CENTRO CULTURAL CONSTRUÍDO POR MALANGATANA: Uma obra “esquecida” nas entranhas de Matalana

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LUCAS MUAGA

UM dos maiores sonhos e patrimónios deixados pelo artista plástico Malangatana Valente Ngwenha (1936-2011), o Centro Cultural de Matalana (CCM), denuncia esquecimento e “implora” por intervenções urgentes.  

O empreendimento situa-se na localidade de Matalana, distrito de Marracuene, província de Maputo, a mais de 30 quilómetros da cidade de Maputo, entrando pela Estrada Nacional Número Um (EN-1).

Para quem sai da capital do país, o Centro Cultural de Matalana está do seu lado direito e a ele pode chegar através da mesma estrada de terra batida que vai dar à Escola Prática da Polícia da República de Moçambique.

É um espaço de 4.9 hectares, rodeado por residências antigas e mais recentes, e principalmente por uma ampla paisagem florestal.

Para localizá-lo o visitante não precisa ser um conhecer da zona, basta perguntar pela casa de Malangatana, que qualquer nativo saberá indicar.

Está ainda próximo de três locais de referência da localidade, como a casa de Malangatana, erguida pelo arquitecto português Pancho Guedes, a cripta do pintor e sua esposa Gelita Mhangwana (1934-2020), que até à data da sua morte era a principal guardiã do espólio deixado pelo marido. Não se pode ignorar um dos poços mais antigos da região.

Oficialmente inaugurado em 1997, o centro foi primeiramente idealizado na década de 1950, quando Moçambique era considerado, pelo governo colonial português, província ultramarina. 

De acordo com Mutxine Ngwenha, filho de Malangatana, as primeiras discussões para a construção do empreendimento resultaram do encerramento, neste período e local, duma escola primária que estava sob a tutela da Igreja Presbiteriana.

Assim, a infra-estrutura nasceu da necessidade de se criar uma instituição de ensino formal que beneficiasse a localidade e não só. Pelo menos foi este o principal argumento apresentado, na altura, às autoridades coloniais.

Estas negociações foram encarregues a uma comissão composta por figuras de grande peso na história das artes moçambicanas, dentre elas os pintores Malangatana e Fernando Machiana, e o dramaturgo Lindo Chongo.

“Matalana não tinha uma instituição de ensino propriamente dita, mas uma igreja que também funcionava como escola”, contou Mutxine.

A ideia de construir esta infra-estrutura avançou, terá igualmente surgido por influência das dinâmicas artísticas e culturais da antiga Lourenço Marques, actual cidade de Maputo, porque no final dos anos 1950 o artista plástico começou a entrar em contacto com outras realidades.

Foi neste período que o artista filiou-se ao Núcleo de Arte, sediado na capital do país, e, mais tarde, começou a trabalhar sob a orientação do arquitecto, escultor e pintor Pancho Guedes (1925-2015), responsável por muitas construções da antiga Lourenço Marques.

“Malangatana começou a sonhar em fazer alguma coisa que ligasse aquilo que fazia fora com as coisas que aconteciam aqui em Matalana”, considerou Mutxine.

Acrescenta que entre o final dos anos 1950 e o início de 1960 ficou marcado como a primeira fase de aprendizado em artes plásticas do artista, que de resto era um homem multifacetado que também cantava, escrevia e esculpia.

Entretanto, a fonte alerta que nesta altura Matalana já se caracterizava por uma actividade artística muito forte, destacando-se o artesanato através de artigos decorativos e utensílios domésticos, em detrimento das artes plásticas.

Estes elementos contribuíram positivamente no sentido de se encontrar na localidade um espaço que culminou numa com a construção da casa de cultura.

Inicialmente o centro foi instalado numa tenda que chegou a acolher o falecido antigo Governador-Geral da província de Moçambique, Rebelo de Sousa, pai de Marcelo Rebelo de Sousa, actual presidente de Portugal, que visitou o local.

O espaço, continuou Mutxine, também serviu de repositório de obras de arte dos nativos e amigos de Matalana e foi desta maneira que aqui se organizou a primeira exposição de artística ao ar livre.

“Quando isso aconteceu chamámos este espaço museu até os anos 1990”, explicou, referindo deste modo que o lugar também acolhia actividades de canto e dança.

Mutxine afirmou que, depois da independência nacional, os artistas ligados à criação do Centro Cultural de Matalana, obra arquitectónica de Pancho Guedes, viram as suas ideias para o desenvolvimento do espaço artístico-cultural a serem frustradas pela guerra dos 16 anos.

Os tempos de paz foram celebrados por Malangatana e companhia com a materialização do derradeiro centro, começando com a implantação de um centro de formação, graças à boa vontade da comunidade local, que cedeu o espaço.

A infra-estrutura foi erguida a partir de 1994, finalizada em 1996 e formalmente inaugurada a 27 de Abril de 1997, pelos estadistas Joaquim Chissano e Jorge Sampaio, de Moçambique e Portugal, respectivamente.

Foi um passo crucial para a criação de novas construções como rondáveis para hospedagem, sala de música e palco ao ar livre.

A chegada dos dias maus!

O CENTRO Cultural de Matalana conta com dois rondáveis. O primeiro, que serv(iu)e para a acomodar os hóspedes de Matalana, é constituído por 32 quartos, e o segundo, inacabado, foi pensado para ser um edifício polivalente, que inclui salas de reuniões e tipografia.

A sua não conclusão é uma das muitas consequências da morte, vítima de doença, de Malangatana, em Matosinhos, Portugal, a 5 de Janeiro de 2011.

É que infelizmente, depois do desaparecimento físico do artista, o centro cultural deixou de ser o mesmo, entrando numa espécie de esquecimento e, por isso, todas as infra-estruturas por si erguidas, neste lugar, estão a transformar-se, aos poucos, em ruína e precisam duma intervenção urgente.

Segundo Mutxine Ngwenha, a morte de Malangatana retraiu o investimento de muitos parceiros nacionais e internacionais e à ausência de condições financeiras para manter o espaço aliam-se questões climatéricas pois, por estar instalada nas “matas” de Matalana, a “casa viu (outros) dois rondáveis a serem consumidos pelo fogo”.

Em outras palavras, há hoje menos infra-estruturas do que antes, o que prova que é preciso “investir na segurança física dos edifícios para depois tentar melhorar as suas condições de trabalho”.

Luz no fundo do túnel

O PATRIMÓNIO de Matalana, depois de muito tempo parado, voltou acolher actividades artísticas há pouco mais de um mês. Abre as suas portas todos os sábados para a realização de “workshops” de pintura destinados a crianças da comunidade.

A iniciativa é dinamizada pela Fundação Malangatana, liderada por Mutxine Ngwenha, Associação Mavoco, coordenada pelo fotógrafo Mateus Afonso, e pelo próprio centro cultural, gerido por Fernando Machiana, que junto de Malangatana e Mankew Mahumana é um dos maiores símbolos das artes plásticas da localidade e do país.

Pretende-se, segundo Mateus Afonso, que este acto constitua o primeiro passo para a revitalização do espaço, pois deverá culminar com intervenções diversas nas suas infra-estruturas.

O ponto de partida será o centro de formação, que em tempos formou muitas pessoas em corte e costura, serralharia, carpintaria, produção de papel a partir da reciclagem de materiais nativos, fotografia e gastronomia, contribuindo assim para a promoção do desenvolvimento local.

“Havia aqui um restaurante comunitário que temos ideia de levantá-lo”, acrescentou Mateus Afonso.

A intervenção inclui a biblioteca do centro de formação, composto por um rico acervo de 25 mil livros de diversas áreas de estudo que, apesar do seu valor imensurável, está espalhado no chão de um dos compartimentos, pelo facto de o espaço não dispor de prateleiras em condições.

Mateus Afonso e Mutxine denunciam que o espaço tem sido vandalizado por pessoas mal-intencionadas, sendo que a sabotagem inclui os balneários, que não reúnem mínimas condições para o seu uso, conforme relatam as imagens captadas pelo “Notícias”.

Palco ao ar livre, mas sem oxigénio

O PALCO do Centro Cultural de Matalana está ao ar livre e, como as outras obras, em degradação. Também denuncia abandono, apesar de carregar consigo memórias inesquecíveis, das quais Mutxine destacou o seu papel para o nascimento das Temporadas de Música Clássica, vulgo “Xikitsi”.

Este evento, de grande notoriedade e iniciado pela actual Ministra da Cultura e Turismo, Edelvina Materula, saiu de Matalana para a cidade de Maputo, onde conta com o apoio da Associação Cultural Kulungwana, que Malangatana é co-fundador.

A sala de música e o anfiteatro, conta a fonte, impulsionou jovens e também está por detrás da criação do Festival da Marrabenta que, junto das Temporadas de Música Clássica e outros eventos, são desafiados a regressar a Matalane.

O poço e a história

NAS imediações desta infra-estrutura há um poço que não fazendo parte da herança deixada por Malangatana merece algum destaque, por ser um dos maiores patrimónios mais antigos de Matalana, em particular, e da província de Maputo, em geral.

Foi aberto no tempo colonial, não se sabe exactamente quando, e só na década de 1990 rendeu-se à “velhice” e, por este motivo, já não serve como fonte de água, mas como fonte histórica. “É onde Malangatana e a sua família tiravam o precioso líquido”, explicou Mateus Afonso.

Infelizmente nota-se que muitos residentes não conhecem a sua história, chegaram recentemente para responder às dinâmicas trazidas pelo crescimento populacional.

Entretanto, a comunidade, principalmente a mais antiga, não se esqueceu do seu valor, pelo mesmo motivo que não se esquece do significado deste centro.

“É uma referência de memórias de pessoas de vários quadrantes do mundo que estiveram aqui não só para vir ver Malangatana e seu trabalho, mas também para desenvolver actividades no campo da cultura, sociologia e antropologia neste espaço em particular”, disse Mutxine.

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