LEOVEGILDO DA CRUZ
LOCALIZADA a cerca de 80 quilómetros a oeste da capital do país, a vila da Namaacha, outrora considerada um dos destinos turísticos mais tranquilos e acolhedores da província de Maputo, tornou-se símbolo de esquecimento e abandono. Entre ruas calmas e ladeadas por colinas verdejantes, a paisagem guarda o silêncio de uma comunidade que há muito luta contra carências elementares, sobretudo, o acesso à água potável, um bem que, para os seus habitantes, se transformou num luxo.
Em cada bairro, o drama repete-se com diferentes nuances. O barulho dos tanques a serem enchidos e o som metálico das tampas a fechar substituíram o ruído que um dia se esperava ouvir vindo das torneiras.
Os residentes vivem dependentes de camiões-cisterna que percorrem as ruas poeirentas para vender o líquido vital a preços considerados exorbitantes. Cada tanque de 500 litros chega a custar 500 meticais, o que, para muitas famílias, representa mais do que o rendimento semanal.
Os camiões-cisterna abastecem-se num antigo furo de água, aberto ainda no tempo colonial, que continua a ser a única fonte capaz de sustentar grande parte da população. A escassez de água moldou o quotidiano e redefiniu prioridades, pois os moradores aprenderam a viver com restrições, a poupar cada gota, a improvisar banhos e lavagens em locais e horários pouco convencionais.
Em plena vila, os reservatórios improvisados enfeitam os quintais como símbolos de resistência. É um cenário que contrasta com o passado, quando Namaacha era apontada como referência de frescura, com nascentes e riachos que alimentavam o turismo local e o orgulho dos seus habitantes.
Hoje, resta-lhes a lembrança de um tempo em que a abundância de água parecia eterna. Mas não é apenas a falta de água que fere o olhar. Edifícios em ruínas, com paredes descascadas e cobertas de musgo, dominam a paisagem urbana.
São fragmentos de um passado que insiste em sobreviver, testemunhas silenciosas de uma era em que a vila parecia prometer progresso. Alguns desses escombros, situados mesmo na via principal, abrigam famílias sem-tecto e servem de esconderijo para o consumo de drogas e depósito de lixo, enquanto o matagal cresce à volta, conferindo um cenário fantasmagórico ao centro da vila.
Próximo da Escola Secundária da Namaacha ergue-se um destes edifícios abandonados, há mais de quarenta anos entregue ao tempo. Apesar do abandono, Namaacha continua a ser um lugar de simbolismo espiritual e de histórias que se cruzam entre o sagrado e o esquecido.
O Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que atrai peregrinos todos os anos, ergue-se em contraste com a precariedade que define o quotidiano local. Entre a fé e a carência, os habitantes esperam, em silêncio, que o essencial volte a ser uma realidade e não um privilégio distante.
Vozes de uma população sedenta

A VIDA na Namaacha, segundo os próprios moradores, é um exercício constante de adaptação. Alice Tangue, residente no bairro da Fronteira, afirma que o acesso à água transformou-se num desafio diário.


