SUPERAÇÃO PÓS-DESASTRE: Mulheres reinventam-se para geração de rendimentos

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NATÁLIA MIRANDA

EM meio a um ano castigado por perdas económicas, residências e outros bens, provocadas pelo ciclone Eloise, recordando outros eventos naturais similares cujos rastros ainda são visíveis, seria natural não esperar um balanço positivo de pessoas, sobretudo, de mulheres.

Contrariando todas expectativas, houve quem soube ajustar o sofrimento e encontrar novas oportunidades para geração de rendimentos e garantir a sua recuperação e sobrevivência.

A Reportagem do “Notícias” conversou com algumas mulheres do mercado Gorjão, na baixa da cidade da Beira, “sobreviventes” do Eloise e outro ciclones que antes  devastaram a capital provincial de Sofala, Idai e Chalane. Estas contaram o sofrimento que passaram e as perdas que tiveram durante a passagem das intempéries, bem como o que tiveram de fazer para superar e ultrapassar as situações.

Maria Madalena, por exemplo, vendedora de esculturas há mais de 10 anos naquele mercado, teve parte da sua casa destruída, perdeu seus bens.

Sua banca caiu e muitas esculturas quebraram-se. A destruição da sua principal fonte de renda, agravou a sua condição, deixando-a numa situação difícil, sem saber por onde começar para se reerguer.

Mãe de três filhos, Maria Madalena referiu que os primeiros momentos foram os mais difíceis para si e sua família, pois não tinham onde buscar ajuda. Toda gente viveu o  ciclone e enfrentava a mesma situação e cada um lidava com as suas próprias perdas.

Não lhe restavam muitas opções se não encontrar ideias para reverter o cenário que vivia.

A comerciante disse que uma das formas que encontrou foi instalar uma banca alternativa no quintal da sua casa para a venda de produtos de primeira necessidade, adquiridos com o único valor que lhe restava.

Também foi ao mercado e dos escombros da sua banca recolheu as esculturas quebradas. Remodelou-as e colocou-as a venda, desta vez, com muita ânsia de conseguir alguns valores.

Para sua sorte, segundo disse, após o ciclone muitos estrangeiros entraram na cidade da Beira e o seu negocio ganhou algum impulso.

Maria Madalena explicou que, com estes dois negócios, aos poucos tem conseguido reconstruir a parte da sua casa destruída pela tempestade ciclónica, assim como garantir o seu sustento.

Questionada se beneficiou de algum tipo de apoio para está superação, disse que “infelizmente” não recebeu nada. A sua recuperação foi graças ao seu esforço e dedicação.

Cecília Adriano, outra entrevistada, contou que sua casa, de construção precária, desabou durante a passagem do ciclone. Agradece não ter havido mortes. Na altura do incidente, encontrava-se com sua filha de três meses de vida e um menor de seis anos.

Teve ajuda de vizinhos, que cederam um anexo para viver. Ficou aqui por três meses. Período em que procurou e conseguiu reconstruir a sua residência.

Hoje, quase um ano depois do Eloise, Cecília Adriano e sua família vivem na cabana que construida com as chapas de zinco apanhadas na rua logo depois da tempestade, sem apoio de parentes ou do governo.

Para tentar superar as dificuldades, Cecília Adriano tornou-se vendedeira de frutas no mercado. Não tem sido fácil viver da venda, há muita concorrência pelo facto de existirem poucos clientes. Por isso, a sua recuperação têm sido lenta.

Por sua vez, Anita Charre, outra mulher que também viu a sua residência e banca destruídas aquando da passagem do ciclone Eloise, relembrou os momentos difíceis pelos quais passou e, como até hoje, não conseguiu superar as dificuldades impostas pela situação.

Contou que com a perda da casa e banca, onde vendia refeições, a sua vida deu uma verdadeira cambalhota. Passou por muitas necessidades, durante vários meses, e sem apoio de ninguém.

Revelou que após perder tudo, ficou sem dinheiro para dar continuidade ao seu negócio, por forma a garantir o sustento de seus netos órfãos, assim como reerguer a  casa.

Tornou-se então vendedeira ambulante de plásticos até juntar uma soma maior que a permitiu ingressar num outro negócio mais rentável.

“Ao fazer esse negocio sofria assédios na rua, os homens até zombavam de mim e perguntavam se não tinha marido que pudesse garantir o meu sustento. Mas não parei, continuei até alcançar o que queria”, afirmou.

Quando conseguiu o valor, tornou-se vendedeira de hortícolas e e outros produtos afins. É com isso que garante a sua sobrevivência e, aos poucos, está a reconstruir a sua residência.

Pandemia ameaça retroceder os avanços

As mulheres entrevistadas pelo  “Notícias” apontaram que a pandemia de Covid-19 agrava a sua situação de vulnerabilidade e ameaça atrasar os avanços conseguidos na recuperação pós-ciclone.

Luísa Armando, com banca no mercado Gorjão,  disse que desde a eclosão do novo coronavírus reduziu bastante a afluência de clientes, e consequentemente baixou a receita dos vendedores.

Explicou que para conseguir vender seus produtos, as pessoas viram-se obrigadas a traçar novas estratégias, como venda porta-à-porta, contrato com clientes e entre outras formas, de modo a garantir a continuidade dos seus projectos de recuperação.

Rosa António, outra vendedeira, lamentou o facto de estar a ver o seu negócio ruir, devido à pandemia de Covid-19, e temer que não consiga encontrar outras formas ou oportunidades de gerar renda e se recuperar dos estragos causados pelo ciclone.

Também Maria Madalena admite que a Covid-19 veio travar os esforços de muitas  mulheres para se livrarem dos rastos deixados pelos vários desastres naturais que atingiram a cidade nos últimos dois  anos.

Explicou que actualmente é impossível vender e comprar como antes, pelo facto de os preços terem subido e não permitir que pessoas com poucas condições continuem com suas actividades.

A vendedora de esculturas teve de criar novas estratégias que pudessem dar uma maior visibilidade ao seu negócio, nestes tempos de pandemia. Uma delas foi expor suas esculturas nas redes sociais e em outras plataformas digitais.

Referiu que esta opção deu um impulso nos seus ganhos, contribuindo para o alcance das suas metas na recuperação pós-desastre.

Maria Madalena spera que nos próximos meses a situação melhore e permita que mais mulheres dê um outro rumo às suas vidas e alcancem todos os objectivos que almejam.

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