Director: Júlio Manjate

NUM’ VAL PENA: Os deuses da chuva (Leonel Magaia)

 

O dia nasceu cinzento. Nuvens negras pairavam pelos céus anunciando um dia nada simpático. Pingos de chuva fizeram a sua aparição, primeiro de forma envergonhada, para logo a seguir darem lugar a bátegas violentas. No hall do Jornal Notícias gente aglomerava-se para fugir à chuva. Os seguranças foram condescendentes e deixaram todo mundo acotovelar-se à entrada do jornal, até que a chuva parasse. Essa é que não colaborava e cinicamente ia aumentando a sua intensidade, a par de violentos relâmpagos e trovões que mostravam a sua pérfida intimidade com Deus, o senhor do céu e o deus da chuva, aquele que tem o terrível poder do relâmpago, cuja ira e fúria eram representados pela tempestade. As conversas no átrio do jornal começavam a dominar os mistérios da chuva, do relâmpago, da tempestade e do trovão. Cada um dos circunstantes foi lavrando os seus argumentos perante os fenómenos em debate. Duas vertentes de análise ficaram para debate: uma, mais científica, que defendia que os mistérios da chuva e da tempestade não passavam de fenómenos naturais cientificamente explicáveis. A outra, mais metafísica, que tentava convencer à plateia que os deuses da chuva e das tempestades estão vivos e convivem connosco todos os dias. Dois polidores de carros eram os mais acérrimos defensores deste último argumento.

“- Kota, eu sei do que estou a falar. Ninguém me disse, eu vi. Na minha terra isso é normal. Já vi gajos a mandarem chuva para o quintal de alguém...”

“- Ahhh puto, fusseka. Vocês inventam coisas que depois passam a acreditar.” - retorquiu o kota, para quem era dirigido o argumento.

“- Ouve-lá rapaz, você não aprendeu na escola que a água, quando é aquecida, pelo Sol ou outro processo de aquecimento, evapora e se transforma em vapor de água; Este vapor de água se mistura com o ar e, como é mais leve, começa a subir, formando-se nuvens carregadas de vapor de água, que ao atingir altitudes elevadas ou encontrar massas de ar frias, o vapor de água condensa, transformando-se novamente em água; Como é pesada e não consegue sustentar-se no ar, a água acaba caindo em forma de chuva...você mpfana não sabe disso?” - replicou triufante o “kota” envaidecido pela retórica académica que mereceu vivas da plateia. O duelo argumentativo resumiu-se a dois contendores apenas.

“- Vosso problema é esse. Marram maningue e depois se esquecem de onde vêm...aqui em África, essas vossas coisas água aquecida que depois sobe sozinha e volta como chuva não funcionam...sabiam que agora que está a chover na KaTembe está um sol danado?!”

Estremeci. Senti que a plateia toda ficou petrificada.

“Aqueles gajos da KaTembe têm chuva quando querem....toutadizer....e hoje não tão bizzes em chuva...”

“- Vamá deixar esse papo pessoal, eu vivo na KaTembe e nunca vi isso aí de chuva cair por quarteirões...” - intercedi, tentando apaziguar os ânimos.

“Ai é? um dia vais me dizer mano...” e desapareceu por entre a chuva que teimava em cair estrondosamente.

A verdade é que alguns dias depois, debaixo de um sol abrasador e sentado à sombra de um farto cajueiro recebo um vídeo por via do whatsap de uma amiga. Alguns, não tantos, quarteirões separam as nossas casas. Uma voz legendava o vídeo:

“Está a chover muito e a cair granizo....tempestade amigos...”

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