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Sexta-feira, 1 - Julho, 2022

Projectado estaleiro para mitigar inundações

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UMA nova página para o fim do crónico problema das inundações que anualmente fustigam a cidade da Beira pode ser aberta, com a inauguração, em Janeiro próximo, de um estaleiro de aterro urbano.

Nesta infra-estrutura serão armazenadas quantidades de areia dragada no canal de acesso ao porto daquela urbe, construída abaixo do nível médio das águas do mar.

Pretende-se, assim, criar um estaleiro com equipamento e trabalhadores específicos para este projecto, numa cidade que frequentemente sofre do problema das inundações, que afectam milhares de pessoas, sobretudo nos periféricos bairros do Vaz, Manga-Mungassa, Manga-Loforte, Ndunda e Praia-Nova.

A Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), Ana Coanai, que há dias trabalhou na capital provincial de Sofala, mostrou-se optimista com a concretização deste megaprojecto, tendo, inclusive, visitado a área onde o trabalho está em curso.

Esboçado há quatro anos, conjuntamente pela Empresa Moçambicana de Dragagem (EMODRAGA) e o Conselho Municipal da Beira, o empreendimento já caminha decisivamente para a fase final da sua execução física.

A nossa Reportagem escalou demoradamente o local, que se situa ao norte do Porto da Beira, concretamente no pântano da zona de Dhama, na Munhava-Matope, e colheu sentimento de euforia e esperança dos moradores no combate às inundações.

Inicialmente previsto para entrar em funcionamento antes da passagem do ciclone tropical Idai, em Março de 2019, o projecto teve algum revés, pois o temporal resultou igualmente em danos materiais nas dragas Alcântara Santos, Aruangwa e numa dragueta.

Depois disso a iniciativa foi retomada com a mobilização de tubos especializados de transporte do material dragado, um trabalho que se encontra a 80 por cento de avanço.

Sobre o assunto, o Presidente do Conselho de Administração da Empresa Moçambicana de Dragagem (EMODRAGA), Domingos Bié, explicou que o projecto contempla uma parte social, que deverá consistir na atribuição de areia à população e para a protecção costeira da Beira.

Tal consistirá na repulsão da areia do canal de acesso ao Porto da Beira, concretamente na chamada curva de Macúti, que conta aproximadamente com 500 mil metros cúbicos de volume anual, para além de outros bancos em cerca de três milhões.

Para a cobertura dos custos operacionais deste projecto, orçados em 20 milhões de meticais, o Conselho Municipal, a Mozambique Minerais e a Areia da Beira apresentam-se como principais parceiros na concretização deste processo do aterro urbano daquela cidade.

Bié elucidou que o navio, depois de encher o porão com aquele tipo de sedimento, vai bombeá-lo para fora por via de uma conexão de tubos especialmente importados da Dinamarca.

Com 80 tubos, entre flutuantes e em terra, para cobrir uma extensão total de um quilómetro, deve ser concluída ainda esta semana a ligação em mar e arrancar imediatamente em terra, um processo, entretanto, considerado relativamente mais fácil.

Segundo o cronograma das actividades, a ligação em terra poderá terminar dentro de uma semana, seguindo-se acertos finais até à vinda do navio que, neste momento, se encontra na África do Sul a ser docado para este propósito.

De origem chinesa e baptizada com o nome Thong-Tan, a aludida embarcação tem capacidade de 3500 metros cúbicos de porão.

Estimativas indicam que por cada viagem este navio transporta seis mil metros cúbicos de porão e durante um dia pode abastecer mais de 18 mil metros cúbicos, de acordo com a demanda.

A procura de areia para aterro ou obras de construção civil é bastante acentuada na Beira, prevendo-se, segundo os especialistas na matéria, que venha a ser necessário um horizonte de aproximadamente 14 milhões de metros cúbicos para os próximos cinco anos.

“Queremos começar com este grande projecto que vai beneficiar toda a população da cidade da Beira que, em diferentes momentos, necessita de fazer aterros para as suas construções”, sublinhou Bié.

Este processo vai também beneficiar o próprio canal de acesso ao Porto da Beira aumentando a sua largura pelas quantidades a serem extraídas noutros locais daquela costa marítima.

O projecto, que também vai garantir segurança das embarcações que zarpam e atracam no Porto da Beira, contribuirá igualmente na protecção costeira.

Município expectante

ENQUANTO isso, o Conselho Municipal da Beira subscreve integralmente a importância deste projecto, recordando que a cidade da Beira precisa de aterros.

O vereador de Construção e Urbanização, Augusto Manhoca, indicou que se pretende ainda garantir, neste projecto, as cotas necessárias de preparação à vulnerabilidade e assegurar custos baixos de investimentos em infra-estruturas públicas e privadas, incluindo habitações.

Descreveu igualmente que o sedimento repulsado pode também ter utilidade pública e privada, pois vai assegurar a construção com maior segurança da rede de água, do sistema de drenagem, de estradas, de esgotos e de energia, que vão assentar numa base arenosa e não lamacenta como ocorre.

Manhoca aponta que a urbanização da Beira estende-se ao longo de uma linha costeira com cerca de 25 quilómetros de comprimento, orlada de praias e de uma crista dunar que constitui uma barreira protectora natural face às investidas do oceano.

“Há muito tempo que vínhamos a negociar este investimento público-privado, pois temos vários projectos, destacando-se a protecção costeira e construção das 25 mil casas enquanto a repulsão das areias também vai preencher as dunas”.

Pela importância do empreendimento, acrescentou que uma equipa do Conselho Municipal da Beira já visitou o local do projecto, em Dhama, na companhia de técnicos holandeses.

A fonte revelou que, depois das conversações entre a edilidade e a EMODRAGA, chegou -se ao entendimento da aplicação de um valor bonificado para a aquisição da areia para aterros e construção civil, lembrando-se que, neste momento, os referidos inertes são extraídos em Nhamatanda e Dondo para Beira, acarretando elevados custos.

“Este projecto é bem-vindo, porque, mesmo no período colonial, a maior parte da cidade da Beira foi aterrada através de saibro. Fora isso, depois da dragagem do canal de acesso ao Porto da Beira o material servia para as dunas e aterros”, recordou.

Na sua visão, o exercício da protecção costeira, cujo material dragado pode elevar as dunas e alargar as praias bem como alargar o espaço urbano em si, é uma acção fundamental, pois ninguém irá investir sem segurança, o que terá consequências graves no progresso do corredor, das transacções comerciais, do turismo e do lazer.

Comunidade ganha emprego

A COMUNIDADE pesqueira de Dhama, no interior do Bairro da Munhava, já se beneficia de emprego directo e indirecto através da implementação deste projecto, mesmo ainda na fase de construção.

Além de 12 postos de trabalho ocupados maioritariamente por mão-de-obra local, estão ainda previstos mais de 50, já na fase da exploração, conforme apurámos junto do PCA da EMODRAGA, Domingos Bié.

Trata-se da primeira intervenção daquela instituição, sediada na Beira, nesta matéria, esperando-se que todos saiam a ganhar neste projecto social.

Manecas Bitone, de 43 anos de idade e residente na Munhava, considerou que a areia é um recurso natural que deve ser colocado à disposição das pessoas.

Por isso, acredita que a cidade da Beira vai ter uma nova imagem, numa altura em que já foi lançada a tubagem em terra para se fazer a conexão com a draga e o acesso rodoviário à zona do projecto também já está concluído.

Para Eva Pires, de 62 anos de idade e moradora da Munhava-Matope, a cidade da Beira clama desde sempre de aterros, lembrando que no período chuvoso vive-se um verdadeiro drama, com pessoas a cozinharem por cima das mesas, latrinas submersas, entre outras contrariedades.

Augusto Fernando, de 32 anos de idade e que vive em Muchatazina, alinhou pelo mesmo diapasão, e louvou a iniciativa que, além de aterros, será uma oportunidade de emprego.

Por sua vez, Fonseca Luís espera que seja substancialmente facilitada a aquisição da areia para construção civil, que neste momento, segundo ele, está a um preço bastante exorbitante.

Cada carrada de 18 metros cúbicos de areia grossa custa entre 10 mil e 13 mil e quinhentos meticais cada, enquanto a areia fina parte de oito a dez mil meticais o mesmo volume.

Os operadores, por seu turno, queixam-se de que tais inertes são extraídos em áreas longínquas, designadamente Six-Milles, Manga-Loforte e localidade administrativa de Mutua, no Dondo, que dista 50 quilómetros da cidade da Beira.

“A venda de areia é rentável, porque se verificam, nos últimos tempos, muitas construções, principalmente depois da devastação resultante da passagem do ciclone tropical Idai”, defendeu o camionista Eugénio Domingos.

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