REVÚBUÈ: Um rio vital para a comunidade

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BERNARDO CARLOS E DALTON SITOE

MUITAS vezes vemos imagens e vídeos a circularem nas redes sociais. Umas vezes eles dão a informação completa, outras mostram apenas um lado da história e fica todo um contexto fora do alcance de quem está a ver a fotografia ou o filme. É o caso da praia fluvial do Revúbuè, em Tete.

Na província de Tete, como em quase todos pontos do país atravessadas por cursos de água, o papel dos rios vai além de locais de lazer e refúgios em dias de altas temperaturas, que caracterizam esta região do país. Diariamente, antes do sol nascer, por exemplo, mulheres, na companhia de crianças, descem para o Revúbuè, com enormes bacias de roupa e loiça por lavar.

Dependendo da temperatura, há dias que é preciso formar fila, pois existem zonas com rochas, onde é mais prático lavar a roupa. A lavagem da loiça acontece noutro ponto da margem, e a maioria dos que lá vão são crianças.

Terminada a lavagem da roupa e loiça, por volta das 8:00 horas, muitas das mulheres e crianças preferem fazer o banho matinal no local, mas umas acartam água em baldes para irem tomar em casa.

“Nasci perto do rio e sempre frequentei este lugar para lavar a roupa, loiça, tomar banho e acartar água. Na minha casa não temos água canalizada, dependo do rio para muitas coisas”, explicou Musta Albano Vale.

Depois de lavar a roupa, as mulheres carregam na cabeça as bacias com roupa molhada para as ir estender em casa.

A residente nativa Elsa da Costa revelou que a água que lavem para casa geralmente não usam para beber, mas para diversas outras necessidades domésticas, incluindo lavagem e confecção de alimentos. Para beber, compram 10 meticais por bidão.

Mas há casas que só têm a água do rio para beber.  E os que a consomem afirmaram que nunca tiveram complicações de saúde. “Se calhar alguém que leva uma vida abastada consumindo esta água pode ficar doente, mas nós não”, afirma Musta Vale.

“Na época chuvosa, o caudal aumenta e a água fica meio suja (turva). Quando é assim, enchemos os baldes e esperamos a sujidade ir para o fundo do recipiente. Em seguida colocamos a parte limpa noutro recipiente”, diz Musta, explicando o aproveitamento da água do rio por decantação.

Se muitas mulheres preferem ir ao rio logo ao amanhecer, há as que vão ao entardecer ou mesmo após o pôr do sol. “Quando ainda éramos mais novas, descíamos para cá à noite para tomar banho e depois irmos passear. Apesar de termos perdido o hábito de sair à noite, ainda usamos o rio para tomar o último banho do dia”, revelou Elsa da Costa.

Uma fonte de renda para jovens

Noutra margem do rio, em leito de estiagem, um pouco distante do local onde acontece a lavagem da loiça e roupa, estão jovens que logo pela madrugada se fazem ao Revúbuè com baldes para tirar areia branca para a venda.

A areia é usada para construção de casas. Como há muitas obras em andamento na região, o negócio tem mercado assegurado.

“Trabalhamos em grupos e estamos aqui por imperativos da vida. Vêm cá muitas camionetas comprar e depois de vendermos dividimos o valor”, explicou William João, membro de um dos três grupos que tiram areia do rio.

A nossa equipa de Reportagem soube que muitos jovens que ali trabalham fazem-no à revelia das suas famílias e parceiras, e, por conta disso, não querem ser fotografados. Aliás, houve, há um tempo, um jovem que foi espancado por ter feito vídeo deles.

Andando mais adiante pela margem do rio, é possível encontrar zonas esburacadas. Trata-se de áreas com terra argilosa, que outros jovens usam produzir tijolos de construção.

Comunidade pede tolerância da Polícia Municipal

Devido a vários desrespeitos das medidas de prevenção a Covid-19, nomeadamente, as aglomerações e a inobservância do distanciamento físico, praticados por alguns munícipes da autarquia da cidade de Tete, o Chefe do Estado, Filipe Nyusi, incluiu Revúbuè nas 18 praias fechadas em todo o país, facto que deixa a comunidade nativa preocupada com a actuação da Polícia Municipal.

“Antes mesmo de o Presidente falar, a Polícia Municipal veio impedir-nos de lavar aqui. Muitas de nós não tem água em casa. Se nos impedem de utilizar o rio para nossa sobrevivência, como viveremos?”, questionou Helena Faroso.

Considerando que o abastecimento de água potável não beneficia a todos munícipes da cidade de Tete, as mulheres que têm recorrido ao rio apelaram as autoridades municipais para serem tolerantes.

Autoridades municipais, em parceria com outras entidades governamentais, como a Direcção Provincial das Obras Públicas e Habitação e a empresa FIPAG (Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água), garantem que têm estado a trabalhar para aumentar a capacidade de provisão de água potável às comunidades próximas do Revúbuè bem com o Zambeze, dois que atravessam a cidade de Tete.

“Estamos preocupados com a situação e empenhados na procura de capacidade financeira ou investimento para a solução de carência de água na periferia da nossa cidade”, assegurou César de Carvalho, edil do Município da cidade de Tete.

Entretanto, para Helena Faroso, apesar dessa promessa das autoridades em canalizar água nos próximos tempos, o rio continuará a ser principal fonte de abastecimento de muitas famílias, porque não terão dinheiro para pagar regularmente as facturas.

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