Jocas Achar
PARECE mentira mas é verdade. Tudo ao avesso. Inspirei-me na conversa com o antigo administrador distrital.
Domingo reservei um tempo para ir à igreja. À saída da missa deparei-me com um antigo administrador distrital que já dirigiu Quelimane, Milange e Pebane. Agora está aposentado. Como sempre, por estas alturas, pessoas que se conhecem saúdam-se e se desejam próspero ano novo. Também aconteceu entre mim e o antigo administrador.
Minutos depois, enquanto caminhávamos numa marcha lenta e quase sonolenta, as nossas conversas gravitam em torno da situação de cheias e inundações no Sul do país, corte da N1 e a especulação de preços de produtos essenciais nos mercados de Quelimane.
Não tardou que a nossa conversa desembocasse em contratos de fornecimento de jornais. Reconhecendo as suas limitações no uso das tecnologias de informação e comunicação, o meu amigo deixou claro que prefere a versão impressa. Nessa conversa, o meu companheiro de caminhada confessou estar muito indignado com dirigentes que governam sem ler jornais. Disse não entender como é possível um governador, Secretário do Estado, administrador, director provincial ou chefe de posto administrativo dirigir sem ler o jornal? A pergunta foi sábia, directa e oportuna. Em algum momento os dentes rangeram como se fossem gonzos de uma porta velha. Logo lembrei da velha máxima segundo a qual quando se faz pergunta a um moçambicano este faz outra, no lugar de responder.
Então, o que o senhor pensa sobre governar sem ler jornais?
Ele respondeu: a obtenção do conhecimento e outro tipo de informação relevante é uma questão de curiosidade e persistência e isso só é possível com leitura da realidade circundante vertida nos jornais. Olhei para ele e respirei fundo. E ele continuou a ocupar o seu tempo de antena… disse, por exemplo, que na Administração Pública era obrigatório que as instituições assinassem contratos de jornais, sendo um para o dirigente mais dois ou três para as secções ou departamento, para além de um exemplar que ficava na sala de audiências. Isso era assim porque dirigir sem jornais é um autêntico desastre… há risco de decisões não informadas.
Lamentou o facto de hoje o país ter muitos licenciados, mestres e doutores mas que não lêem, por isso sabem pouco sobre os contextos em que trabalham. Mais, nos estudos colectivos sobre a organização, legislação interna e regulamentos os jornais também têm importância crucial.
Disse que nos ministérios, direcções provinciais e administrações distritais há (ou devia haver) uma rubrica para comunicações que inclui a compra de jornais e revistas. Muitas vezes, desabafou, o dinheiro é desviado para outros fins.
Os chefes ou directores dos gabinetes, assessores de imprensa ou de comunicação deveriam preocupar-se em alinhar os discursos dos seus chefes também com o que os jornais escrevem. Os directores dos gabinetes são os que amputam a rubrica de comunicação, entretanto, quando ouvem falar da publicação de uma notícia que lhes é desagradável, comportam-se como baratas assustadas (muitas vezes sem razão de ser), porque nem se quer tiveram a oportunidade de se inteirar do conteúdo de tal artigo.
Meus senhores. Aqui está o repto. Não é bom trabalhar sem ler jornais.


