Director: Lazaro Manhiça

DE  VEZ EM QUANDO: “Xiba Mati” - Alfredo Macaringue

AGORA que estou a ficar velho, a minha tendência é pensar para trás, mas isso é muito natural. À  frente dos meus passos já não há muita coisa, então é melhor ir me divertindo a fazer as contas mais bonitas do que passou. Também não é muita coisa assim que constrói o meu passado, já que fui um menino que não saía muito do quintal. A minha vida circunscrevia-se entre a escola e a igreja, um pouco naqueles divertimentos de meninos da época, como ir assistir a um filme de “cow boy” no lendário Cinema Império.  O resto era o confinamento de uma disciplina rígida.

Apesar de todo esse controlo, ainda fui a tempo, já na adolescência, de conhecer alguns lugares históricos da cidade de Maputo que ainda hoje subsistem. E um desses sítios é Matlotlomana, que não passava de um centro de prostituição de baixa categoria, onde se podia esperar de tudo, incluindo um esfaqueamento ou uma “garrafada” na cabeça. Isso passou-se no tempo dos “mabandidos”.

Embora pessoalmente não tenha frequentado esse lupanar, sou daquele tempo. Do tempo em que os machopes eram submetidos à humilhação de carregar baldes com fezes. Aliás, a propósito dessa história degradante, conta-se uma anedota em que um machope que era varredor da cidade ligou para os seus em Zavala e disse o seguinte: “mãe, fui promovido, já não sou varredor, agora sou carregador de fezes (“nikulile, konku nihawa ka secção ya mitchimba”). Também se aqueles homens se cruzassem com você naquelas noites repugnantes podiam despejar-te um balde inteiro, cabeça abaixo.

Que estas passagens fazem parte da nossa história, é indismentível. Uma história que os jovens de hoje não conhecem porque ninguém a conta para eles, apesar de alguns dos seus pais e avós terem-na vivido e todos aqueles que nasceram nos subúrbios de Lourenço Marques e cresceram lá no tempo colonial, como eu. É preciso contar a nossa história à nova geração para que ela saiba de onde viemos. Caso contrário, não saberão para onde vamos.

Passei recentemente de “Xiba Mati”, uma barraca ligada à gente nativa do “Xitala Mati” ou bairro Indígena”, na Avenida de Angola, em Maputo. Foi como se estivesse a voltar para os tempos. Os nativos do “Xitala Mati” baptizaram aquela casa como forma de preservar a história de um dos lugares mais emblemáticos da cidade de Maputo, o bairro Indígena, de um lado, e Matlotlomana, do outro. Este gesto é também uma luta de resistência para que o tempo não roube o nome dos nossos lugares sagrados, como está a acontecer em todo Maputo, nossa capital.

“Xiba Mati” significa, numa tradução livre, “onde a água bate”. Isso tem a ver com o tempo das cheias e a história ficou. Mas o que me dói é quererem apagar, ali perto, o nome do bairro Indígena ou “Xitala Mati”. O artista plástico Noel Langa vive naquele espaço habitacional e sempre recusou-se a dizer que “eu moro no bairro da Munhuana”. Ele sempre diz, “eu moro no bairro Indígena”. E nesse aspecto, grande Noel, estamos juntos!

A luta continua!

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