Director: Júlio Manjate

Num`Val Pena: Abu Bakr al-Baghdadi - Leonel Abranches - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Manhã da última segunda-feira. O dia nasce tórrido, um calor incomum anuncia o inferno para as próximas horas. Tomava tranquilamente o pequeno-almoço numa casa de pastos algures na baixa da cidade. Meia dúzia de pessoas faziam a sua refeição em conversa amena e quase soturna.

O servente, um rapaz bem-humorado, com feições e perfil de um bailarino indiano, sugere-me uma refeição leve: “Mais velho, tome um chá quente, coma uma torrada simples e ovos mexidos...esse calor djó não está a dar...quando está calor, os ingleses bebem coisas quentes...” e antes mesmo de aceitar a sugestão, ele tratou de ir fazer o pedido.

Pelo televisor espreitava fragmentos do noticiário de uma televisão portuguesa. Já degustava com algum requinte a torrada simples e ovos mexidos quando a televisão interrompeu a emissão para anunciar como “última hora” e em parangonas que um tal de al-Baghdadi havia sido morto por tropas especiais americanas. Uma natural atenção foi destinada à notícia e aguçamos todos os sentidos para perceber o que de facto tinha acontecido. Aliás, depois de Osama Bin Laden, al-Baghdadi era o mais conhecido terrorista ligado ao Estado Islâmico.

Atentamente fiquei a saber que onome verdadeiro de al-Baghdadi é Ibrahim Awwad Ibrahim al-Badri. Nasceu em 1971 na cidade de Samarra, no Iraque, em uma família sunita de classe média baixa. Quando jovem, adorava recitar trechos do Alcorão, e observava as regras do islamismo de forma rigorosa.A notícia corria em todos os canais de televisão.

Bem ao lado, uma mesa acolhia três cidadãos, todos eles com sinais evidentes de islamização de consciência e de religião. Estavam vestidos a preceito, com vestes longas e brancas e lenços com uma corda preta torneando a cabeça. Por baixo usavam apenas uma espécie de pano enrolado pela cintura e falavam bastante alto.

Mais ao fundo da sala dois jovens atentos ao noticiário fizeram um comentário suficientemente audível para todos: “Finalmente apanharam esse pulha terrorista muçulmano...”.

Os três cidadãos viraram quase que em simultâneo com olhares reprovadores e sobretudo ameaçadores. Um deles, com o dedo indicador em riste, investiu sobre os dois rapazes:

“O que você sabe sobre terrorismo rapaz?! Para ti muçulmano já nasce terrorista?! Acha você que os imperialistas americanos são melhores que cada um de nós?! Pobre mente perversa.”

O rapaz, afoito e conversador, resolveu responder: “Não disse isso. O que entendo é que os muçulmanos no geral acreditam que a violência contra os que chamam de ímpios infiéis é aceite e apoiada pelos fundamentos de Maomé. Daí que sejam conhecidos como fundamentalistas, até porque....”- e o rapaz foi violentamente interrompido:

“Aí é que te enganas jovem. Você, como muitas outras pessoas, construíu estereótipos e aplica-os em qualquer situação. Para ti, árabe, muçulmano ou islâmico quer dizer a mesma coisa...nem te deste conta de que estão a falar de um líder islâmico...você traçou preconceitos a partir do que pouco conhece.”

A discussão começou a ganhar contornos alarmantes, sobretudo pelos comentários de cariz religioso e político. Agucei os ouvidos e os sentidos.

“Mas, kota. Poucas são as vezes que ouvi dizer que um cristão se fez explodir em nome de Cristo...” - e olhou para mim como que a querer aprovação e aliança nos argumentos. Encolhi os ombros e não disse nem sim e nem não. Não queria tomar partido na discussão de um tema que pouco ou nada domino.

“Algumas revoluções são necessárias. As mortes, quer de militantes ou de inocentes, são periféricas. Os inocentes são mártires Alá. Um dia vais perceber que os americanos, que te fazem acreditar que são os salvadores deste mundo, que os donos da democracia e que prezam o bem-estar da humanidade, não passam de expansionistas e neo-colonialistas. Um dia perceberás da justiça dos povos islâmicos. Espero que não seja tarde demais...”

Fiquei arrepiado com o discurso fundamentalista em plena baixa da capital. Saí de mansinho e atravessei apressadamente a Avenida 25 de Setembro e embrenhei-me pelo gabinete. Ainda arfando e transpirando abundantemente perguntei ao primeiro colega que encontrei:

“Já ouviste falar de al-Baghdadi?” - A resposta não podia ser mais esclarecedora?

“Aquele terrorista muçulmano?! Encurralaram o gajo ontem e fez-se explodir com mais duas crianças, esses árabes são suicidas pra caramba tsc.....”

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