Director: Júlio Manjate

Sigarowane: Chuva de dor e de fartura  (Djenguenyenye Ndlovu)

 

FAZum friozinho aqui, pá. Oh!.. nada disso. Uma ventoinhaestá ligada e fica pelas costas. Para desligá-la precisa de uma cadeira,no mínimo. Se não tem de buscar um agasalho.  Qualquer das soluções é de menos esforço, uma se calhar mais atlética: tem de se movimentar por uns cinquenta metrinhos para o agasalho.

É verdade que está tudo cinzento, mas essa cinzentisse não carrega consigo frio. É verdade que muito lentamente cai a chuva. A chuva que já ontem,domingo, atingiu níveis de torrenciais. E foi dia e foi noite e foi madrugada e é esta manhã e não dará tréguas. Foi tão forte que até a piscinada pequenada que estava ficando sem água, hoje já está a transbordar. Chove. É chuva  miudinha, sim, essa que a dizem fertiliza os solos, de pré-sementeiras para os produtores descriminados pela natureza: não chove e não há produção de alimentos. É chuva que não reaviva as culturas que o sol queimou. Sol de tempo longo, como diz Mueche. Não diz mal desta chuva, mas que foi tardia, para ele. É chuva que carregando consigo a dor para milhentas famílias que fazem girar a roda da economia: a actividade informal de comércio reduz; a baixa da capital anda semi-desértica e os serviços de saneamento postos àprova.

Nos bairros periféricos é a desgraça, e isto é cíclico, mas um dia as universidades,aos montes, produzirão mentes que encontrarão a solução, a forma de resolver esta equação.

São muitos os serviços que irão registar muitas ausências: muitos não podem sair das casas (precisariam de barquinhos), outros não vão fazer-se ao local de trabalho porque o transporte não abunda, noutros sítios nem por sombras.

A periferia das cidades de Maputo e Matola se tornou num imenso Xitala-Mati de outros tempos. Dos tempos de ódio e de luta, de esperançar. É destes bairros que saíram os guerreiros, que os tendo conquistado não conseguem dar-lhes a vida. A cada Fevereiro, o mesmo hino. O hino do mal. O hino da desgraça cujos sons veem da Mafalala, de Chamanculo, da Liberdade, de Maxaquene e de todos esses lugares ondeas mesas viram camas, onde as cozinhas deixam de existir, onde já nem faz amor. Não há jeito. Não há como, pá.

Os armeiros que não conseguem entrar os seus campos para levar a produçãoaoscentros de consumo. E estes estão precisando de carnes, de legumes, de cereais, que as casas de restauração e as tascas, estão sendo muito pressionadas. E não tem como satisfazer a gente.

 A chuva não deixa.

A chuva de infortúnios,caramba!

E os leitos dos rios? Neste ritmovão trazer mais desgraça pelo país fora. Vão engravidá-lo de dor. E nos mesmos lugares, mesmas vítimas.

Felizmente abunda gente profissionalizada, previsões precisas. Então alguém se descuida da sua machamba? Pelomenos ainda há isto para as gentes, para esses deserdados da sorte. Que se calhar até melhor seria dizer os “gentios” de todos os tempos, de todos os Fevereiros, mas o que viria daí, não daria para viver. Até da parte daqueles que nesse tempo chamaram gentios aos gentios de então.

Bom, isso não é nada. Continua a chover e a galinha com pintos, em número de nove, está com os filhotes debaixo da mesa protegida pelo parrô. Os galos, as galinhas, os pombos, debaixo da chuva, que é miúda, debicam na imensa mesa de cimento onde todas as manhãs é servida(pelo Atino que hoje ainda não chegou) a refeição do dia. Dos bebedouros hoje não se servem.

Bate uma suave brisa, do sul, e as copas das mangueiras, com muita suavidade, dançam. Os ramos da abacateira e os seus frutos ondulam. Depois são as goiabeiras,os limoeiros e a única laranjeira que sobreviveu ao longo abandono. E agora é o sumo de seu fruto misturado com o de outras frutas que escorre sobre a línguaáspera e desejosa. E depois é o seu estar e a vibração do corpo.

Muito bem, é o que se tem de viver agora e nos tempos que hão-de vir, outros viveres se mostrarão. E haverá testemunhos.

Mas há os peixes que se multiplicam nos rios, nas águas interiores que já se tornaram instituição. Os peixes, a maior fonte de proteína para os habitantes desta pérola do Índico, a fonte de sobrevivência de milhares e milhares de pescadores artesanais de Mucoroje, de Larde, de Inhassoro, de Bambeni, de Massingir. Olha lá, desta imensa costa que há séculos alimenta.

 

É também chuva que dá vida.

CONVERSAS AOS SÁBADOS

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Administrator: Rogério Sitóe

Administrator: Cezerilo Matuce

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