12.4 C
Maputo
Sexta-feira, 1 - Julho, 2022

PAULINA CHIZIANE: Uma homenagem e recados para a juventude

+ Recentes

PRETILÉRIO MATSINHE

A ESCRITORA Paulina Chiziane foi homenageada há dias por diversas entidades privadas e públicas em reconhecimento ao seu trabalho literário, que lhe valeu o prestigiado Prémio Camões, atribuído em Outubro deste ano.

O acto, que teve lugar na cidade de Maputo, foi organizado pelas associações dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Bela Arte e ainda pela Secretaria do Estado da Juventude e Emprego e o Conselho Nacional da Juventude (CNJ).

Ao som do xigubo, a homenageada dançou e jubilou, numa clara demonstração de satisfação pelo reconhecimento à sua obra ainda em vida.

Paulina Chiziane recebeu das mãos de Oswaldo Petersbugo, secretário de Estado da Juventude e Emprego, um certificado de honra que simboliza o respeito e reconhecimento do Estado e da organização do evento.

Foi realçado que, através da sua escrita, a primeira romancista moçambicana tem vindo a dar um inestimável contributo em prol da cultura, o que eleva o nome de Moçambique além-fronteiras.

Intervindo na cerimónia, Paulina Chiziane disse que um obrigado era pouco para transmitir a sua alegria, até porque “qualquer linguagem humana é sempre curta para expressar o que sentimos”.

Centrando a sua atenção para o público jovem que esteve presente no evento, a contadora de histórias aproveitou a ocasião para chamar à razão a juventude para que comece a assumir os destinos do país e cuidar do que nos identifica como moçambicanos.

“Hoje dancei, mas só foi possível porque tenho chão e este implica que tenho terra. Esta terra é minha, é minha obrigação cuidar dela e não deve aparecer alguém a dizer outra coisa. Muitas pessoas morreram para que pudéssemos ter este pedaço de chão e não nos vamos fazer de distraídos até perdermos o que é nosso”, disse.

O Prémio Camões, prosseguiu Chiziane, existe há 33 anos, mas nunca tinha sido vencido por uma pessoa negra e nem por uma mulher do continente africano. Para ela, há pouco reconhecimento do trabalho de pessoas de pele negra, porque há quem esteja a tentar inferiorizar qualquer actividade vinda do continente africano.

“A juventude de hoje é aérea, não entende muitas coisas, mas isso só acontece porque é distraída, não presta atenção nas coisas essenciais da vida, no que realmente vai determinar a nossa existência. Mas eu vos digo, não importa a cor da pele, a humanidade é uma e por isso somos iguais. E temos as mesmas capacidades enquanto seres humanos”, afirmou.

Paulina Chiziane foi clara ao afirmar que desde que se assumiu como escritora, tem sofrido imenso para conseguir publicar as suas obras. “Eles têm medo que eu cause mudança nas pessoas. Falo de poligamia, por exemplo, mas isto é mal interpretado. É por isso que os jovens devem aprender a ler de verdade, ler a vida, entender os contextos e determinadas situações para não mais serem enganados”.

Para a homenageada, o africano não tem liberdade de pensamento e ainda sofre auto-negação da sua identidade. “Ser africano é difícil. As pessoas sempre procuram defeitos nos meus trabalhos. Se não encontram, então inventam. Mas o que é arte? Existem palavras proibidas na hora de escrever? Por quê catalogar alguém só porque pensa diferente?”, questionou.

Tal como aconteceu no passado, o neo-colonialismo, prosseguiu a escritora, virá da religião. É neste sentido que exortou os jovens a despertarem para a importância de compreender a sua cultura, história e identidade, de tal forma que não sejam facilmente manipulados.

“Dizem que vieram com o cristianismo para nos tirar das trevas, mas este cristianismo teve a sua génese no nosso continente e há tanta gente a proibir que se leia os meus livros, porque não quer que o mundo fique a saber disto. Não venho das trevas, sou do continente da luz. A nossa preocupação hoje deve ser com perguntas como quem somos? De onde viemos? Onde estamos e para onde vamos? Onde fica o paraíso? Como se chega lá? Quem determina quem vai para o paraíso?”, continuou a questionar.

“O primeiro paraíso é a terra”, disse. “É por isso que eles sempre tentam estar na nossa terra, porque isto é o paraíso”, defendeu.

Divulga valores da sociedade moçambicana

PARA o secretário de Estado da Juventude e Emprego, homenagear Paulina simboliza a valorização do artista nacional. “Ela é uma pessoa que ajuda na divulgação dos valores mais nobres da sociedade, uma referência para todos, sobretudo para os jovens que encontram nela um exemplo de luta e superação. Nós nos sentimos honrados por viver no mesmo período que ela, por poder beber dela todos os conhecimentos”.

Oswaldo Petersburgo explicou que “mamã Paulina sempre nos disse que não escreve com intenção de ganhar prémios, mas sim para melhorar as nossas vidas. A qualidade dos seus trabalhos faz com que seja uma cidadã de África e do mundo. Portanto, já não é nossa propriedade, mas sim de todos que querem aprender dela”.

Neste sentido, os ensinamentos da escritora, defendeu o secretário de Estado, são um exemplo de esperança para jovens. “Por isso os jovens devem conhecer a sua obra, porque os temas que debate devem ser agenda para a construção de um país cada vez melhor”.

Por sua vez, Emília Chambal, Presidente do CNJ, caracterizou Paulina Chiziane como uma bússola da cultura, artes e história de Moçambique.

“Nos sentimos orgulhosos por ter feito a homenagem à Paulina Chiziane. A minha alma jubila. Ela é um espelho e uma bússola para quem ama as artes e nos faz amar a moçambicanidade. É nossa escritora favorita, por isso estou feliz. Um embondeiro das nossas artes”, disse, acrescentando que Paulina Chiziane é uma mulher que já demonstrou que para fazer arte é preciso muito amor pelo que se faz.

Por seu turno, Lídia Mathe, da Associação Cultural Bela Arte, referiu que Chiziane é um espelho, daí a homenagem, uma vez que com ela “sempre aprendemos. As palavras dela ficam na nossa vida, nos nossos corações. Com ela acreditamos que com sacrifício podemos alcançar nossos objectivos. Ela chegou onde chegou graças ao esforço e nós somos convidados a seguir o exemplo”.

Salientou ainda que Paulina Chiziane é uma pessoa com história e que tem muito a ensinar à juventude. “Ela é uma mulher que solidifica a nossa história. Ao olharmos para ela, entendemos que é a nossa raiz e percebemos que ao lhe homenagear podia contribuir na solidificação da nossa história”, explicou Lídia Mate, acrescentando que a escritora é também inspiração para todas as camadas sociais.

- Publicidade-spot_img

Destaques