelo menos, a nova tendência, desde a eclosão da Covid-19 no país, doença que nalgum momento levou o Governo a encerrar as fronteiras. Agora, afiançam, “com a pandemia passamos um mês sem turistas” e “às vezes há dias em que nem sequer um cliente (nacional) temos. Está difícil”.

A maioria dos feirantes conhece a arte e a pratica, mas para não se espalharem decidiram se focar na venda. 

“Temos a capacidade, mas o tempo não nos permite. A vantagem é darmos espaço para as pessoas fabricarem e nós pagamos logo”, justifica Artur Cumbane.

A clientela “trouxe” novas obras

A CAPACIDADE de inovação dos fabricantes é o segredo para o constante crescimento do mercado informal. Conseguem responder às exigências da clientela, que sempre propõe novas obras por meio de encomendas.

Os modelos sugeridos pelo consumidor são posteriormente colocados à venda nesta feira com vista a atrair mais curiosos e amantes de olaria bem como tornar o espaço cada vez mais diverso.

“Quando alguém faz uma encomenda nós vamos atrás dos fabricantes e procuramos saber se conseguem atender o pedido. Quando o outro cliente passa, vê e gosta, então mandamos fazer mais e, logo, os clientes vão aumentando”, referiu.

Os compradores, comentou, encomendam, em muitos casos, modelos vistos na Internet ou em viagens pelo exterior. Entretanto, não os acham em nenhuma parte do país.

“Quase todos os tipos que estão aqui foram primeiramente implementados na Índia”, exemplificou.

Alguns consumidores, estrangeiros, por exemplo, querem os recipientes dos seus países, tanto que antes só “vendíamos o vaso natural, muito simples”.

Pelo menos um alpendre…

OS feirantes reclamam por boas condições de trabalho e acreditam que as coisas podem ser melhoradas nesta feira de artesanato. O principal pedido é que ali se monte um alpendre para a protecção das peças, dos vendedores e dos compradores, que estão hoje a céu aberto e entregues às vontades do tempo. 

Melhorar as condições deste lugar seria, na sua opinião, uma forma de o Governo local reconhecer o papel de todos os que ali realizam as suas actividades para o desenvolvimento económico da povoação.

Pagam 12,00 meticais diários por banca, incluindo aos fins-de-semana e feriados. “Mesmo com chuva, ele (o cobrador das taxas) há de vir… não falha!”, ironizou Cumbane. 

“Pagamos ‘bilhetes’ aqui, o que significa que se tivermos dificuldades podemos reclamar porque estes produtos podem partir-se com um vendaval”, comentou.

Também referem que necessitam de mais segurança e de pelo menos um sanitário. “Quando o cliente chega e quer satisfazer as suas necessidades biológicas tem de se arranjar”, acrescentou, explicando que ali havia casas de banho, mas porque eram de caniço não duraram.

“Vamos montar novamente”, garantiu. 

Estão, a propósito, num espaço da Inácio de Sousa, concedido por Luís de Sousa “com muito gosto” para os incentivar, pois “se ficassem em casa poderiam ter más ideias e até pensar em roubar as coisas dele”, admitiu.

Salientam haver uma espécie de troca de favores.

“Ele também se sente protegido por ver que há aqui pessoas e ninguém pode invadir a sua casa de qualquer maneira”, brincaram.

Onde há vasos, há plantas!

JÁ que não se pode falar de vasos sem plantas, neste mercado nem todos vendem  peças de olaria. Há quem comercialize plantas artificiais que, embora o seu fundamento esteja no solo, a sua forma final resulta da imaginação de quem as trabalha.

Fazem e vendem-as prontamente. Carlos Tsucana está nesta actividade há oito anos.

Quase todos os dias Tsucana faz de uma casa abandonada o seu atelier. Diferente dos vendedores de olaria, diz que a Covid-19 veio atrapalhar, em grande medida, o seu negócio, pois o volume de vendas reduziu.

Entretanto, como os seus colegas, refere que o lado bom do novo coronavírus está no facto de com o “desaparecimento” dos turistas estrangeiros terem “aparecido” moçambicanos. 

“Agora os estrangeiros compram menos”, afirmou.

Entretanto, ainda que timidamente, a venda de cestos e esteiras, conforme acima avançado, faz a berma da EN1 na Palmeira, cuja matéria-prima, palha e caniço, é achada no próprio distrito da Manhiça.

As malas de palha são o exemplo da diversa utilidade destes materiais. Afinal servem para a “ornamentação e para meter a roupa dos antepassados”, explicou o vendedor Alfredo Cossa.

Lucas Muaga
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