CONFERÊNCIA CRESCENDO AZUL: Participantes unânimes na apropriação dos resultados

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GOVERNAÇÃO e Sustentabilidade do Oceano, Rotas de Oceano, Oceano e Inovação e Energias dos Oceanos dominaram, recentemente, as atenções do país e do mundo, na segunda edição da Conferência Crescendo Azul, de 18 a 19 de Novembro, em Vilankulo.

O evento surgiu em resposta ao movimento global de chamamento para a acção, lançado pelas Nações Unidas e por vários organismos responsáveis pela promoção da sustentabilidade, à acção para o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), no número 14.

O principal objectivo da reunião de Vilankulo foi avaliar os progressos alcançados na promoção e integração do desenvolvimento das economias do mar, no contexto da Economia Azul, baseado na sustentabilidade, conhecimentos científico e tecnológico dos oceanos.

Entre as contribuições levadas ao evento pode se destacar a prestação da academia. O reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Orlando Quilambo, disse em entrevista ao “Notícias” que os oceanos têm espaço e papel de relevo na investigação, uma vez que é neles onde se encontram formas de vida algumas das quais usadas para a alimentação das pessoas, para além de serem uma grande fonte para a exploração de recursos minerais.

Falou da diminuição da saúde dos oceanos, o que despertou nas academias uma atenção especial sobre estes ecossistemas. Por via da investigação, defende, é preciso encontrar formas sustentáveis para que os recursos existentes, tanto de pesca como dos minerais não sejam usados de forma insustentável, para garantir que as futuras gerações se possam beneficiar deles da melhor maneira.

“Temos exemplos de outros países que não observaram com cuidado a conservação dos oceanos, o que resultou em questões de poluição que afecta os animais marinhos, mas também a degradação da costa com efeitos na erosão. O conhecimento científico deve agir nesse sentido”, disse.

Sobre a UEM em particular, o reitor fala de uma preparação na resposta a alguns dos desafios do momento em matéria de gestão dos oceanos. A título de exemplo, aponta a criação da Escola Superior de Ciências Marinhas e Costeiras, com foco na Geologia Marinha, Oceanografia, Biologia Marinha, cujos resultados têm sido importantes para acções concretas.

Um dos resultados da contribuição da UEM pode, segundo Quilambo, reflectir-se no trabalho de restauração do ecossistema do mangal, desenvolvimento da aquacultura, para além da sua contribuição na elaboração de algumas políticas que têm sido tomadas, no contexto da veda e defeso na captura de algumas espécies.

Uma oportunidade de diálogo

PARA Jorge Ferrão, reitor da Universidade Pedagógia de Maputo, o evento foi uma oportunidade para dialogar sem esperar mudanças imediatas, no pós-evento, pois tudo tem fases que devem ser seguidas.

Disse ser fundamental, nesta altura em que se vive num mundo cada vez mais dependente da tecnologia, do conhecimento e inovação, dar-se um salto na transição de onde estamos para onde pretendemos ir, pensando em toda a base económica sustentada numa economia azul e verde, libertarmo-nos das fontes de energia tradicionais e começarmos a colher experiências directas de outros países e de outras organizações.

“Aquilo que nos compete, como academia, é continuarmos a pesquisar, embora a nossa academia seja muito feita de formação e não de investigação, apesar de a UEM e a UP terem convencionado isso nos seus planos estratégicos. Mas nós vamos continuar a fazer a nossa parte, pesquisar, escutar as diferentes sensibilidades e fazer  propostas para a mudança”, disse Ferrão.

Para ele, a grande expectativa é saber o que o mundo pensa, ajustar as pesquisas internas a essas novas realidades e, nesta fase de transição energética, saber como lidar com os diferentes ecossistemas, num país com mais de 2700 quilómetros de costa, e que o mar tem uma grande influência no clima.

A sociedade civil é parte interessante do chamamento para a acção em prol do bem-estar das comunidades de um modo geral, e das costeiras, em particular, por serem utilizadores primários dos ecossistemas marinhos.

Para Zélia Menete, directora executiva da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), mais do que meros participantes, a ideia era que todos saíssem da segunda edição do Crescendo Azul com propostas de soluções concretas.

“O potencial do mar é enorme mas ninguém come o potencial. Ele tem que ser transformado em algo concreto no quotidiano das pessoas, em termos de melhoria da qualidade das suas condições de vida e que os oceanos sejam uma verdadeira alavanca para o desenvolvimento socioeconómico do país. Que as pessoas que dele vivem tenham ganhos através de projectos que significarão melhor renda, melhor alimentação, saúde e melhor inclusão”, explicou.

Sobre a inclusão das comunidades costeiras neste debate, Menete nota, com alguma satisfação, a sua participação, mas sente que deviam ser mais envolvidas, particularmente as mulheres e jovens em iniciativas similares à que a FDC introduziu através de um projecto denominado “Ndzilo”.

Louvor vindo de Portugal

RICARDO Serrão Santos, ministro português do Mar, reconhece o papel desempenhado por Moçambique, através do Ministério do Mar, Águas Interiores e Pescas, na organização do evento que, segundo concluiu, foi caracterizado por um mutilateralismo e cooperação internacional em que se discutiram todas as dimensões relacionadas com o oceano, na perspectiva de torná-lo saudável e produtivo.

“De certo modo eu vejo neste evento uma estrada que estamos a construir para a conferência dos Oceanos, a ter lugar próximo ano em Lisboa”, resumiu.

Falou de um acordo de cooperação eficaz em algumas áreas, como o ordenamento do espaço marítimo, a investigação científica e que está a ser constituída uma comissão que vai agilizar e promover ainda mais a cooperação em áreas de formação marítima, formação de pescadores no desenvolvimento da educação e da literacia do mar.

Santos acredita que Moçambique está no bom caminho, a medir pelos trabalhos de cartografia das actividades desenvolvidas ao longo da sua costa.

Realçou que os problemas ambientais que afectam os dois países são similares, talvez sob forma mais grave em Moçambique, que nos últimos anos sofreu eventos climáticos extremos que demonstram a necessidade de proteger os oceanos não no sentido de os manterem inactivos, mas permitindo o seu uso regrado.  

Para a ministra do Mar, Águas Interiores e Pescas, Augusta Maíta, o evento teve o mérito de trazer ideias inovadoras, e com a particularidade de se ter deslocado de Maputo, a capital, para Vilankulo, na província de Inhambane.

A expectativa da sua instituição é que a plataforma seja apropriada pelos países da região e do continente, de modo a haver uma acção comum na resposta aos desafios impostos pelos mares, oceanos e pela Economia Azul.

Maíta realçou o petróleo, gás, ecoturismo, poluição marinha, biodiversidade e conservação, tecnologia, inovação e sociedade, transporte e comércio marítimo  como uma importante janela para o futuro, do ponto de vista macro.

“Para nós, foi igualmente de extrema utilidade a discussão à volta de temas eminentemente das comunidades, como a pesca artesanal, principal fonte de rendimento da nossa população costeira, assim como a pesca ilegal com recurso ao uso de artes nocivas”, disse.

A terceira edição do Crescendo Azul terá lugar em 2023.

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