Director: Lázaro Manhiça

NUM’ VAL PENA: O gladiador! - Leonel Abranches(Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

NÃOsei por que carga de água recordei-me de Barone. Um tipo de estatura baixa, bexigoso e quase sempre sem qualquer nesga de cabelo, o que tornava a cabeça luzidia e estranhamente redonda. Espadaúdo e com os músculos exageradamente tonificados. O boxeur Mike Tyson ao lado de Barone não via game. O olhar fulminante daquele machuabo era suficiente para aniquilar física e animicamente qualquer pugilista. O tipo era duro quanto baste. Era uma referência para a arruaça. Uma espécie de mercenário para quem quisesse resolver seus problemas sem sujar as mãos. Quem viveu em Quelimane nos anos 80 de certeza que se recordará desta figura. Barone parecia sempre apressado para lugar nenhum, mantinha uma conduta agressiva, invasiva e de personalidade forte, sem que fosse necessariamente de mau feitio. Voz roufenha e monocórdica, sobretudo arrepiante. Falava calma e pausadamente, contudo quase sempre imponente. Dir-se-ia que era um caso de estudo psicoterapêutico. Por alguma razão estava em constante confronto consigo mesmo, em tensão com o outro, se calhar para sobreviver psiquicamente. Não sabia ser de outra maneira.

Recordo-me, como se fosse ontem, do desentendimento que Barone tivera com um colega, de que resultou um“fight”épico. Os dois marcaram a data e o lugar para “se entenderem” aos punhos. O dia chegou e a cidade “gelou”. Era dia de “tira-teimas”. O adversário de Barone chegou meia hora antes e pairou no ar o fim da era do baixinho musculado. O tipo que ousou desafiar Barone era mais de porte atlético, ágil e com uma desenvoltura mais solta. De meia-idade, gabava-se de ter nascido em ambiente rasca, onde tudo era resolvido à porrada. Não se cansava de sublinhar que era de Inhassunge, do outro lado do labiríntico Rio dos Bons Sinais. À hora marcada Barone fez-se à arena, rodeado de uma chusma de apoiantes que gritavam o seu nome. O ambiente era tenso. Alguém da plateia traçou uma linha com o pé direito e recordou que o primeiro que a atravessasse começava a luta. Não se esqueceu de dizer que a única regra era mesmo não haver qualquer regra. Barone, desenvolto, atravessou a linha e desferiu um portentoso gancho. O soco foi fulminante, rápido e esgrimido aritmeticamente a partir de uma hipotética rotação dos ombros a 90º. O punho de Barone anichou-se junto ao queixo do gajo de Inhassunge, que recuou vários metros, rodopiou sobre si mesmo, soltou um lancinante gemido de dor e caiu com enorme estrondo, contorcendo-se em pose fetal. O combate terminou mesmo antes de ter começado. Com um único jab. Os circunstantes em silêncio olhavam para Barone incrédulos. E a fama de Barone subiu em flecha. O tipo virou uma lenda. Nas tardes de matinés no Cine Teatro Águia, ele impunha a sua ordem. Ele decidia quem devia ter acesso ao cinema. Usava a sua descomunal força para romper filas para comprar o número de bilhetes de ingresso que quisesse. Era um mercenário que impunha as suas regras, ainda que desprovidas de ética ou princípios. Era um lobo solitário.

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