NUM'VAL PENA: Duas doses de soruma, por favor   (Leonel Abranches)

 

 

PERTO das 8.00 horas de quarta-feira recebo um telefonema algo enigmático. Um homem que presumo de meia-idade e com uma voz de um “cantador” de rock pesado cumprimenta-me com um roufenho: “bôndia!” e, sem se dignar a identificar-se, pergunta se eu era o “gajo que anda a escrever essas cenas de crónica e não crónica.”

Meio desconfiado, fico pelo “não sei se é comigo que quer falar.” O fulano desata numa gargalhada sinistra e garante-me que não é nenhum “piqueiro” e nem sequer era um problema de cobrança de dívida e muito menos um marido com os cornos à flor da cabeça. Mais calmo, mas ainda desconfiado, pergunto como teve acesso ao meu número e do outro lado da linha o fulano irrita-se:

“Hedjô, eu até o “number” do Chissas e do Guebas posso ter agora mesmo. Não me pergunte como porque isso hoje em dia é fácil. Telefono para ti porque não estou a gramar “nentãopouco”do que acontece aqui na Mafalala. Já estão a xagerar muito”. Mostro interesse e predisponho-me a escutar. Conta-me o fulano que à luz do dia, mesmo à entrada do mítico bairro, é frequente ver meninos e meninas na paródia drogando-se no maior à-vontade. Pior ainda, fala-me de alunos uniformizados e com as escolas bem identificadas, a exemplo da “Estrela Vermelha”, Secundária Eduardo Mondlane, Guebuza, Polana e Manyanga. Rapazes e raparigas de ingénuas e incipientes idades, entre as 9.30 e as 10.30h, que se supõe seja o intervalo maior, baldam-se para a saudável merenda e dão um salto à Mafalala, onde entregam o corpo e a alma às drogas. Compram-na como se estivessem a adquirir uma sadia e higiénica merenda. De repente o homenzinho interrompe a narração e atira: “mais velho, tenho pouco crédito. Liga-lá você ou dê uma volta até aqui, mesmo à entrada do bairro do lado da Avenida de Angola.” E desligou o telefone. Não me fiz de rogado. Dia seguinte fui à Mafalala, do lado da Avenida de Angola. Bem à entrada uma casa “vomita” sons de hip hop esganados por uma fumaça que tenta escapar-se pelas janelas hermeticamente fechadas. Espreito altivamente. Percebo que há gente demais para o minúsculo átrio da sala. Um miúdo, de corpo franzino, mas com sinais de “espertamento” induzido, com o rosto precocemente cansado, que rima com os becos, pátios e recantos obscuros do bairro, vem ter comigo. Tranquilão. Os odores da “cannabis” passeiam-se arrogantes pelo ar. Parece-me que o cheiro nos corredores não afecta quem lá vive. O rapaz nota a minha evidente curiosidade e “predispõe-se” a ajudar: “tio, não valapena comprar com esses aí, é melhor ali…” e aponta para uma casota de zinco colonizado e corroído pelo tempo, cujo quintal alberga rapazes e raparigas com uniforme escolar. Passam o mesmo “charro” que é fumado com um estranho “rigoris mortis” e num funesto e maldito círculo narcótico. Não quero acreditar. Passo pelo estreito beco e ainda oiço: “mais duas passas, boss.” Fico siderado e decido abandonar o lugar. Já à saída do bairro dois jovens abalroam-me e questionam-me: “o que se passa mais velho?” Digo-lhes que tinha acabado de ver jovens estudantes uniformizados drogando-se. Riram-se, como se tivesse contado a maior peripécia de Tom & Jerry. “Este kota pá! Tem algum mal fumar "ganja"? Até os putos da zona o fazem” e voltaram a soltar gargalhadas desaparecendo pelo becos. A pergunta que não se quer calar é uma e única: “como pode isso acontecer justo nas nossas barbas?!” Como pode uma sociedade hipotecar um futuro, destruindo-o precocemente? Estes drogadinhos quando chegam à casa os pais não se apercebem de nenhuma alteração comportamental? Ora, ninguém precisa ser cientista nuclear para saber que a Mafalala e o Bairro Militar (Colômbia) são epicentros do comércio e consumo de droga. De quem é a culpa? É do Governo? É da Polícia? É da sociedade em geral. Não sei. Este não será decerto o meu combate. Quero, isso sim, dirigir uma palavra aos pais. O período entre a adolescência e a idade adulta é de alto risco; é onde ocorrem os maiores níveis de experimentação e problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Daí que o papel dos pais e da família é muito importante, pois devem criar estratégias para fazer com que a criança aprenda a lidar com limites e frustrações. As crianças devem crescer em ambientes com limites e regras claras porque crianças criadas sem regras claras buscam testar os limites dentro de casa, adoptando um comportamento desafiador com os pais e, posteriormente, ao entrar na adolescência, repetem esse mesmo comportamento desafiador fora de casa. Além disso, por não estarem acostumados a regras e limites não aceitam quando estes lhe são impostos. E o resultado é quase sempre o mesmo: drogas. Os pais devem definitivamente enquadrar seus filhos em actividades onde se sintam úteis e que representem um factor determinante para a criação de sua identidade. Eles precisam sentir que são bons em alguma actividade, seja no desporto, nos estudos, nos relacionamentos sociais, de entre outros. De contrário sentir-se-ão frustrados, inseguros, buscando por isso nas drogas a sua identificação.

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