UNGULANI BA KA KHOSA: Um historiador e geógrafo nato!

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LUCAS MUAGA

“UALALAPI”, o livro mais celebrado do escritor Ungulani Ba Ka Khosa, o homenageado da sétima edição da Feira do Livro de Maputo, pelos seus 34 anos de carreira literária, caracteriza em grande medida aquilo que o autor é na sua essência: um homem “obcecado” pela história e geografia.

Embora este romance seja um dos objectos mais estudados da sua vasta obra e da literatura moçambicana, da língua portuguesa e não só, a característica acima mencionada é visível em quase todas as suas publicações. Nelas procura fazer, até onde pode, uma radiografia geral do espaço geográfico no qual as narrativas são desenvolvidas, sem ignorar o facto delas serem inspiradas nos acontecimentos da vida real.

É assim que nasceu o homem do romance e conto históricos. “Ualalapi”, por exemplo, conduz o leitor à vida “Nos Tempos de Gungunhana”, como sugere um monólogo do actor moçambicano radicado em Portugal, Klemente Tsamba que, inspirado neste clássico da literatura africana, apresentou Ungulani Ba Ka Khosa aos amantes do teatro de diversas partes do globo.     

Esta sua obsessão pela história e geografia, aplicada à literatura, pode ter uma explicação baseada nas experiências individuais do escritor que nunca foi um homem de fazer toda uma vida num determinado lugar. É que os seus anseios e circunstâncias quotidianas transformaram-no num “nómada”. Isto leva, diga-se, a recuar até ao princípio da fundação das sociedades bantu, assunto que muito gosta de abordar, em que as comunidades deslocavam-se de um lugar para o outro, por razões diversas, entre as quais a procura de melhores terra para a prática de agricultura e conflitos entre tribos.

Este “nomadismo” tem o seu início ainda na adolescência. Como todos os Homens, o seu grande movimento aconteceu quando nasceu na meia-noite do dia 1 de Agosto de 1957, em Inhaminga, província de Sofala, onde viveu até aos 11 anos. À sua terra natal, mais tarde, dedicou um livro: “Cartas de Inhaminga”.  

Quando veio ao mundo, os pais decidiram que deveria ser baptizado como Francisco Esaú Cossa. Mal sabiam que, futuramente, seria como Ungulani Ba Ka Khosa que o filho conquistaria o mundo. Entre os 11 e 13 anos viveu na então cidade de Lourenço Marques, nome de Maputo no tempo em que Moçambique era uma província ultramarina de Portugal. Instalou-se no periférico bairro do Chamanculo, isto antes de se mudar de volta à região Centro do país, desta vez para a província da Zambézia. Ali concluiu o ensino secundário.

Depois da independência proclamada em 1975, o escritor voltou  a migrar, concretamente, em 1977. Foi chamado pelo governo do saudoso Samora Machel, o primeiro Presidente de Moçambique independente, para integrar o grupo de jovens da famosa “Geração 8 de Março” e emprestar o seu conhecimento em prol do país. Tinha na altura 20 anos.

Nesse período teve que regressar à cidade de Maputo com vista a frequentar o curso de ensino de História e Geografia na antiga Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Na sequência, em 1978, o Governo enviou-o para trabalhar na província do Niassa, onde leccionou Geografia na Escola Secundária Ngungunhane.

Esta movimentação quase constante fez com que Ungulani percorresse praticamente todo o país e interiorizasse tempos, espaços e etapas que, certamente, influenciam o estilo e a temática da sua vasta produção literária.

“Depois da Independência percorri quase todo este país e tive contacto com todas as nossas culturas”, disse.

Mais inclinado para a história e geografia, em “Ualalapi”, romance histórico com o qual se estreou em 1987, apresenta uma abordagem, estilo e narrativa profundas sobre o Império de Gaza (1821-1895), que fizeram este ser considerado um dos 100 melhores livros africanos do século passado, ou seja, como escritor estreou em grande.

Este fenómeno dá-se na década de 1980, altura em que participou na criação da emblemática revista “Charrua” com outras figuras relevantes no panorama literário nacional como Luís Bernardo Honwana, Armando Artur, Eduardo White, Tomás Vieira Mário, Juvenal Bucuane, Pedro Chissano, Filimone Meigos e Marcelo Panguana.

Com estes viria a fundar a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), instituição na qual exerceu o cargo de secretário-geral (2013-2018), antes do actual líder da agremiação, o escritor Carlos Paradona.

Um escritor inconformado!

UNGULANI é daqueles escritores que quanto mais inconformados, diante do estado das coisas, mais caminhos para a materialização de contos e romances se abrem, conforme aconteceu com “Ualalapi”.

A obra foi publicada em 1987 na cidade de Maputo, pouco tempo depois de regressar da província do Niassa, onde não tinha noção que foi nessa década transformado num campo de reeducação.

Numa conversa dinamizada pelos jornalistas Tomás Vieira Mário e José dos Remédios, no quadro da sétima Feira do Livro de Maputo, Ungulani referiu que, para escrever o clássico “Ualalapi” muito contou a sua experiência no Niassa, não como campo de reeducação, mas como um lugar onde se implantou a Escola Secundária Ngungunhane.

Intrigou-o o facto de a instituição onde leccionava carregar o nome de uma figura, que embora histórica, era desconhecida naquela parte da região norte do país, pelo menos nos anos 1980. “As pessoas não conheciam Ngungunhane, então porque não se colocava o nome de um herói local?”, questionou.  

Fora disso, as circunstâncias e a sua especialidade pelos textos históricos fizeram nascer , em 2005, “Sobreviventes da Noite”, obra na qual faz um retrato da guerra dos 16 anos, o uso de crianças soldado e outras pessoas que, conforme explicou Tomás Vieira Mário, não reúnem o discernimento suficiente para distinguir o bem e o mal. Com “Sobreviventes da Noite”, Ungulani Ba Ka Khosa viria a arrecadar o Prémio Literário José Craveirinha.

Estas duas obras servem de exemplo para compreender que alguns assuntos mal resolvidos do passado, que têm as suas consequências no presente e no futuro, influenciam a sua escrita. Aliás, este aspectos, na sua opinião, podem justificar males sociais como o terrorismo que, desde 2017, assola a província de Cabo Delgado. Por exemplo, o autor de “Histórias de Amor e Espanto” (1999) e “Choriro” (2009) diz acreditar que parte da situação vivida nesta região do país pode estar associada a problemas de ordem social e étnica, cuja solução mostra-se urgente.

O professor de história recordou ainda que, visando proclamar a unidade nacional, em 1977 “fez-se morrer a tribo para que nascesse a nação”. No entanto, hoje existe a compreensão de que é preciso celebrar a diversidade. “O país é diverso, temos que aceitar isso”, esclareceu.

Assim, não há como o escritor não defender uma maior expansão das línguas moçambicanas, até porque sem rodeios afirma que “a língua portuguesa é ainda estrangeira”.

Reinventor da humanidade!

COMO um historiador! É assim que Tomás Vieira Mário olha para Ungulani, que conheceu em 1970, na província do Niassa quando o jornalista trabalhava na Rádio Moçambique (RM) e o escritor era professor do ensino secundário, antes de juntos fundarem a histórica revista Charrua.

“Sempre o li com muito interesse. É um escritor com muito estilo e bastante preocupado com a história de Moçambique, desde a ocupação colonial que a retrata através da figura de Ngungunhane, nos livros ‘Ualalapi’ e ‘As Mulheres do Imperador’ (2018). Ungulani é um escritor fabuloso”, diz Vieira Mário.

Do colonialismo, prosseguiu, vai ao período que se seguiu à proclamação da Independência, relatando o martírio causado pela Guerra dos 16 anos, conforme nota-se em obras como “Sobreviventes da Noite” e “Memórias Silenciadas” (2013). “É profundamente moçambicano e africano preocupado com a nossa história contada de forma criativa”, comentou.

Por sua vez, o jornalista e crítico de literatura José dos Remédios descreve a obra de Ungulani como um conjunto de reencontros com vários aspectos da vida, história e espaços geográficos. “A partir de um universo diegético, que instaura na sua narrativa, conseguimos encontrar elementos que concorrem para a descoberta e reinvenção da nossa humanidade”, continuou.

Indo concretamente aos contos da obra “Orgia dos Loucos” (1990) recordou que eles conduzem o leitor à convivência com a tradição oral bantu originalmente moçambicana e mostra caminhos  decisivos para debater “o que são os vários Moçambique”. “É um autor importante porque não está alheio à sua realidade e à importância que o passado tem para as gerações vindouras”, constatou.

Considerou que Ungulani e sua obra são valorizados a nível nacional e internacionalmente e que a distinção na Feira do Livro de Maputo é apenas um exemplo.

“Se formos aos acervos bibliográficos e às universidades vamos encontrar vários estudos, um dos quais é o livro importante dedicado a Ungulani, escrito por Gilberto Matusse, por exemplo, cujo título é ‘A Concessão da Imagem de Moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa’, que faz estudos a algumas partes da obra “Orgia dos Loucos. Mas também há muitos estudiosos estrangeiros que estudam a obra de Ungulani”, disse o jornalista, falando ainda do excelente trabalho desenvolvido pelo professor e ensaísta Francisco Noa que muito se preocupa em estudar a sua obra.

Explica, ainda assim, que se pode fazer muito mais pela valorização deste prosador que conquistou o mundo, principalmente a nível político.

“Se a política compreendesse a importância de um autor como Ungulani provavelmente teríamos crianças no ensino primário e secundário a preocuparem-se cada vez mais em comprar livros e lê-los. Provavelmente não temos a sua maior dimensão”, rematou.

Entretanto, a vida e obras deste conceituado autor será retratada num documentário realizado por José Augusto Nhantumbo (Zegó), que para o efeito ganhou um financiamento na ordem de 1.200 mil meticais, proveniente do Concurso para Apoio e Financiamento à Actividade Audiovisual e Cinematográfica, organizado pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INIC).

Prémios e distinções

O CONSELHO Municipal de Maputo distinguiu Ungulani, dando-lhe prendas simbólicas e um cheque avaliado em 120 mil meticais, graças à sua vida e obra, bem como o seu contributo para o engrandecimento desta cidade além-fronteiras que o escritor assume amar a urbe que o acolheu desde a adolescência, sendo crucial na sua iniciação literária.

Por este e outros motivos, Ungulani, em 2003, foi homenageado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, em 2013, foi condecorado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, sendo que o reconhecimento mais recente remonta à 2018, quando foi laureado com a Ordem de Rio Branco, concedida pelo Brasil, por ocasião dos seus 30 anos de carreira literária.

“Homenagear Ungulani não é e nunca pode ser um fim. É um acto de justiça, incapaz de corresponder a tudo o que o escritor tem feito pelo povo”, elogiou-o Eneas Comiche, edil da cidade de Maputo.

Com uma caminhada repleta de sucessos, não podiam lhe faltar os galardões, afinal Ungulani é detentor dos prémios José Craveirinha 2018, pelo conjunto da sua obra, e 2005, com “Sobreviventes da Noite”; BCI de Literatura 2013, com a obra “Entre as Memórias Silenciadas”; Nacional de Ficção 1994 e Grande Prémio de Ficção Narrativa 1990.

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