Director: Júlio Manjate

Num val pena: Uma cobra, um mocho e um elefante - Leonel Abranches

 

Estava tudo muito bem combinado. Iríamos sair da vila enquanto o dia ainda fosse jovem. A malta estava animada e satisfeita, pois os últimos dois dias dias tinham sido de festa e de comemoração da amizade. Mas havia que voltar às origens e à labuta diária.

“Pessoal, vamos sair às 15 horas, vamos devagar e chegamos a Maputo por volta das 18 e ainda vai dar para descansarmos, amanha é dia do patrão.”

“Tudo bem boss...”anuímos todos com algum cinismo à mistura.  A verdade é que a conversa animou demais e quando demos pelo tempo já eram 18 horas.

“Epa, vamá bazar...dizem que não é muito bom andar à noite por estas bandas...”,disse um dos circunstantes, gesticulando nervosamente.

“Porquê já..!”Questionei, olhando de soslaio para o gesticulador nervoso.

“Não sei bem, bem! Mas é melhor bazarmos...é carro isto meus, de repente avaria ali no meio da reserva...tamos lixados!”

A verdade é que aquele paleio medroso e supersticioso deu efeitos. Quase que em debandada partimos de Matutuine. A noite começava a fazer caretas e não nos poupou da escuridão intensa.

A estrada, qual tapete, convidava o driver a acelerar cada vez mais.

“Motorista, taza-a-vunar maningue! Não estamos com pressa nós...Não valapena correr...” - interviu apressadamente o medroso e supersticioso. No fundo era o que ia na alma de todos ocupantes daquela mini bus. Aliás, o driver estava com ares de quem não tivera descansado o suficiente. De vez em quando semicerrava os olhos, bocejava e tentava manter-se desperto assobiando ruidosamente. Descrevemos uma sinuosa curva e sentimos que os pneus chiavam como um fantasma num túnel. Era o sinal de que andávamos um pouco acima da velocidade normal. Pegamos uma recta e suspiramos de alívio quando olhamos para o conta-quilómetros e percebemos que o homem estava deliberadamente a diminuir a velocidade. De repente, e do espesso mato que circunda a estrada surgiu uma enorme serpente. Ziguezagueando ostensivamente pelo alcatrão ainda quente, a enorme cobra quase que ocupava a largura da estrada. Preta e com a pele reluzindo à escassa luz da lua. O motorista do bus, com espantoso descernimento, travou o carro e guinou para um atalho à esquerda, abandonando a estrada. Com os corações aos pulos, mantivemo-nos no silêncio enquanto o carro sulcava violentamente aos solavancos a mata. Quando finalmente parou, no fundo de uma pequena ravina, readquirimos por instantes as nossas almas.

“Eu não vos disse...?! essa m...de viajar à noite não dá nada!”- o medroso supersticioso soluçava desesperadamente. Ainda nos recompunhámos quando pela noite silenciosa ouvimos um sibilar metálico aproximando-se. E de repente um baque surdo no vidro para-brisa do carro. Um enorme mocho esparramou-se pelo carro, salpicando o vidro com um líquido verde e punjoso. Os dentes de um acastanhado mórbido faziam recordar a imagem aterradora do Conde Drácula. As asas cobriam o vidro como um manto da morte.

Silêncio aterrador.

“Jeová...Jeová...nos acuda Senhor...Jeová, meu Deus. Escuta minhahumilde oração”- começou a gritar o medroso, entrando deliberadamente em modo de pânico e em transe colérico.

“Temos que sair daqui pessoal. Mantenhamos a calma e serenidade. Estamos no meio da reserva” - tentou acalmar as hostes um dos ocupantes do carro. Tchovamos o bus e conseguimos alcançar a estrada, de onde partimos com tremelicando que nem varas. Ainda não tínhamos sequer andado mil metros quando pela floresta ecoou um violento e poderoso bramido, que se foi repetindo várias vezes.

“É o que isso agora?!...”- interrogamo-nos quase que em uníssono.

“Só pode ser um elefante...”- respondeu o motorista azul de medo. A verdade é que o elefante afinal de contas “não estava nem aí para nós”.  Quando finalmente acostamos à cidade desatamos a rir a bandas despregadas dos nossos próprios medos e principalmente dos mistérios à volta da viagem atribulada. Ainda nos refazíamos das gargalhadas quando o motorista sorridente perguntou:

“Afinal tínhamos um Testemunha de Jeová no carro...?”

O medroso acusou o toque e sinistramente respondeu:

“Futseke...”

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