Quarta-feira, 25 Março, 2026
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Tornar a saúde menos privatizada

Por Jornal Notícias
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FAR VUBIL

NO Hospital Central de Maputo as consultas externas são por marcação prévia, nas diferentes especialidades que vão desde a medicina até às cirurgias. Centenas de pessoas, acredito, têm tido consultas regulares para controlar o seu estado de saúde em diferentes departamentos, até porque algumas doenças são tidas como crónicas e, por isso, requerem um acompanhamento regular.

No departamento de cirurgia vascular, onde eu e outros doentes somos atendidos, geralmente as consultas acontecem num intervalo de quatro meses. Por isso, depois do último encontro com o médico, em Janeiro, o próximo é marcado para Maio.

No entanto, por vários motivos, nem sempre a doença dá tempo de esperar por quatro meses para ter um outro encontro com o médico, sendo comum a ocorrência de casos de urgência.

Por coincidência, eu e outros doentes fomos, há alguns dias, solicitar por um atendimento que não podia esperar até Maio. Era a primeira vez que solicitávamos fora da data marcada uma consulta, desde que fomos transferidos para aquele departamento, há sensivelmente quatro anos.

Um novo diagnóstico levou-nos àquele lugar fora do dia da consulta. Segundo o médico que nos diagnosticou tal patologia, era urgente que nos encontrássemos com um cirurgião vascular para saber se podíamos tomar certos medicamentos, porque o tratamento para o novo diagnóstico tem implicações sobre a saúde de uma doente de cirurgia vascular.

“A tua consulta de cirurgia vascular está para Maio, mas não podes esperar até lá, vá pedir atendimento urgente porque tens de começar um novo tratamento que às vezes entra em choque com quem tem problemas vasculares”, disse o médico que nos deu o novo diagnóstico.

Chegados à recepção das cirurgias nas consultas externas do HCM, a administrativa respondeu nestes termos:

“Temos sim consulta urgente e é amanhã às 7.30 horas”, disse e pausou.

“Que bom, muito obrigada”, respondemos.

“Mas são 900 meticais”, concluiu a frase.

“Precisamos dessa consulta mas não temos 900 meticais, saúde é só para quem tem dinheiro?”, perguntamos.

“Simplesmente estou a seguir as regras da casa, ou paga 900 ou volta em Maio, na data marcada”, disse-nos e pediu que nos afastássemos para atender outras pessoas.

Foi pesado para nós processar aquela informação. Como pode um hospital público impor-nos a essas condições?

Depois de atender a pessoa que me seguia, gritou: “vá ao banco de socorros”.

Portanto, quem tem dinheiro pode ir directamente ao cirurgião vascular sem passar pelo banco de socorros? E o “povinho” deve, obrigatoriamente, enfrentar os constrangimentos das urgências do HCM já conhecidos, que é ficar na fila de espera por mais de seis horas para o atendimento?

Não somos técnicos de saúde, nem especialistas em administração ou gestão hospitalar, mas acreditamos que casos de urgência, que envolvem um paciente decano numa especialidade de consulta externa, não precisam de ser verificados nas urgências, sobretudo este tipo de caso, que não é muito urgente na tabela classificativa.

No nosso ponto de vista, o hospital deve manter as suas regras mas ter também uma lista de casos de excepção, os quais podem ser tratados directamente nas consultas externas.

Neste caso, especificamente, acreditamos que colocar-nos numa das consultas agendadas para aquela semana teria sido a melhor alternativa e assim evitávamos ir às urgências para um caso não muito urgente.

Contudo, fomos às urgências, onde tivemos de pagar a taxa moderadora para explicar um problema que o próprio hospital já está a gerir e ainda ficarmos na fila de espera por seis horas.

“Mas este caso poderia ter sido seguido nas consultas externas, não é exactamente para urgências mas como é regra da casa, não temos como deixar de te atender”, disse a médica das urgências e de imediato contactou um cirurgião vascular, que tratou de marcar a consulta para quatro dias depois.

Acreditamos nós que passar este poder de contactar médicos para casos fora das datas de consultas seria muito bem gerido ao nível da recepção das consultas externas tal como lhe foi passado o poder de cobrar 900 para quem quer consulta urgente.

Em outras palavras, ou pagas ou andas de departamento em departamento para ter uma consulta, num hospital público.

Lamentável!

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