À LUPA - O plástico está a ganhar batalha: LÁZARO MANHIÇA - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

OS ventos, que se fizeram sentir nos últimos dias, fizeram-me recordar sobre um problema sempre presente, mas que normalmente não temos consciência da sua existência e muito menos da sua gravidade, pois a sociedade parece estar a tomar o assunto com pouca seriedade: refiro-me ao plástico.

No último sábado à tarde, justamente no momento em que os ventos já se faziam sentir com pouca simpatia, pelo menos na província de Maputo, passava eu pela EN4. Pela força deste fenómeno da natureza, vi, de repente, sacos de plásticos que rasgavam os céus, como se de pára-quedas desgovernados se tratassem. Num dos lados da rodovia, no chão, num espaço cheio de capim seco, outros tantos sacos de plástico formavam um manto multicolor. Preto, branco, amarelo, azul e por aí em diante. Eram as cores dominantes.

Cá entre nós não há ainda números oficiais conhecidos, mas estatísticas citadas por organizações ambientalistas indicam que oito toneladas de plástico é o que anualmente o oceano recebe como “doação”. É este plástico que é depois consumido pelos peixes de que os humanos se alimentam, correndo o risco de contrair doenças, como cancros.

Esta realidade chega aos ouvidos do mundo, numa altura em que em todos os quadrantes se multiplicam apelos para cuidados a ter, face aos malefícios deste material para a nossa geração e as vindouras. No país, o Governo decretou regras sobre a gestão, produção, comercialização, importação e uso de saco de plástico, um instrumento que é reforçado pelas acções quase que diárias de organizações ambientalistas nacionais. 

Por conta disso, o saco de plástico tornou-se caro no mercado, mas parece que a medida ainda não está a ser suficiente para desencorajar o seu uso e combate a este material nocivo ao ambiente e à saúde humana.

O plástico continua a proliferar por tudo quanto é canto. Nas imediações dos mercados informais, as valas de drenagem, nas praias e os rios são disso claro exemplo. É nestes locais onde os olhos enchem-se de arrepio ao contemplar o triste cenário.

Os apelos parecem não surtir ainda os efeitos desejados, as fabriquetas de sacos de plástico continuam bem activos. Fala-se de iniciativas privadas ou públicas para a gestão do plástico, mas o que se nota, no terreno, parece que não está a acontecer nada, em termos de acções para melhorar a gestão deste material.

Não podemos inventar a roda porque isso foi feito há muito tempo. Há experiências de sucesso e bastante faladas de gestão do plástico e de outros resíduos até no nosso continente. São os casos do Ruanda e da Namíbia. Por que é que não copiamos estes dois exemplos nesta matéria para evitarmos que o nosso país se torne reino do plástico? 

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Histórias e Reflexões: Chimoio, aos 50 anos - Eliseu Bento

A CIDADE de Chimoio completou esta semana 50 anos de existência, ou desde que lhe foi atribuído esse estatuto.

Alguma literatura disponível considera Chimoio a quinta maior urbe do país, depois de Maputo, Beira, Nampula e Quelimane. Sobre isso, confesso que não tenho opinião formada.

Comecei a ouvir falar desse nome por força do Textáfrica de Chimoio, o grande Textáfrica, primeiro campeão nacional de futebol, em que pontificavam figuras como José Luís, Ângelo e outras treinadas pela figura transcendental de Mário Coluna.

Tanto foi assim que, na minha infância, quando comecei a perceber algumas coisas de futebol, me tornei adepto do Grupo Desportivo e Recreativo Textáfrica.

Ainda hoje, alguns dos meus amigos dessa altura, perguntam-me sobre isso e, como jornalista desportivo, de cada vez que vou reportar um jogo do Textáfrica, na brincadeira, querem saber “não vais favorecer a tua equipa?”.

Depois, de facto, fiquei jornalista do “Notícias” e, como ainda não tivéssemos uma representação nesta cidade, fui variadíssimas vezes a Chimoio em serviço de Reportagem, não apenas desportiva, mas de outros assuntos.

Escusado dizer que uma das minhas primeiras curiosidades foi mesmo entrar na Soalpo, entrar na Palhota e ver, de perto, de onde afinal vinha o tal Textáfrica do Chimoio que fez furor no futebol nacional depois da independência.

Nessa altura, Chimoio que conheci era uma cidade pacata que, depois das 21 horas, ficava deserta o que contrariava as manigâncias de um jovem como eu, vindo da cidade da Beira onde já “não se dormia” nessa altura.

Chimoio que conheci já era aquela cidade poeirenta, mesmo assim já famosa pela sua limpeza. Era a cidade da fruta em todas as épocas do ano.

Onde, pela primeira vez ouvi, a máxima de que “a pessoa mais limpa é aquela que não suja, não aquela que limpa”.

Era essa cidade de Chimoio que eu descobria.

Como não deixaria de ser, veio o “boom” e hoje Chimoio que conheço é uma cidade muito mais complexa.

Bem à maneira de todas as cidades moçambicanas, Chimoio também já é uma cidade rural. Onde quase se vende tudo, em qualquer lugar. As construções ordenadas e desordenadas disputam espaços. A população aumentou e parece que aumenta todos os dias com todas as consequências sócio-económicas que isso traz.

E, por falar nisso, Chimoio “não dorme também”.

E tanto “não dorme” que um dos locais mais perigosos que conheço neste país em termos de proliferação de larápios é precisamente naquele mercado municipal junto às paragens de transportes colectivos para os mais diferentes pontos do país.

Falo de um moçambicano que se pode gabar de já ter pisado todas as capitais províncias do país, muitos postos administrativos, localidades e povoados.

Ali, senhoras e senhores, vale tudo. Todo o cuidado ainda é muito pouco, muito pouco mesmo. Num piscar de olhos, podemos ficar sem carteira, sem documentos, sem dinheiro e quaisquer outros pertences.

Aquilo, definitivamente, não é para distraídos.

Até já ouvi dizer que os larápios recorrem a artes mágicas para surripiarem os incautos que se façam ao local.

Mas é claro que isso não retira todos os encantos da agora cinquentenária cidade de Chimoio.

E tanto não retira que decidi não ficar indiferente e deixar aqui a minha singela homenagem pelos seus 50 anos. Que venham outros mais!

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DE VEZ EM QUANDO: Minha homenagem  ao grande John Clegg   (Alfredo Macaringue)

 

 

NÃO tenho a mínima preparação para falar de John Clegg, o zulu branco que se juntou a Sipho Mtchuno, e os dois fundaram o Djuluka. Acho que foi na década de oitenta. Ele é grande demais para a minha capacidade de falar de uma pessoa que transcendeu a raça e o racismo. Sinto-me muito pequeno para “esgrimir” argumentos sobre o ídolo de muitos moçambicanos. Admirado pelo próprio Nelson Mandela. Mas estou aqui para me juntar aos milhões em todo o mundo e render a  minha homenagem a uma estrela sul-africana que superou todos os preconceitos.

Uma das músicas do zulu branco, que vai ficar na memória dos moçambicanos, por muito tempo, é sem dúvida “A si bonanga”, que se tornou num hino ainda na vigência do Apartheid. É um tema gravado com o Savuka. Porém, eu já conhecia John Clegg quando na década oitenta tive acesso a um disco de vinil do Djuluka, e, por via disso, fui me familiarizando um pouco com a história deste músico que partiu para sempre.

O que me impressionava em John Clegg é a sua entrega total à música zulu. A dança que ele protagonizava junto dos seus companheiros, faz-me delirar até hoje. Aliás, sempre que posso, recorro à internet para ver os vídeos do Djuluka e Savuka, onde aparece John Clegg. Muitas vezes com trajes tradicionais que fazem dele um verdadeiro zulu.

Pena que ele não tenha transformado profundamente a mentalidade dos boers, porque estes ainda continuam a viver no seu mundo à parte, olhando para o negro como uma coisa qualquer. Por vezes olham-no como algo pior do que uma coisa qualquer. Isso é que mete pena. Contudo, John Clegg está acima disso. Estará sempre. E será sempre lembrado na cultura zulu, e, consequentemente, na cultura sul-africana, como um exemplo a seguir.

Em Moçambique John  Clegg pode não ter penetrado mais a fundo na juventude moçambicana, mas para os da minha geração, e um pouco antes, sabem perfeitamente do que estou a falar. Aos jovens que não sabem, aconselho-os a irem à internet  pesquisar o percurso desta figura, que também faz parte do nosso tecido musical, como faz parte, por exemplo, Hug Masekela, Ray Phiri, que também partiram como John Clegg. Todos eles castigados pelo cancro.

Não tenho nada para dizer, como indiquei logo à partida. Apenas queria vincar que estou aqui, no meio da multidão que se vai lembrar dos grandes espectáculos de John Clegg. E eu vi muitos desses “shows” pela televisão, por isso fico com a sensação de que partiu uma lenda sul-africana.

Que Deus o tenha!

A Luta Continua!

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Dialogando:  Apresentação dos dirigentes que suscita curiosidade  (Mouzinho de Albuquerque)

 

 

SE bem que possa haver, logo à partida, dúvidas de que dirigentes falamos aqui, referimo-nos aos dirigentes do nosso Governo. O facto aqui é que o Chefe do Estado, Filipe Nyusi, nas suas deslocações às províncias, também privilegia a apresentação em público dos outros dirigentes que o acompanham, como ministros, governadores provinciais e outros. Cada um levanta-se e diz o seu nome, função que desempenha e, por último, grita de exaltação ou elogios ao chefe e de outras coisas da governação.

A auto-apresentação é feita através de línguas faladas na província visitada. Os que não sabem falar por não serem naturais e alguns mesmo sendo dessa província tentam fazer “esforços” para pelo menos conseguirem dizer alguma coisa. É uma iniciativa do PR que se pode louvar, porque na verdade a nossa auto-estima deve vir do desejo de termos a consciência de que o espaço construído pelos nossos antepassados também nos pertence a todos. O país não pode perder a sua auto-estima e sua referência etnolinguística. 

Entretanto, as auto-apresentações começam a suscitar curiosidade, quando um dirigente natural faz-se de não saber falar uma língua que é falada na sua própria província. Por exemplo, não pode ser aceitável, em nenhuma circunstância, que um dirigente natural de uma província como Niassa diga num comício popular em Nipepe que “sou daqui do Niassa”, para depois não conseguir expressar-se em língua local, mesmo que se sujeite a um exercício penoso para pronunciar uma única palavra. Não parece fazer sentido que os ajauas, nyanjas e macondes, grupos etnolinguísticos representativos das províncias do Niassa e Cabo Delgado, tal como os macuas, não saibam até nos tempos que correm falar a língua dos últimos, e vice-versa. O mesmo podendo acontecer entre os cisena e cindau, em Sofala ou com outras línguas nacionais.

Sem querer reacender as antigas clivagens sócio-históricas, entre as principais etnias daquelas duas províncias do Norte do país, dizer que do que se assistiu no comício de Nipepe e noutros distritos do país, particularmente do Norte e uma parte da Zambézia, transparece que o cerne das aparentes dificuldades de alguns dirigentes em falar as línguas locais, mesmo sendo naturais, tem a ver com o ainda continuarem a pensar ou comportar-se, com orgulho e mais leais à sua tribo que qualquer outro grupo social, ou melhor dizendo, do que qualquer coisa, é uma questão que aparenta orgulho tribal, que não precisamos como moçambicanos apostados na nossa união inquebrantável.

A ser verdade é mau, na perspectiva de que os dirigentes devem estar na dianteira no combate a preconceitos e práticas tribalistas e na valorização da nossa diversidade etno-cultural. Todavia, a ser verdade, então precisamos de descolonizar as nossas mentes ou a nossa consciência preconceituosa. Queremos acreditar que ao mandar os ministros e governadores provinciais e outros dirigentes para se apresentarem daquela forma, o PR terá achado que a sua iniciativa constitui um indispensável instrumento para que haja uma melhor coabitação na diferença tribal e sociocultural, uma das bases fundamentais em que se assenta a nossa unidade nacional. Até porque a Frelimo definiu no período pós-independência, a discriminação com base na cor, tribo e religião como um dos seus combates prioritários.

Vale a pena recordar que nos anos oitenta, o falecido Presidente Samora Machel disse aos estudantes moçambicanos na Ilha da Juventude, em Cuba, que seria estupidez ouvir que entre eles havia tribalismo e regionalismo, porque sem a unidade Moçambique não teria alcançado a independência e os esforços do Governo estão virados para a consolidação dessa conquista, que representa a suprema aspiração do povo. É um ensinamento que deve ficar na nossa memória colectiva como cidadãos deste país apostados na consolidação da unidade nacional.

Por isso, o apelo à consolidação da unidade nacional que tem sido feito em comícios populares e noutros fóruns, não é e nem pode ser uma coisa vã. É algo que compromete a sociedade moçambicana, porém, sem essa estupidez que o estadista estava contra. 

Embora estejamos tristes com aparente prevalência de algumas atitudes tendentes à autovalorização etnolinguística e cultural no país, não nos move o desejo de acirrarmos ódios, tanto é que o momento continua a aconselhar a continuação da reflexão sobre o combate às tendências divisionistas, na certeza de que a compreensão e valorização de todas as línguas e culturas de Moçambique potencie o espírito de unidade nacional. Aliás, os órgãos de informação também são chamados a desempenharem um papel pedagógico positivo na transformação dessas mentalidades, para deste modo se reforçar a unidade e coesão nacional. Esperamos que sejamos entendidos desta forma. Contudo, tem sido salutar e prestigiante que ouvimos, de forma insistente, os nossos governantes e não só, o seu reconhecimento da importância da unidade nacional, rumo a uma sociedade moçambicana inclusiva. Na realidade, só assim é que os cidadãos deste país serão capazes de construir uma nação livre, justa, democrática, de paz, igualdade e progresso e não de preconceitos, neste caso tribais.

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Retalhos e Farrapos:  Maria Albertina Valentim Tauzene   (Hélio Nguane)

 

 

ACORDEI. Estou feliz, vivo! Sinto a amargura dos comprimidos e ainda me recordo da ponta da seringa, a doutora das mãos gordas, o cheiro de cloreto, a incompetência dos estagiários, os comentários fora-de-hora da enfermeira, os conselhos disparatados da moça de limpeza.

Mesmo tonto, despertei, pensei em sentar-me, mas preferi ficar deitado a contemplar a minha falta de ocupação. Rebolei na cama, estiquei a mão e peguei o recipiente com água. O líquido humedeceu pensamentos incendiários: acalmou-me.

Mexi o celular, li várias mensagens, respondi o que me interessou, ignorei muitas. Recordei-me que era sábado, entrei na Internet, vasculhei nos motores de busca e encontrei o que procurava:

São 5.00 horas. Ele já fez três orações. Há várias dúvidas. Mas há uma certeza bem firme: o corpo que ontem sentiu prazer, hoje vai vibrar e vai se arrepender. Rumores e boatos. Uns dizem que o miúdo comeu os ovos um a um, pois não matabicha, nem almoça. É uma vítima daquela casa. Outros argumentam que a receita foi esbanjada na compra de bolachas e outros produtos de ocasião”, lia o texto “A primeira vez de João Matandza”.

Animado com a estreia da minha coluna, ganhei forças e consegui levantar da cama. Encontrei água quente, com dificuldades lavei o meu corpo, voltei à cama e dormi. Despertei às 17.00 horas com febres, às 18.horas senti frio, às 19.00 horas voltei a dormir, às 21.00 horas despertei e escrevi textos,  às 0.00 apaguei, às 02.23 acordei e tomei dois litros de água em quatro minutos, fui à casa de banho e voltei a dormir, com medo de nunca mais acordar.

 

FRACASSEI

Hoje estou mais lúcido. Levantei-me da cama, firme, tomei um banho frio, olhei-me no espelho, vi a cara do bom moço, respirei fundo e imaginei-me a descrever o que via naquele reflexo num texto. Fiquei em sentido, tive uma ideia, escrever para homenagear à minha fonte de inspiração, a pessoa que mais venerei em toda a minha vida.

Estou na redacção, com os olhos fixos no Word, já passam nove dias que tento começar a crónica. Queria ter inspiração para escrever um texto dedicado à minha mãe, para agradecer, agradecer, agradecer, agradecer, agradecer…

Nem é cliché. Pode até ser cliché, mas falta-me inspiração. Tenho medo, sinto que não sou capaz de redigir um texto belo, puro, de alma imaculada, que reflicta o papel da minha mãe na minha vida.

Hoje estou lúcido, seguro da minha missão, a minha coluna “Retalhos e Farrapos” tem um ano.

FORÇA, OTTO!

Acordei, estou feliz, vivo! Mas um dia estarei contigo, mãe.

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