ATÉ podia ter ido de avião, que da Beira a Maputo é apenas uma hora e vinte e cinco minutos, mas dona Joana preferiu o autocarro que levaria, em condições normais, pouco mais de 16 horas para fazer pouco mais de 1200 quilómetros.
Dona Joana, já calejada nestas andanças, preferiu viajar via terrestre, porque queria aproveitar para viver as emoções e a adrenalina resultante da contemplação da paisagem que se descortina a partir da janela, a vida que se mostra à beira da estrada.
Ali há bois e cabritos pastando, à frente corre um rio, ao lado da casa uma árvore frondosa que mostra que chegou a hora de florir. Ao fundo, o que pareciam queimadas descontroladas afinal não passava da queima de restolhos de palha de milho. Afinal estamos no limiar de mais uma época chuvosa e os camponeses já começaram a preparar a terra para a sementeira.
Todas as vezes que viajamos é por amor ou por obrigação social. Desta vez dona Joana viajou à Beira para testemunhar a cerimónia de lobolo de um seu neto.
Viajo por amor, e não de obrigação – dizia dona Joana na conversa com uma companheira de circunstância.
Até então estava tudo bem. O motorista, um jovem franzino, escuro, trajando uma jeans azul e uma T-shirt laranja, tinha prometido que a viagem seria tranquila.
Enquanto os passageiros contemplavam a paisagem, de repente perceberam que mal tinham tempo para fixar determinado objecto, as árvores circundantes passavam de rajada.
Afinal o motorista tinha pisado a fundo o acelerador, apesar de o piso na zona apresentar-se irregular e com muitas covas.
Meu Deus! Não há como reduzir a velocidade? Motorista vou chamar a Polícia – gritou dona Joana.
À reclamação de dona Joana ouviu-se um coro de vozes de reprovação.
Queremos chegar hoje a Maputo. Temos o que fazer. É a primeira vez que a senhora viaja? – questionou um jovem que estava duas cadeiras à frente da fila da dona Joana.
Porquê não viajou de avião – questionou outro, de auriculares nos ouvidos.
Outros limitaram-se a fazer carretas como que a dizer não nos trames.
O motorista ficou mais arrogante e pisou o acelerador à fundo. Quando se esperava que reduzisse a velocidade ao passar pelos povoados, este limitou-se a levar à mão à buzina, não fosse um pedestre cruzar o seu caminho vitorioso.
À dona Joana não restou outra opção senão rezar.
Pai Nosso que estais no céu, Santificado seja o Vosso nome… Fortaleça-me Senhor. Acompanha-me Senhor. Proteja-me Senhor. Cubra-me com Teu precioso manto, Senhor. O Senhor é minha rocha, meu escudo, minha força, eu Te amo, preciso de Ti, proteja-me…
Finalmente dona Joana apanhou sono… e a viagem continuou ao ritmo estonteante.
Acordou sobressaltada e perscrutou à sua volta. Afinal ainda estavam de viagem.
Quis contar o seu sonho à companheira de viagem, mas acabou por não o fazer para não ser desqualificada, como tinha acontecido na véspera.
A dada altura do seu sonho dona Joana estava num autocarro em que no lugar do motorista estava um macaco. Ao longo da viagem foram entrando mais e mais macacos que chacoteavam e zombavam dela, acusando-a de ser aprendiz de primeira viagem.
Veio-lhe à cabeça a imagem do pai, um pedreiro de mão cheia, cuja actividade foi abruptamente interrompida após um atropela e foge. O motorista varreu da estrada um ciclista e reaceando que este estivesse morto, atirou-o na mata. Mestre Joaquim viria a ser socorrido, mas os médicos não tiveram outra alternativa senão amputarem-lhe o braço. Desde então a pobreza bateu a porta da casa do mestre Joaquim, que já não podia trabalhar na profissão que amava.
Em caso de acidente só posso morrer. Não vale a pena continuar vivo na condição de inválido – proclamava o condutor do autocarro, enquanto dona Joana não parava de rezar.
Cubra-me com Teu precioso manto, Senhor. O Senhor é minha rocha, meu escudo, minha força, eu Te amo, preciso de Ti, proteja-me…
A dada altura reinou o silêncio. O autocarro virara um caixão sobre rodas. Parecia estar a levantar voo sempre que batia num buraco. O perigo de acidente fatal estava sempre à espreita. O jovem motorista tinha virado um animal, não ouvia a ninguém.
Finalmente chegaram ao destino. O motorista foi preso. Dona Joana telefonara mesmo para a Polícia.
No dia seguinte os polícias ao visitarem a cela encontraram um macaquinho aos pulos.


