Esta semana foi marcada por eventos sombrios que deixaram luto, dor e indignação em muitas famílias moçambicanas. Referimo-nos aos acidentes de viação que num e único dia mataram 37 pessoas nas províncias de Maputo e Gaza.
As causas estão ainda por apurar, mas o facto é que se tratou de acidentes aparatosos, a medir pelo número de mortos e feridos e alto nível de destruição das viaturas: ficaram reduzidas a sucatas, sinal de excesso de velocidade. Um denominador comum é que os sinistros envolveram viaturas de transporte semi-colectivo de passageiros que circulavam com a lotação muito acima da recomendada, o que faz concluir que para estes automobilistas o lucro é mais importante que a vida humana.
Facto intrigante é que os carros superlotados e os que circulam fora das horas estabelecidas por lei passam por postos de fiscalização, onde a presença das autoridades policiais é permanente, o que evidencia que os agentes posicionados estão preocupados com outros assuntos e não com o desencorajamento de comportamentos assassinos de alguns condutores. É igualmente preocupante a atitude dos que deviam garantir a ordem ou manter o controlo da circulação rodoviária. É que apenas quando ocorrem graves acidentes é que se recordam de voltar às campanhas de fiscalização, onde inúmeras operações são lançadas para morrerem semanas depois, altura em que os condutores assassinos voltam a fazer das suas.
Enquanto se chora pelas vidas que se foram e se gere o impacto desse desaparecimento nas famílias, vão “chovendo” apelos à prudência, respeito às regras de trânsito, disciplina, entre outros elementos que, infelizmente, não encontram eco na sociedade.
De forma inusitada, a sociedade vai testemunhando exemplos de anarquia generalizada não somente nas viagens de longo curso, como também dentro dos centros urbanos, onde um cobrador conduz uma viatura, com passageiros, ao encontro do condutor licenciado, acabando por se envolver em acidentes mortais.
Há que se partir para uma abordagem diferente da actual, que consiste em responsabilizar somente os condutores como autores da indisciplina generalizada nas estradas, sobretudo os que transportam passageiros. Devemos exigir deles, sim, que tenham viaturas em bom estado, lotação dentro do recomendável, que circulem dentro dos limites de velocidade, mas há ainda alguns aspectos: estarão esses condutores preparados para realizar a actividade que exercem? Se têm o documento que comprove uma competência que não têm, como é que o adquirem? Aquele que o passou, sendo impune, quantas vidas continuará a “ajudar” a ceifar? Será que a Polícia não tem conhecimento das anomalias, envolvendo gente documentada indevidamente? Se a deixam circular e cometerem matanças, como se tem testemunhado nas estradas, por que o fazem? Dá dó saber que a escassos quilómetros de um posto policial passou uma viatura com 27 pessoas no lugar de 15 e que, instantes depois, se ouvem relatos arrepiantes de morte de pessoas. Enquanto continuarmos a apontar o dedo apenas aos condutores, esta- remos a certificar as nossas estradas como corredores de morte, condenando crianças à orfandade, muitos sonhos interrompidos porque, na verdade, parafraseando o procurador-geral, discursos apelativos já não procedem perante tamanha anarquia.


