Segunda-feira, 9 Março, 2026
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DIÁSPORA: Elas, a emigração e oportunidades

Por Jornal Notícias
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SE é verdade que as mulheres sempre foram a maioria da população moçambicana e com fraco acesso a inúmeras oportunidades, também não é menos verdade que há uma tendência de se imporem e marcarem a diferença sempre que identificam o ramo certo, como negócios locais e transfronteiriços, academia, exército, entre outras áreas.

Nos Estados Unidos da América, por exemplo, o “Notícias” conversou com mulheres que temporariamente trocaram o solo moçambicano, porque lhes bateu à porta a oportunidade de melhorar os seus estudos e por lá conseguiram emprego, constituíram família e, por via da emigração e contactos com realidades diferentes, procuram ainda influenciar as outras a tomarem decisões acertadas no que o mercado de trabalho pode oferecer.

Iolanda Maússe é exemplo de uma jovem que deixou Moçambique em tenra idade, para estudar num país do qual não tinha referências, muito menos ideia do que lhe esperava.

A sua porta de entrada foi a West Virginia University, em 1997. Concluída uma das primeiras etapas da sua formação constituiu família.

Porque a satisfação não se alcança, viu que não era tudo o que queria e fez mestrado em Desenvolvimento Rural na Universidade do Alaska.

“Sim, vivi no Alaska naquele gelo e permaneci lá por sete anos. Por razões de serviço fomos sendo transferidos para várias missões, tendo chegado a viver em seis estados, não por gostar, mas onde a missão chama não há como declinar”, disse.

Iolanda Maússe fala da importância da migração desde que a pessoa se sinta num ambiente que lhe favorece e com foco no que lá pretende conquistar, mas, acima de tudo, a capacidade de conseguir vencer os obstáculos. 

“Quando fui à West University, não havia nenhum moçambicano lá, tanto mais que foi na preparação da minha graduação que descobriram que não tinham a bandeira de Moçambique. Foi preciso procurarem-na, às pressas”, recorda-se.

Disse que estava bastante comovida por tomar parte no evento que em finais de Outubro juntou o Presidente da República e a comunidade moçambicana residente em Washington DC, pois isso desperta a veia da moçambicanidade e galvaniza o espírito de patriotismo em muitos.

Iolanda Maússe pede a quem de direito para que veja o problema da emissão de documentos em diferentes estados para evitar que muitos dependam de Washington para tratar documentação. 

Casada com um cidadão de nacionalidade zimbabweana, divide os poucos dias de férias a que tem direito entre Zimbabwe e Moçambique e, neste último país, escala, invariavelmente, Maputo e Mandlakazi, terra natal do seu pai, pois quer que os seus filhos cresçam conhecendo as suas origens.

Joana Amélia Chaimite Manyanga vive nos EUA desde os 20 anos.

A sua mãe, antiga funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, levou as filhas para uma missão diplomática, primeiro, na Tanzania, mais tarde, nos EUA.

A sua maior marca depois da formação foi ter trabalhado na missão diplomática de Moçambique com cinco embaixadores, uma experiência que descreve como memorável por se tratar de pessoas fascinantes.

“Trabalhei como assistente administrativa com os embaixadores Geraldo Namashulua, Armando Panguene, Amélia Sumbana, Carlos dos Santos e, actualmente, com Alfredo Nuvunga.”

Para quem quer emigrar, Joana Amélia afirma que sempre vale a pena experimentar novas oportunidades e abraçá-las afincadamente, ciente dos desafios que, encarados com optimismo, tornam a ousadia agradável.

“Por exemplo, tenho uma irmã que estudou aqui e, depois da graduação, foi imediatamente contratada pela ExxonMobil e está no Texas a trabalhar na área técnica. Isso é motivo de orgulho para nós, familiares, e acredito que é também para os moçambicanos ter uma compatriota na linha da frente  de uma indústria promissora que é de hidrocarbonetos.”

Abneusa Manuel está na Hubert H. Humphrey Fellowship Program, nos EUA, por um ano.

Explica que se trata de um programa de intercâmbio para profissionais designados “mid-career professionals”, pessoas que já têm certos anos de experiência, mas se encontram na fase intermédia, entre principiante e sénior. O programa é mesmo dirigido aos que demonstraram algum trabalho com impacto positivo no público.

“Estamos aqui por um ano, expostos ao ecossistema americano. Participamos nas aulas em determinadas universidades. Eu estou na Michigan State University e o principal objectivo é desenvolver profissionalmente”, disse.

A expectativa é continuar, através do seu trabalho, a impactar a vida dos moçambicanos. Aliás, Abneus já fazia trabalho social com o objectivo de empoderar jovens, através da tecnologia.

Sobre o conselho que daria a uma aspirante a emigrante, fala de coragem de experimentar novas oportunidades.

“Sim, dá um frio na barriga, mas qualquer saída da zona de conforto nunca é ‘confortável’, desculpa a repetição. Há insegurança, medo, mas só o facto de a pessoa querer sair já indica que há alguma coisa dentro dela que precisa de desenvolver. Há alguma visão que tem de se concretizar”, finalizou. 

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