Director: Lazaro Manhiça

NUM`VAL PENA!: Marcelino dos Santos (LEONEL MAGAIA)

 

“Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.”

Martin Luther King Jr.

PREPARAVA-ME para enviar à redacção a crónica do dia, quando pelo watsapp um amigo me afiança, abalado, que Kalungano tinha partido. Simples e seco disse-me: “o velho Marcelino avançou...”. Cancelei imediatamente a crónica e convoquei para a actualidade uma outra. E disse para mim: “esta é a minha singela homenagem para esta figura incontornável da história deste país...”.

Vi-ohá dias. Caminhava apoiado numa bengala, o que me fez concluir que não via passava muito tempo o velho Marcelino. Contudo, caminhava célere e seguro. Dono de uma aparência bastante jovial para a sua idade. Estava um sábado solarento e de calor mordaz, daí que o convite para se refugiar em estepes refrescantes fosse geral.

A fila para embarcarno ferry-boat era longa, mas bastante alegre. Os carros vomitavam cadências ritmadas que convocavam os esqueletosaempinarem-se convulsivamente ao som de Zico Maboasuda.

Os U2 também se faziam ouvir e lá mais para o fundo da fila para o ferry beldades meneavam as ancas provocadoramente,entretendo-se com o refrão desconfiado de Stewart “dizem que vale a pena casar!”. As gargantas evoluíam e entremeavam entre o refrão de Maboasuda e goles sofridos de Heinneker, Cocas, Spine outros líquidosdesaconselháveis para o colesterol. Pois então, quando vi aqueleguerrilheiro de causas nobres estava eu a tentar perceber a sociologia de massas, olhando para aquela gente muito moçambicana dançando e cantando ao sabor da brisa do mar. Um mar que nos delicia com a frescura do Índico.

O velho Marcelino, que queria dar um salto à Catembe, olhou para a enormidade da fila e sorriu. Era enorme a fila. Sorriu porque se apercebeu que o povo sorria. Dançava alegre. Imediatamente acercaram-se dele meninos, rapazes, jovens e velhos. Todos queriam ser solícitos. Queriam que o velho Marcelino txopelasse a bicha e fosse para a frente. Estavam todos de acordo: “não há problemas, o velho pode txopelar pá. Se não fosse o gajo nem estaríamos aqui.” Não sei se Kalungano txopelou ou não. Outro dia, num banco que não vou publicitar o nome porque estou zangado com eles, ainda que seja internacional de Moçambique, vi Marcelino chegar e perguntar quem era o último na fila, na maior das modéstias. Todos os bichantes se entreolharam e, como que por artes mágicas, decidiram de forma unânime que o camarada devia seguir para ser atendido imediatamente. O velho recusou-se redondamente e, segundos depois, estava no maior papo e às gargalhadas coma malta da fila.O zeloso gerente do balcão do banco que não digo o nome, mas que é internacional de Moçambique, com quem estou muito zangado, levantou-se e convidou o palestrante de ocasião para um atendimento personalizado. O velho, a contragosto e quase empurrado pelos amigos bichantes, acabou aceitando o convite.

Na filapara o ferry-boat para a Catembe também foi assim. Marcelinodos Santos foi literalmente engolido numa horda de gente. Todos queriam conversar com o guerrilheiro. Todos queriam tirar uma fotografia com ele. As crianças gritavam o seu nome, seguramente influenciadas pelos pais. Marcelino sorriu e conversou, abraçou calorosamente as crianças, aguentou firme com os flash dos papparazi de circunstância. Foram momentos impressionantes. Acreditem, a minha moçambicanidade e auto-estima e de todos quantos viram aqueles momentos verdadeiramente enternecedores e sem nenhuma nesga de cinismo cresceram orgulhosamente. E depois recordei-me de Samora.

 

Obs. Texto publicado a 9 de Novembro de 2011.

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