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Categoria: Opinião & Análise
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PERCEPÇÕES: Covid-19: entre o pânico e a inércia - Salomão Muiambo (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)

O CORONAVÍRUS, cuja pandemia se espalha a uma velocidade de jacto pelo mundo, é tido nalguns círculos, infelizmente, como matéria de espectáculo.

Alguém contou-me esta semana que viajava num transporte semi-colectivo quando, à certa altura, um passageiro pôs-se a tossir. Tossia insistentemente até que um outro gritou: “cobra!”; “cobra!”.

Os passageiros, atarantados como baratas, precipitaram-se uns pelas janelas, outros pelas portas que se tornaram exíguas demais para evacuar, ao mesmo tempo, o número de pessoas que viajava naquele autocarro. O que resultou daquela gritaria foi um pânico em que pessoas inocentes teriam sido vítimas, umas pisoteadas, outras magoadas com certa gravidade, sem que, na verdade, houvesse algum rastejante no interior daquele veículo. Consta que o jovem que gritou “cobra!”; “cobra!” fê-lo para despertar a consciência dos passageiros de que aquele tossir podia ser de alguém infectado pelo novo coronavírus. É que tão contagiosa que é a doença, era preciso tomar cautelas em protecção de todos os viajantes.

Nas conversas, depois do susto, alguém deu razão ao jovem que gritou “cobra!”, dizendo que o seu silêncio poderia ter sido fatal, caso o passageiro que tossia estivesse, na verdade, infectado. Ou seja, todos os passageiros corriam risco de contrair a doença e disseminá-la.

Aqui torna-se difícil balancear o que teria sido mais fatal, entre o pânico causado pela gritaria do rapaz e a inércia do seu silêncio. A verdade, porém, é que as pessoas precisam de estar em permanente estado de alerta para, com calma e rapidez, poderem reagir em caso da existência de uma cobra no “chapa-100”, ou seja, em caso de alguém infectado pelo novo coronavírus viajar num transporte público. E para se estar em alerta constante é preciso que todos saibamos e reconheçamos que vivemos um período particularmente difícil, em que cada um deve fazer a sua parte para evitar a propagação do Covid-19.

O coronavírus, diferentemente de outras pandemias como a dengue, por exemplo, ou a febre aviária ou o sida, obriga a uma mudança radical do modo de vida. E este desafio torna-se maior ainda porque no mundo em que vivemos há os que pontapeiam os serviços sociais básicos em benefício do livre mercado: o lucro.

Ora, mudar radicalmente o modo de vida implica pensar seriamente na sociedade em que vivemos, implica, no caso da pandemia do coronavírus, lutarmos não somente para nos protegermos como indivíduos, mas a estarmos dispostos para proteger a sociedade como um todo e, sobretudo, as pessoas mais frágeis e expostas.

Seria de uma negligência absurda, até socialmente irresponsável, pensar que o coronavírus é para os outros; que nós não fazemos parte desses outros. Todos nós temos que levantar as nossas vozes para corrigir este tipo de discursos que, aliás, tem sido comum entre nós. Ficar calado e não disseminar o pouco que sabemos sobre o Covid-19 é o mesmo que contribuir para a sua existência e consequente propagação.

Fiz a minha parte.

Até para a semana!