Ngupa: uma zona urbana que teima em continuar rural

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NGUPA é a mais longínqua área residencial do Bairro da Cerâmica, na Beira, que dista 30 quilómetros do centro da cidade. Localizada na extremidade sul da capital de Sofala e integrado no espaço urbano, teima em manter os seus traços rurais.

Potencialmente agrícola, mormente na produção da cultura do arroz, e pecuário, ali falta quase tudo de urbano, desde as condições básicas para uma condigna vivência citadina, nomeadamente posto policial, abastecimento de água potável, corrente eléctrica, transporte de passageiros, incluindo escolas de referência, entre outras infra-estruturas e serviços.

Os moradores de Ngupa dizem-se abandonados, clamando para que sejam “lembrados” pelas autoridades, por via da provisão daquelas necessidades fulcrais.

A nossa Reportagem “mergulhou” pela vida de Ngupa e apurou que as dificuldades são imensas, com umas diminutas casas a beneficiar de ligações de energia eléctrica e fontes de abastecimento de água para consumo, obrigando a que os moradores recorram, sistematicamente, a fontes não seguras do recurso.

Com casas maioritariamente erguidas na base do material localmente disponível, nomeadamente matope, estacas, bambus e lonas, Ngupa está, sim, longe de usufruir da vida urbana.     

Sara Zacarias, residente naquela zona, disse ao nosso Jornal que não existe outra alternativa senão consumir água retirada do poço que, segundo suas palavras, constitui um sério risco à saúde pública.

“Bebemos, lavamos e cozinhamos com esta água… se procurar encontrar uma casa que tenha torneira poderá se cansar. Sabemos que não é tratada, mas se não optarmos por esta alternativa vamos perder à vida”, dramatizou.

Por isso, solicitou a quem de direito que “arregace as mangas” para garantir a provisão dos serviços básicos com vista a minimizar a pobreza que afecta centenas de moradores.

A fonte exemplificou que a população é obrigada a ter de percorrer longas distâncias para obter água potável, pelo facto de que nem todas as casas possuem poços tradicionais nos seus quintais.

Realçou ainda que caso o sistema de abastecimento de água abrangesse toda população da zona não haveria casos constantes de diarreias, tal como se verifica neste momento.

Filipa Augusta, outra moradora, alinhou pelo mesmo diapasão, adiantando que a população recorre maioritariamente aos poços tradicionais das quintas de produção de hortofrutícolas nela espalhadas para se abastecer de água para o consumo.

“Um fontanário seria bem-vindo, enquanto aguardamos pelo sistema de canalização de água para consumo, porque assim poderíamos consumir água em condições, pois nem isso temos”, corroborou.

Expansão da corrente eléctrica   

A EXPANSÃO da energia eléctrica para aquele bairro é outro clamor dos moradores, visto que um número reduzido de residências está a beneficiar deste sistema, deixando maior parte de Ngupa às escuras. 

Felisberto Francisco, morador, entende que embora não haja registo de criminalidade naquela zona, a necessidade de energia é fundamental, equiparando que, hoje, Ngupa não se diferencia de uma zona rural.

“Estamos numa zona esquecida, onde falta quase tudo, e por vezes parece que não fazemos parte da cidade da Beira. O Município deve olhar por nós, porque quando chega a hora das eleições todos visitam-nos e fazem promessas”, desabafou.

Acrescentou que devido à falta de energia muitas actividades não são desenvolvidas, o que deixa a população mais carenciada em quase tudo.

Por outro lado, solicitou um posto policial mesmo sabendo que vivem de forma ordeira e não há registo de criminalidade de grande monta.

Por seu turno, Lourenço Vasco, outro residente, considerou que não é por a zona estar distante da cidade da Beira que deve ser esquecida, desejando a necessidade de se garantir condições básicas para o bem-estar da população, censurando os actuais níveis de vida.  

Destacou igualmente que a falta de energia está a condicionar sobremaneira o desenvolvimento daquela zona, equiparando-se como estando a levar uma vida diferente dos restantes autarcas da Beira.

“A situação em que os munícipes vivem aqui em Ngupa não é das melhores. Hoje em dia ter uma casa instalada com corrente eléctrica não deve ser um luxo”, afirma.

Vasco foi ainda mais longe ao dizer que praticamente ali se vive “ao Deus dará”, aludindo ao actual nível de pobreza urbana, não obstante a localização daquela zona nas imediações daquele que é considerado o segundo maior centro urbano do país.

É, neste contexto, que com recursos próprios algumas famílias têm estado a se esforçar no sentido de instalar energia nas suas residências, mas ainda enfrentam vários constrangimentos de natureza burocrática para sanar as referidas inquietações.

Crise de transporte de passageiros 

A FALTA de transporte de passageiros constitui outro problema para a comunidade de Ngupa, observando-se ao longo da principal estrada que dá acesso aos viajantes horas a fio nas paragens.

O morador Armando Charles entende mesmo como difícil sair daquela zona para o centro da cidade, porque o único meio de transporte é o autocarro dos Transportes Municipais da Beira.

Desejou que para minimizar esta preocupação é preciso a duplicação da frota daquela transportadora e a exploração da rota pelos transportadores semicolectivos de passageiros.

“Acabamos por chegar tarde aos nossos compromissos, incluindo os alunos que atrasam à escola, pelo facto de o autocarro demorar chegar. Queremos pedir mais meios que possam chegar até aqui em Ngupa, para diminuirmos o tempo de espera”.      

Para Luciano Mataca, no tempo chuvoso a situação agrava-se cada vez mais, deixando a estrada com a plataforma altamente degradada, numa via que regista intenso movimento de camiões, mormente na época agrícola.

O problema acentua-se na fase da colheita dos operadores agrícolas do sector familiar, afectando negativamente o escoamento da sua produção daquela zona semi-rural para o centro urbano da Beira.

Apurámos que viajantes há que deambulam com trouxas na cabeça à procura de transporte, mas debalde.

“Temos tido dificuldades para transportar o arroz que retiramos das nossas machambas, sendo que optamos por alugar viaturas de caixa aberta a preços exorbitantes, cujos operadores alegam que a estrada não se apresenta em bom estado para a circulação dos seus meios”.

A camponesa Anastácia Filimone argumentou que outras pessoas optam por se transportar em táxi-mota, pagando entre 30,00 e 40,00 meticais, dificultando assim o percurso diário naquele trajecto. Outros há com condições que embarcam na aquisição dos seus próprios meios de transporte.

Clamor por uma escola secundária

A FALTA de um estabelecimento de ensino do nível secundário em Ngupa preocupa os pais e encarregados de educação das crianças, segundo o depoimento de alguns moradores, em virtude de os alunos depois de concluírem a 7ª classe não terem outro recurso para continuar com os seus estudos, percorrendo longas distâncias e acabando por desistir.

João Alexandre disse que muitos estudantes acabam por terminar os seus estudos quando transitam para a 8ᵃ classe, porque naquela zona só existe uma escola primária.

“Os nossos filhos percorrem quilómetros para chegarem à escola. Alguns vão ao Dondo para darem continuidade com os seus estudosˮ, indicou, avançando que existem grupos de estudantes que preferem alugar residências para estarem mais próximos da instituição do ensino.

Arminda José sublinhou que muitos dos estudantes sem possibilidades financeiras, mormente para pagar o transporte diário, optam por ir à machamba, porque de lá garantem o seu sustento.

“Existe uma escola secundária privada no desvio da Estrada Nacional Número Seis, mas não são todos que têm a possibilidade de pagar as propinas, para além de também se situar relativamente distante da zona residencialˮ, afirmou.

A nossa Reportagem dirigiu-se à Escola Primária Completa Cerâmica-Terminal e conversou com a chefe da secretaria, Inês Carlos, que indicou que a sua instituição conta com 911 alunos da 1ᵃ à 7ᵃ classe.

“Na verdade, os pais e/ou encarregados de educação têm razão em pedirem uma escola secundária aqui em Ngupa, pois isto não é fácil e os alunos percorrerem longas distâncias para darem continuidade aos seus estudosˮ, disse.

Mostrou-se também preocupada com camiões de carga pesada que passam frequentemente pela estrada, considerando que isso contribui para a degradação da escola, ao causar trepidação.

“Gostaríamos que houvesse outro desvio longe da escola, porque para além de arruinar a infra-estrutura também perturba as aulas com o barulho e a poluição”, denunciou.

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