Director: Lázaro Manhiça

NUM’VAL PENA: Socialmente excluídos e feridos na dignidade! - Leonel Abranches

 

A GRATIFICANTE tarefa de lidar com estudantes não é mais do que isso: gratificante. Você ensina, mas também aprende. E muito. A capacidade criativa e de crescente procura do saber por parte dos estudantes faz com que te dediques mais à investigação de modo a não deixar cair por terra a expectativa do aluno, sobretudo a não decepcioná-lo, ele que tem o professor como ídolo e primária fonte do saber.

Todo este arrazoado vem a propósito de ter constatado que, muitas vezes, os alunos e todos nós, quase sempre, usamos termos que ou não os sabemos aplicar como deve ser, ou nem sequer sabemos o seu significado, ou, se o sabemos, não passará de um conhecimento efémero, não tendo, seguramente, o seu fundamento. Há dias constatei isso e, para tirar a “prova dos nove”, fiz uma experiência: pus os estudantes a produzirem frases que indicassem claramente a diferença entre os seguintes termos, de entre outros: “sub, sob, sobre, sobretudo, sobre tudo. Perfeito/prefeito. Lazer/laser”. Termos a que recorrem todos os dias. Quase sempre. O resultado foi o que temia: 98% dos estudantes não sabia como aplicá-los correctamente. De repente percebi que esse não era um problema específico dos aprendentes. Todos nós temos as mesmas dificuldades. A outros níveis é verdade, mas as temos. Por exemplo, do ponto de vista de conceito, o que é pobreza? É não ter dinheiro? Comida? Aquele que não estudou é pobre? O camponês é pobre? Aquele que tem muito dinheiro mas é estúpido é rico? Há muitas variantes em causa.

Pois bem, quando ia começar a escrever sobre o que me traz hoje, percebi que afinal nem sabia o que era pobreza, tinha uma ideia, mas não concisa e precisa. Precisava ter em conta muitas variantes que nem sequer as dominava. Tive que recorrer a outras fontes do saber para perceber que pobreza basicamente pode-se considerar como sendo uma condição na qual falta acesso a serviços de saúde, educação, segurança e de mínimos recursos financeiros por parte de indivíduos de determinados grupos sociais, o que prejudica ou impossibilita a subsistência dos mesmos. Pois, é especificamente sobre esse grupo social que quero hoje falar. Dos pobres que vagueiam a cidade esmolandoe hipotecando a suadignidade.

Gente que às sextas-feiras calcorreia a cidade toda à busca de esmolas e de pedaços de comida. Rigorosamente todas as sextas-feiras uma horda de gente, crianças de tenra idade, adultos e velhos. Principalmente senhoras que se arrastam pelas ruas rivalizando as artérias com automobilistas sem tempo nem pachorra, correndo por isso todo o tipo de riscos. Até de serem mortalmente atropelados e acabarem numa vala comum. Quase todos se acotovelam à porta de lojas de cidadãos de origem árabe. Afinal, estes às sextas-feiras  não fazem mais do que cumprir com um ritual ligado à sua religião: é dia de “Suallat” (reza semanal e obrigatória), em que se pratica o “Jumma” (ajudar irmãos carentes e  pobres). E parece-me que o fazem de coração aberto e sincero, mas meus senhores, o cenário é humilhante.

Os nossos pais e avós mendigando pedaços de pão e alguns trocados e alguns vindos de zonas longínquas. É dramático e frustrante. Pior ainda quando percebemos que desse grupo de gente nem todos são pobres na verdadeira acepção da palavra. Aproveitam-se da boa fé dos lojistas para ganharem mais alguns tostões e, como ainda têm algum poderio atlético, adiantam-se aos infelizes e de facto pobres. Quando aqueles chegam arfando por todos os poros  já não há mais nada para ninguém. Desfeitos e cansados arrastam-se para outras paragens e ao fim do dia retomam à sua proveniência, lá onde “Judas perdeu as botas”! O saldo, muitas vezes, é mais triste ainda: pés gretados, feridos, cansados de morte e, sobretudo, feridos na sua dignidade e vexados.  É um cenário desolador. É verdade que a pobreza não é uma desgraça, mas, convenhamos, é muitíssimo inconveniente.

Não haja dúvidas que está a falhar alguma coisa do ponto de vista de políticas de incentivo e de combate a cenários de exclusão social no país. Haverá, necessariamente, que estabelecer prioridades entre as necessidades de austeridade económica e a urgência de políticas sociais. Entendo que deve haver também reflexões que levem a grandes mudanças de perspectiva. O que assistimos às sextas-feiras não pode ser normal. Recuso-me a aceitar isso. Aliás, nem sequer tenho dúvidas que aquilo roça a um gravíssimo caso de atropelo aos direitos humanos.

E se todos concordam comigo, onde fica então a nossa consciência moral?

Aliás, o Papa João Paulo II já vaticinava um cenário de pobreza  e a consequente exclusão social quando disse com inteligência santificada e beatificada: “Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias  mudanças sociais.”

Palavra de Santo.

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