Director: Júlio Manjate

De vez em quando: Deixe a vida me levar! (Alfredo Macaringue)

 

 

JOSÉ Mucavele tornou-se mais conhecido – porque já o era no grupo RM onde, para além da guitarra, tocava trompete – quando gravou o COMPASSO I. Também em Atravessando Rios, seu primeiro álbum de originais, o músico despertou atenção com  “Ku khatisa Wumbuya”, um retumbante tema que tem uma colaboração indisfarçável de artistas portugueses.

Veio-me à memória este extraordinário compositor e intérprete quando no último sábado desloquei-me à Manhiça na companhia espontânea de um amigo que queria dar uma volta por aquelas bandas. É jovem este meu companheiro, tenho quase o quádruplo da idade dele. Quer dizer, daqui a pouco estarei na prateleira de ouro dos anciãos, e ele ainda estará gravitando na frescura da juventude.

Há uma afinidade profunda entre nós. Partilhamos sentimentos. Ideias. Mas o que nos une com mais força poderá ser, se calhar, a nossa fé inegociável de que antes de Deus nunca houve nada, e depois dele nunca haverá nada também. Nós os dois soletramos, sempre que as oportunidades se nos oferecem, canções da Igreja. E muito mais.

Nunca havíamos viajado juntos para distâncias como esta de cerca de 80 quilómetros de Maputo a Manhiça. Mesmo dentro da cidade, poucas vezes partilhamos o mesmo meio de transporte. Raramente estamos juntos, porém quando nos encontramos não perdemos a oportunidade de falar da vida. Em perspectivas diferentes, mas sobrando sempre vários pontos em que convergimos.

Ele comprou um carro há pouco tempo e ligou para mim na sexta-feira passada propondo-me uma volta. Era irresistível. Eu também precisava de espairecer. De ir a um lugar pouco frequentado, apesar de estar a pouco menos de uma hora de carro. E disse de mim para mim: deixe a vida me levar!

Já no interior da viatura, logo que fechei a porta do meu lado, percebi que eu e o meu amigo provavelmente fomos feitos para escutar a mesma música. Com a idade que ele tem, fiquei satisfeito, e de certa forma espantado, quando do seu reportório brotava suavemente a voz da Maria Betânea. Depois foi uma sucessão de temas nostálgicos, que não podiam ser ouvidos por um jovem desta idade que vai ao volante, conduzindo com prudência.

Quando passávamos de Michafutene, a música que tocava era o original de Alexandre Langa, “Rosa Maria”. E o jovem balbuciava a letra sem, no entanto, distrair-se na condução. Apercebi-me que a conversa poderia estragar aquele embalo de boa música. E o melhor seria mesmo entregar completamente os sentimentos ao momento. Foi assim, quase assim até chegarmos à Manhiça. Aliás, quando estávamos na zona do entroncamento de Marracuene, onde se pode ter o viaduto para Costa do Sol, tocava a música de Armando Mabjaia. E nesse tema Mabjaia fala de Marracuene. Olhámo-nos e sorrimos. Estava tudo dito.

A velocidade oscila entre 90 e 100 quilómetros à hora. Por vezes baixa até 60, mas nunca para acima de 100. E o som do aparelho está regulado de forma a nos proporcionar a tranquilidade. De vez em quando uma palavra, só para não parecermos mudos.

Já à entrada da Manhiça, estende-se do lado direito uma autêntica feira de produtos agrícolas frescos e produzidos localmente, de entre eles a banana orgânica muito saborosa. E o jovem disse algo muito surpreendente: “Ti Maca”, lembra-se daquela música do José Mucavele que, de entre muitas passagens, fala da banana da Manhiça e termina com sura de Inhambane?

Olhei para ele e estendi-lhe a mão aberta, sobre a qual ele bateu como um amigo aconchegado, que vai partilhar as mesmas emoções que eu. Fomos a uma esplanada ali na vila, de onde se pode contemplar um autêntico estendal verde, sem fim. E ficámos ali entregues ao tempo, e aproveitámos o ensejo para encomendar carne de porco assada na brasa. Eu a beber um bom vinho, e ele entregue à agua. Pura água. Não que ele não beba, mas ia conduzir. De resto petiscámos com um bom papo, e ao final da tarde pegámos na mesma estrada, já de volta. Saciados pela conversa e pelo passeio.

E já em casa voltei a dizer de mim para mim: deixe a vida me levar!

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