Carregamento de mercadorias: Uma actividade que garante sustento a muitos jovens

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“PUATCHI” significa em língua macua trabalho de carregamento de mercadoria que alguém faz sem contrato em troca de um pagamento imediato. Os que fazem este trabalho são chamados “napuatchis”. Surgiu com a dinâmica de desenvolvimento da cidade de Nampula, quando comerciantes de origem indiana, que em tempos dominavam a actividade comercial na urbe, abriram muitas lojas, e porque havia falta de transporte para os clientes optavam por contratar estes carregadores.

A antiga actividade foi evoluindo e hoje expandiu-se pelas ruas e avenidas da cidade de Nampula, principalmente onde se situam armazéns, lojas, mercados, supermercados e paragens dos transportes semi-colectivos de passageiros e tornou-se na fonte de rendimento que ocupa centenas de jovens desempregados, alguns deles com formação técnico-profissional ou com nível médio e oriundos de todos os distritos da província de Nampulae de outros pontos do país.

Entrevistados pela nossa Reportagem, alguns carregadores afirmaram que o que acontece é que em Moçambique ser jovem constitui um grande desafio, sobretudo por causa do desemprego.

Daniel José, de 25 anos e natural do distrito de Meconta, e faz o seu “puatchi” nos armazéns de cimento da FAINA. Carrega e descarrega sacos e outras mercadorias de um camião porque na cidade de Nampula não existem oportunidades de emprego para jovens. Segundo ele, as poucas que surgem são difíceis de aceder “porque é preciso ter muito dinheiro para comprar emprego”.

Para Daniel o “puatchi” é um trabalho duro, mas não desiste porque não tem outra alternativa de sobrevivência. Lamentou o facto de os “patrões” pagarem mal, dando como exemplo, que dez “napuatchis” para descarregarem 800 sacos de cimento de um camião recebem apenas 100 meticais cada.

Francisco Júnior, que também faz aquela actividade, trabalha nas proximidades dos Armazéns Gulamo, no bairro Napipine. Diz que prefere trabalhar nas proximidades dos comerciais porque aqui consegue algo para sustentar a sua família e comprar roupa e material escolar para os seus dois filhos.

Um outro entrevistado, António Sousa, começou por dizer que não é possível que num país como Moçambique a muitas pessoas que ainda não puderam formar-se os empregadores exijam requisitos difíceis de cumprir, como os muitos anos de experiência que se requer para responder a propostas de emprego. . 

“Eu próprio já tentei, como jovem que quer trabalhar, inúmeras vezes concorrer a algumas vagas de emprego na Saúde, Educação e Polícia e nunca tive sucesso. Por isso, prefiro estar todos os dias neste armazém do bairro de Muacouanvela para fazer ‘puatchi’ ao invés de enveredar pela prática de crimes. Faço isto para ganhar a vida. Isto para dizer que mesmo com essas formações exigidas não há emprego para jovens”, desabafou.

O entrevistado pede às autoridades governamentais em Nampula mais atenção e direitos iguais quando se trata de emprego tendo em conta que nem sempre os processos de recrutamento são transparentes. Porém, diz estar a conseguir algo para sobrevir na vida, com o “puatchi”.

Para Joaquim Samuel, que exerce a actividade na avenida do Trabalho, é lamentável que jovens que não conseguem inserção social pela via do trabalho remunerado na cidade de Nampula busquem outras formas de sobrevivência, mesmo aquelas em que implica a prática de crimes, o que infelizmente, acaba levando alguns deles à cadeia.

Observou que numa cidade como Nampula, onde o mercado de trabalho é escasso, “é óbvio que a maioria dos jovens que não tenham possibilidades de emprego, mesmo com a sua formação e quando é assim é preciso optar por fazer trabalhos honestos para a ganhar a vida, caso “puacthi”.

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