Director: Lázaro Manhiça

Retalhos e Farrapos - RELATÓRIO 1: As gavetas  (Hélio Nguane)

 

A MORGUE é uma discoteca, um local silencioso onde almas cantam, vivem a agitação do eterno descanso. Os cânticos são mudos, ecoam, repercutem nas paredes pintadas com o odor tímido de quem já não está entre nós.

Frias são as gavetas. Às vezes há teias entre os interstícios, às vezes um líquido escorre do corpo de um sem vida, estaciona-se e berra um cheiro que incomoda narizes sensíveis.

Em dias de calor, os odores lutam para se fazer escutar, querem ser notados. Até de corpos frescos, recém-chegados. Mas por vezes, o caos tem as suas composições: um som perturbador que desliga o sistema de refrigeração e faz com que os transeuntes, que caminham nos arredores da morgue, saibam que existem cadáveres com personalidade. É difícil silenciar um berro, por mais mãos e lenços nos narizes.

Mas o dia de hoje é diferente. Das gavetas não sai nenhum cheiro nauseabundo. O pessoal da morgue está tranquilo, eufórico, diga-se de passagem, gargalhadas, piadas intensas que até causam cócegas aos cadáveres mais carrancudos.

Almeida pensa em arrumar os seus pertences, quer chegar mais cedo à casa. Quer ver a sua família, trocar impressões com seres vivos, ter diálogos. No entanto, uma gaveta está vazia. O trabalhador reza, olha para o relógio, espera por Mabatiza, o companheiro que vem lhe substituir.

“Levem! Peguem com jeito, o sangue duro não pode cair sólido no chão que Almeida limpou”, disse Matilde, a funcionária responsável pelo turno.

Almeida olhou para a situação, pensou em algo, mas nada podia dizer, o corpo daquele homem de capulana vermelha, descalço veio para lhe tirar o sossego.

- Onde vamos colocar? Perguntou.

- Deixa na maca, temos de analisar o corpo, parece que a morte foi violenta.

Almeida olhou para o relógio, percebeu que o seu turno havia acabado, mas nada havia por fazer se não esperar. Pensou em ligar para casa, mas quando tentava pegar no celular recebeu uma ordem.

- Limpa bem esse chão. Este tipo era muito dislexia. Olha para o sujo que deixa cair.

- Está bem.

Passaram duas horas, sem análise, sem Mabatiza. Todos saíram e só ficaram os dois ali. Os dois se entre-olharam, sem soluções. Almeida, farto, abriu a gaveta, pegou no corpo que estava estatelado na maca e meteu. Quando tentava fechar, sentiu uma força, resistência. O trabalhador continuou a tentar.

“Está frio aqui”, ouvia em changana. Mas fingia não ouvir, pois em dias de trabalho solitário sempre existia uma voz no seu interior a imitar as falas de um  cadáver.

Continuou a fechar, usou toda a força que tinha, mas em vão. Pausou, respirou fundo, sentou na maca. Levou as mãos para a face, lavou a cara sem água, pensou na esposa sem roupa, viu-se em acção, sorriu. Abriu os olhos e viu um homem de capulana amarrada à sua frente a dizer de forma insistente, num changana cru: “Está frio, está frio”.

Almeida ficou sem movimentos, o homenzinho de capulana andou com intenção, abriu a porta e saiu. O trabalhador ligou para Matilde, meio gago e disse: “as gavetas estão muito frias. Os cadáveres não aguentam”.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Presidente: Júlio Manjate

Administrator: Rogério Sitoe

Administrator: Cezerilo Matuce

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