EDITORIAL

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A PARTIDA da plataforma flutuante Coral-Sul FLNG da Coreia do Sul para o largo da província de Cabo Delgado, que deverá proporcionar o arranque, próximo ano, da exploração do gás natural na bacia do Rovuma, foi certamente a notícia de destaque na semana prestes a findar.
A importância deste empreendimento não está apenas na magnitude dos valores mobilizados para a sua concretização (sete biliões de dólares norte-americanos), mas na importância estratégica do projecto e, fundamentalmente, o papel que deverá desempenhar no posicionamento de Moçambique como exportador de Gás Natural Liquefeito (GNL), bem como o seu efeito multiplicador, sob ponto de vista de benefícios socioeconómicos para os moçambicanos.
O Coral Sul-FLNG é um projecto pioneiro, liderado pela Eni, para o desenvolvimento e exploração das consideráveis reservas de gás natural descobertas na Área 4 da bacia do Rovuma, na costa de Mocambique. Compreende seis poços de produção em águas profundas, no Campo Coral, a uma profundidade de cerca de 2000 metros e um sistema de linhas flexíveis. O campo contém 16 TCF (triliões de pés cúbicos) de gás e foi descoberto em Maio de 2012.
Tal como tivemos a ocasião de testemunhar durante a semana, é uma empreitada gigantesca, cuja concretização traduz, na verdade, uma capacidade de estruturação de projectos complexos pelos parceiros e o Governo de Moçambique, particularmente numa altura em que o mercado global tem vindo a evidenciar acesos debates sobre o futuro das energias fósseis.
Vale a pena recordar que mesmo perante este cenário, quase todo o gás a ser produzido no projecto Coral Sul já tem mercado assegurado, até porque em Outubro de 2016 as concessionárias da Área 4 assinaram com a BP um acordo para a venda de todo o volume a ser produzido (3,4 milhões de toneladas métricas por ano), por um período de 20 anos.
Apesar de se destinar inteiramente à exportação, o gás do projecto Coral Sul proporcionará enormes dividendos económicos e, tal como referiu o próprio Presidente da República, além dos empregos directos e indirectos, a sua concretização relança as perspectivas sobre o desenvolvimento do país que poderá ver o seu Produto Interno Bruto a melhorar o seu desempenho, a partir do próximo ano.
Numa fase inicial, o Coral Sul-FLNG deverá empregar 800 moçambicanos que nos últimos oito anos foram sendo formados em diversos países, onde a Eni e seus parceiros operam. A ideia, segundo nos foi revelado, é que, à medida que o projecto for progredindo, mais moçambicanos sejam incorporados até se atingir uma fase em que os técnicos nacionais constituam a maioria e com um alto grau de preparação.
Apesar das preocupações levantadas à volta do ambiente, também somos levados a acreditar que o gás continuará a ter um papel crucial na transição energética, até porque, neste momento, é considerado o mais baixo hidrocarboneto de carbono. Não tem cheiro, cor e nem é tóxico. Pode fornecer calor para a cozinha e aquecimento e alimenta centrais eléctricas que fornecem electricidade a lares e empresas. Também alimenta muitos processos industriais no fabrico de materiais e bens que vão do vidro ao vestuário e é um ingrediente importante em produtos como tintas e plásticos, entre outros.
Para além destes benefícios, acresce-se também o facto de os projectos de gás poderem agregar vários outros na medida em que permitem a disponibilização do recurso para o mercado doméstico, a construção de infra-estruturas, como terminais marítimos, estradas e aeroportos, criação de empregos directos e indirectos, para além da formação e capacitação de nacionais.
Não queremos deixar de aproveitar este momento para sublinharmos que todos os investimentos económicos precisam de um ambiente fiscal propício e, acima de tudo, da paz e tranquilidade para se desenvolverem. E é, sobretudo, neste segundo factor que todos os moçambicanos, independentemente da sua cor partidária e religião, são chamados a trabalhar para que a paz regresse o mais rápido possível à província de Cabo Delgado de modo que este projecto, o Coral Sul-FLNG, e os outros que já estão previstos em terra possam ser desenvolvidos, tal como foram concebidos para colocar Moçambique entre os três primeiros produtores mundiais de gás natural.

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