PESQUISADOR FERNANDO MITANO E A LEPRA EM NAMPULA: Constrangimento está na detecção tardia da doença

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NAMPULA é hoje considerada a região com maior índice endémico da lepra (hanseníase ou doença de Hansen), no país. Para reverter este cenário, as autoridades sanitárias têm desenvolvido acções visando promover a prevenção e combate à doença. Aliás, algumas organizações não-governamentais, sobretudo estrangeiras, têm vindo a implementar algumas iniciativas para contribuir para a eliminação da enfermidade. Em conversa recente com o “notícias”, o director provincial da Saúde de Nampula, Fernando Mitano, revelou a tendência de agravamento da situação, devido, em parte, à falta da tomada de consciência por parte dos pacientes, sobre a necessidade da prevenção, dirigindo-se às unidades sanitárias para o diagnóstico e tratamento. Segundo Mitano, muitos doentes só se dirigem aos hospitais quando já apresentam deformidades físicas irreversíveis. Os esforços continuam para que um dia Nampula, em particular,  e o país, em geral, possam estar livres da doença.  

NOTÍCIAS (NOT.) – Há dois anos, falava-se que a lepra tinha sido quase eliminada na província de Nampula. Mas temos relatos que os números estão a subir…

FERNANDO MITANO (FM) – A situação da lepra na província de Nampula é ainda muito preocupante. Continuamos a notificar casos da doença. A lepra afecta todos os distritos da nossa província, porém, três distritos destacam-se, nomeadamente, Mogovolas, Murrupula e Meconta. Destes três, Mogovolas é o mais crítico. Para ilustrar quão grave é a situação da lepra em Nampula, no primeiro semestre do presente ano foram registados 456 casos, contra 410 notificados em igual período do ano passado. É um número muito elevado e o que mais preocupa é que estamos a notificar a doença em crianças. Temos oito casos (de menores) no distrito de Mogovolas. Aliás, dos 456 casos, 134 foram registados neste, contra 68 do ano passado, o que demonstra a sua evolução rápida.

NOT. – Qual é então o índice de prevalência da lepra na província?

FM – Como me referi, a doença afecta toda a província de Nampula, é preciso que as pessoas saibam isso, por isso, o combate está a ser feito de forma abrangente, com vista a baixar as infecções. Em relação à taxa de prevalência, temos uma incidência em crianças situada em 3,8 por cento, enquanto a global é de cerca 10 por cento.

Existem todas as condições necessárias para a execução desta pesquisa inédita de prevenção e combate à lepra

NOT. – O que está a ser feito com os casos identificados, os 456 notificados do primeiro semestre?

F.M. – Um dos trabalhos que o Governo provincial está a fazer, por estar preocupadíssimo com o aumento dos casos da lepra, é intensificar o tratamento gratuito. Isto é, estes casos estão a merecer um tratamento adequado e em todas as 240 unidades sanitárias da província de Nampula existem serviços de atendimento à lepra, com medicamentos suficientes para todos os doentes. Mesmo a mais pequena unidade sanitária tem um técnico, muito bem qualificado, para atender estes doentes.

NOT. – No âmbito dos esforços de mitigação da lepra na província de Nampula, foi lançado recentemente um projecto de estudo da doença, denominado “profilaxia pósexposição para a lepra-PEP4LEP”. O que é isto?

F.M. – É uma pesquisa assente, essencialmente, na análise de duas intervenções, no âmbito da prevenção e combate à lepra. A primeira será feita ao nível das comunidades e outra nas unidades sanitárias, com um período de duração de três anos, nos três distritos mais afectados. Pode-se falar desta pesquisa em muitas vertentes, incluindo pormenores técnicos e sanitários. Mas, sublinho, na essência pretende-se saber ou apurar é se a melhor forma de intervenção na prevenção e combate à doença é nas comunidades ou nas unidades sanitárias. É um ensaio de implementação médica sobre triagem cutânea e administração de rifampicina como profilaxia. É um projecto do qual sou o principal pesquisador, e decorre também, além de Moçambique, na Tanzânia e Etiópia, países experientes na prevenção e combate à lepra.

NOT. – Mas quais são os resultados concretos que se esperam?

F.M. – Com este projecto esperamos validar e melhorar a profilaxia da lepra. A partir das conclusões que tivermos, podem-se traçar políticas de combate à doença, por exemplo, implementando campanhas massivas dessa luta. Durante os três anos de pesquisa esperamos que nos três distritos, um total de 225 pacientes identificados recebam tratamento e 30 mil pessoas que terão tido contactos directos com esses doentes recebam uma dose única de rifanmpicina, reduzindo assim o risco de desenvolverem a lepra.

NOT. – Existem condições para implementar o programa e atingir os objectivos pretendidos?

F.M. – Sim, temos as condições necessárias, com destaque para técnicos de medicina e médicos dermatologistas qualificados. Contamos também com uma tecnologia, através da qual se pode saber ou identificar se a pessoa tem ou não lepra além de pesquisadores que a Universidade Lúrio vai garantir. Portanto, temos estas e outras condições necessárias para a execução desta iniciativa inédita de prevenção e combate à lepra na província de Nampula.

NOT. – Para além deste projecto, quais são as outras acções em curso tendo em vista, sobretudo, a prevenção e combate à lepra?

F.M. – Temos actividades em desenvolvimento na província, quer nas comunidades, quer nas nossas unidades sanitárias. Por exemplo, no distrito de Mogovolas temos um programa em implementação a que chamamos “auto-ajuda”, em que grupos de pessoas curadas da lepra servem de guia para as outras afectadas pela doença, ensinando e sensibilizando sobre as regras elementares de higiene. Por outro lado, fazemos mobilizações nas comunidades, no sentido de elas identificarem casos de lepra para posterior envio às unidades sanitárias. Ao nível das nossas unidades sanitárias, temos técnicos preparados para lidar com a enfermidade, temos também áreas de identificação de pessoas com lepra. Caso se confirme elas iniciam imediatamente o tratamento.

O maior problema não é adesão ao tratamento, é sim, a chegada tardia do doente a uma unidade sanitária

NOT. – Qual é o nível de adesão dos doentes ao tratamento?

F.M. – Existe adesão, contudo, devo explicar que a lepra é uma doença estigmatizada. Em princípio não é tão fácil os doentes de lepra seguirem um tratamento longo como pacientes de outras enfermidades. Tem sido difícil as pessoas se convencerem e irem à unidade sanitária para serem tratadas. Para inverter esse cenário ou chamar muitos doentes a aderirem ao tratamento, temos activistas que sensibilizam e aconselham as pessoas a seguirem o tratamento nas unidades sanitárias. Aliás, para evitar a fuga ao tratamento, criámos um mecanismo de busca activa nos locais de residência, acompanhado, claro, da sensibilização para a necessidade da medicação. Devo destacar que o maior problema em Nampula não é a adesão ao tratamento, é, sim, a detecção tardia dos casos da enfermidade. Este é que o maior constrangimento que encontramos. Os casos não são detectados cedo, mesmo tendo condições para o efeito, isso porque a maior parte das pessoas vai à unidade sanitária quando já têm deformações físicas irreversíveis. Mesmo com as campanhas de sensibilização para a necessidade de as pessoas logo que tiverem uma mancha na pele se dirigirem, de forma urgente, a um hospital mais próximo para o diagnóstico, as comunidades preferem esconder os doentes de lepra.

NOT. – Como o sector da saúde, particularmente, em Nampula, tem estado a lidar com a questão da estigmatização dos doentes de lepra?  

F.M. – O tratamento da lepra, quando é feito o mais cedo possível, é de extrema importância para evitar as deformações. São as deformações que criam a estigmatização, exclusão social e falta de convívio familiar. Há situações gritantes de exclusão, em que filhos se recusam a conviver com os pais por terem contraído a lepra. Assim, para além de informar as pessoas que a melhor forma de evitar as deformidades físicas é ir a unidade sanitária quanto antes, os nossos activistas têm sensibilizado as comunidades para a necessidade apoiarem seus parentes, aconselhando-os a ir aos centros de saúde.    

NOT – Qual é impacto da pandemia do novo coronavírus nas actividades de prevenção e combate à lepra?

FM – O impacto é negativo, tendo em conta, por exemplo, que influenciou sobremaneira na redução da detecção dos casos da lepra na província. As brigadas do sector de saúde foram e estão a ir poucas vezes nas comunidades para campanhas de detecção. Isso não é bom pois, prejudica os esforços empreendidos nesta  luta. Antes da Covi-19, conseguíamos, através das nossas campanhas, detectar mais casos da lepra e acredito que dados dos casos notificados no primeiro semestre deste ano seriam muito mais.

NOT – Tal como as outras doenças infecciosas, as acções de combate envolvem custos financeiros. Como é o caso lepra?

FM – Um dos nossos principais parceiros neste duro combate, especialmente desta pesquisa, é a NLR (No Leprosy Remains), uma organização não-governamental internacional, que luta contra a lepra. Esta organização está também envolvida no financiamento e gestão da nossa pesquisa, através dos fundos da União Europeia e tem feito igualmente pesquisas na área da lepra ao nível nacional e internacional.

NOT – Que ganhos a província de Nampula já teve ao longo destes anos na luta contra a lepra?

FM – Embora este ano ainda não tenha terminado para fazermos um balanço global comparativo e definitivo, em relação aos ganhos e outras situações, o certo é que, segundo os indicadores de 2018 e 2019 dão nos registos de 1.275 e 1.120 novos casos, 11,1 e 9,4 por cento dos quais, em crianças, respectivamente. Em 2020, o número baixou para 881, com 9,4 por cento em crianças. Em 2019 a taxa de deformidade por cada milhão de habitantes, era de 30,5 por cento, contra 21,2 por cento, em 2020. Em 2019 a taxa de detecção por cada 100 mil habitantes era de 19 por cento, e em 2020 reduziu para 14, 2 por cento. Em 2019, a taxa de prevalência em cada 10 mil habitantes era 2,9 por cento, em 2020, reduziu para 1,9. Portanto, há muita oscilação em termos de ganhos. Por isso,  prevemos que este ano possa ser um dos piores, quando comparado com os anteriores. Vejamos que só no primeiro semestre registamos 456 casos.

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